Os 25 anos da SEGA Saturn

25 anos depois do seu lançamento, a fama da SEGA Saturn e a sua estreia desastrosa no Ocidente já fazem parte da cultura pop. O seu marketing, o lançamento antes da data estipulada, a falta de jogos, a sua aposta no 2D e não no 3D já são conhecidos por todos os fãs da história dos videojogos, naquele que é o período mais negro da SEGA. Este foi o princípio do fim, o destino estava traçado. Mesmo com a Dreamcast, era impossível parar o que a Saturn começou.

Ao contrário do que aconteceu na Europa, a Saturn teve direito a várias edições especiais no Japão.

Mas 25 anos é muito tempo e as feridas curam-se. A sua fama nunca desaparecerá, mas há medida que o tempo passa, mais jogadores descobrem o catálogo interessante, ainda que inconsistente, da consola 32 bits – em especial, os exclusivos japoneses. Como antigo fã da SEGA, posso dizer que estive no centro dos acontecimentos, onde defendi com unhas e dentes a Saturn contra amigos que passavam lentamente para a rival PlayStation. Enquanto tive forças, resisti e joguei alguns dos jogos mais estranhos de que me lembro, e mesmo antes de sucumbir ao poder e popularidade da consola da Sony, senti pela primeira vez o que é o desapontamento. A Saturn sempre foi este misto de emoções.

No Natal de 96, não havia outra consola que quisesse mais do que a Saturn. A PlayStation já estava no mercado, mas a consola da SEGA era a única que era falada na escola e nas ruas onde brincava. Os meus amigos queriam a Saturn, alguns deles já a tinham, e eu mal podia esperar para me juntar a eles. A Mega Drive estava oficialmente acabada, fazia parte do passado, e eu queria pertencer à nossa geração. Foi a única coisa que pedi para o Natal – e foi a prenda que abri mesmo no final da noite.

A minha memória está um pouco confusa, não me recordo do bundle que recebi, mas sei que recebi três jogos nessa noite: Tomb Raider, Iron Man and X-O Manowar in Heavy Metal e Blast Chamber. Durante meses, foram os jogos que me acompanharam ao longo da minha primeira aventura pelo mundo dos 32 bits. O primeiro, o clássico da Core Design, arrebatou-me por completo com os seus níveis e puzzles que nunca consegui decifrar. Tomb Raider era um jogo que me intimidava, mas que me motivava sempre a seguir em frente e a descobrir mais. Nunca passei do terceiro nível, mas lembro-me das tardes passadas a jogar. Os outros dois jogos? Bem, são das piores recordações que tenho com a consola. Especialmente Blast Chamber.

Até receber jogos novos, lembro-me de passar horas a olhar para os menus, a colocar CDs de música e a descobrir as sequências em 3D com as naves. Adorava a estética da Saturn, desde a consola em si até aos comandos, e ficava fascinado com a ideia dos modelos poligonais e da sua liberdade no que toca às perspetivas. Recordo-me perfeitamente de ficar boquiaberto com os cenários de Tomb Raider. A minha porta de entrada para este novo mundo foi a Saturn.

Meses depois, acabei por adquirir Panzer Dragoon 2: Zwei, Sonic 3D: Flickies’ Island e Galactic Attack. Panzer Dragoon 2 transformou-se rapidamente num dos meus jogos favoritos da Saturn e é, ainda hoje, uma das minhas melhores recordações com a consola. Cheguei a jogar o primeiro, mas só anos depois e na Xbox, através de Panzer Dragoon Orta. Galactic Attack, um shump, foi uma das compras mais impulsivas que fiz com o dinheiro que recebi nos anos e não me arrependi. Queria ter comprado Quake, ainda o experimentei num clube de vídeo de Moscavide, mas nunca o fiz.

A Saturn foi pensada para jogos 2D e com sprites, e só depois para 3D, e isso nota-se em jogos como este. Mas existem exemplos ainda melhores, como Guardian Heroes, Dragon Force, X-Men: Children of the Atom, Astal, entre outros.

O último jogo que comprei foi Burning Rangers. Hoje em dia, é um dos jogos mais cobiçados pelos colecionadores, mas quando o comprei, era apenas mais um no meio de tantos outros. Foi a capa e o estilo anime que me chamaram a atenção, juntamente com o logotipo da Sonic Team. Não sabia o que me esperava, mas foi a minha prenda de anos, encontrado numa loja em Estremoz que muito possivelmente já nem existe. Adorei as minhas horas com Burning Rangers, com os seus níveis curtos, mas desafiante. Foi a minha última experiência com a consola, um último adeus. Em dezembro, comprei a PlayStation.

25 anos é muito tempo. Apesar de não a ter adquirido durante o seu lançamento, sinto o passar do tempo e vejo como a indústria evoluiu tanto desde a SEGA Saturn. Aprendemos muito com ela e com os seus erros, e criámos gerações mais sólidas e duradouras. Até à Wii U, a Saturn parecia ser o único exemplo perfeito para demonstrar como não se deve lançar e arquitetar uma consola. Hoje em dia, já vimos tanto e pior, mas a fama continua a persegui-la. Apesar do curto tempo que passei com ela, é das consolas mais nostálgicas para mim e aquela que merece muito uma reedição. Uma SEGA Saturn Mini é importante, necessária.

É uma anomalia tão grande na indústria. É um recusar do progresso e, ao mesmo tempo, uma leitura errada do que seria o futuro dos videojogos. A SEGA arriscou tudo numa consola que procurava emular a experiências dos salões de jogos sem perceber a transformação que acontecia dentro da indústria, lançando para o mercado uma nova plataforma que parecia datada desde o primeiro dia. Como é que isto aconteceu? Como é que a SEGA passa de lançar periféricos para a Saturn? A história é fascinante, aconselho-vos a ler mais sobre a consola, e é um acontecimento inesquecível.

Com a Saturn, a SEGA fechou o seu destino e levou-nos numa viagem vertiginosa até ao fim. Agora sabemos tanto sobre o seu fracasso, sobre a sua história e falhas, mas há 25 anos, parecia ser um oásis no meio de um deserto de 16 bits. Em Portugal, a SEGA era rainha e toda poderosa, algo que nunca mais se voltou a repetir. Posso dizer que vivi tudo isto, esta febre e esperança, até com a Dreamcast. Felizmente, ficaram apenas as boas memórias. Mesmo sem a minha Saturn, há muito perdida, e sem os meus jogos, agora é hora de celebrar. Que o futuro seja ainda mais simpático para esta memória dos anos 90.

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