Luigi’s Mansion 3 | GLITCH REVIEW

Existe uma certa magia nos jogos da Nintendo. Uma vida, alegria e uma atenção aos pormenores que raramente vemos nas produções de outros estúdios. Há algo que nos faz pensar automaticamente que aquele jogo é, sem quaisquer dúvidas, “um jogo da Nintendo”. Podemos adorar ou odiar, mas isto é um facto e por mais títulos que analise, seja na Nintendo Switch ou em qualquer outra consola da gigante japonesa, continuo a ser surpreendido pela qualidade geral dos seus exclusivos. Antes de chegarmos ao final de 2019, e semanas antes do regresso de Pokémon, temos toda esta filosofia e revelação novamente com Luigi’s Mansion 3.

Talvez a surpresa seja maior para mim, que saltei diretamente do primeiro jogo, lançado na GameCube, para esta sequela, 18 anos depois. E tal como a série, deixei para trás a mansão empoeirada, e algo limitada em termos de dimensão, para me aventurar por uma nova campanha que consegue não só manter o espírito do original intato, como continuar a evoluir a jogabilidade com novas mecânicas, métodos de exploração, um level design muito mais apurado e empolgante, e um leque de fantasmas e de bosses que são desafiantes, mas igualmente divertidos e carismáticos. Como sequela, Luigi’s Mansion 3 é o refinamento da série e a base para um futuro ainda mais empolgante.

Foi surpreendente chegar a esta nova aventura de Luigi sem ter jogado o título anterior, Dark Moon, lançado na 3DS em 2013, mas foi, ao mesmo tempo, uma experiência que não quereria viver de outra forma. Para trás ficou o pequeno ecrã da portátil anterior, dando lugar ao regresso de Luigi e da sua caça ao fantasma às televisões, onde experienciei a maior parte da campanha. E ainda bem. Em Luigi’s Mansion 3, temos acesso àquele que é o maior cenário explorável da série, protagonizado por um hotel, para onde Luigi e amigos são convidados, com vários andares e segredos para descobrir. A Nintendo consegue, no entanto, encontrar sempre um meio termo entre o passado e a novidade, e constrói a história da sequela da forma mais simples e direta possível, mantendo o foco em Luigi, claro, mas também nos novos vilões e na sua necessidade em transformar tudo e todos em quadros.

O charme, claro, continua inalterado e basta vermos o jogo em movimento para percebermos o nível de cuidado que os cenários e as personagens demonstram, desde o design dos níveis, e do posicionamento tanto dos segredos – onde podem contar com várias moedas, notas e gemas especiais para descobrirem –, como dos fantasmas em si, até às animações e expressões do pobre Luigi, que está constantemente num estado de pânico. Adorei ver as suas reações espontâneas aos vários sustos espalhados pelos mapas e a sua interação, quase a tremer, com os cenários. Destaco ainda a performance, onde não encontrei problemas que valham a pena identificar, e o trabalho de iluminação do jogo, criando sombras mais presentes e dando lugar a um trabalho de cor e de direção de arte muito mais fortes e ricos em detalhe.

As zonas são muito variadas e quase que nos fazem pensar que não estamos dentro de um hotel, mas sim de um enorme ecossistema, onde se destaca a iluminação e a paleta de cores.

E estamos a falar de cenários extremamente interativos, onde podemos aspirar praticamente tudo o que vemos. Sejam trapos ou toalhas, que podemos puxar, ou qualquer outra tralha espalhada pelo hotel, é possível destruir por completo uma sala e descobrir segredos ou simplesmente retirar prazer nesta destruição, com várias partículas a espalharem-se pelo ar e com os itens sempre animados a rolarem pelo chão. Podemos, por exemplo, puxar tapetes e descobrir caminhos alternativos, e também podemos tombar armários para descobrir gemas ou maços de notas. É impossível não descobrirmos uma nova sala e tentarmos aspirar tudo.

Com a ação a decorrer dentro de um hotel, a campanha divide-se por andares, com Luigi a precisar de encontrar os vários botões do elevador, a única forma de transporte no jogo (excluindo alguns atalhos que irão encontrar), para avançar. Esta divisão por andares faz com o que o jogo adote uma estrutura mais fragmentada, claro, mas igualmente propensa à surpresa, criando mundos diferentes, à medida que readapta algumas zonas tradicionais dos hotéis, para cada andar. As zonas são tão distintas que rapidamente percebemos onde estamos, como saímos e o que encontramos em cada uma delas, conseguindo identificar também o seu andar e como lá chegar. O jogo está muito bem construído e sente-se a progressão à medida que avançamos pelos andares, ainda que a estrutura seja um pouco repetitiva ao limitar a descoberta de novos botões a batalhas contra bosses (em quase todos os casos). E no que toca aos segredos e caminhos alternativos, o hotel é absolutamente divertido de explorar.

Professor E. Gadd tem agora uma loja onde podemos comprar vários itens que nos auxiliam durante a campanha, seja na descoberta de gemas ou de fantasmas escondidos, mas também de ajudas importantes para os combates.

Esta aposta no equilíbrio entre o passado e o presente continua na jogabilidade, com Luigi’s Mansion 3 a pegar nos elementos introduzidos nos dois jogos anteriores e a criar novidades que elevam a jogabilidade e a própria caça ao fantasma a um novo patamar. Apesar da ação se focar maioritariamente na exploração do hotel e na descoberta e captura de fantasmas, a Nintendo conseguiu limar o sistema de combate a um ponto em que nos sentimos sempre em controlo. A aspiração é eficaz e clássica, funcionando como nos outros jogos, contando com a presença do novo Slam, mas podemos também empurrar ou atirar objetos, usar uma lanterna para cegar os fantasmas, revelar segredos e ainda utilizar um desentupidor para puxar e mover objetos nos cenários. Com estas mecânicas, que o jogo introduz logo na primeira hora de jogo, conseguimos capturar todos os fantasmas do hotel e explorar os seus caminhos alternativos em busca de segredos, com a campanha a focar-se não na variedade, mas sim num crescendo eficaz de desafios e de quebra-cabeças que nos deixam pensar fora do molde em busca de soluções. E na minha opinião, esta harmonia só é atingida pela presença deste número fixo de mecânicas.

A grande novidade é, no entanto, o Gooigi, a cópia gelatinosa do nosso herói medroso, que pode ser utilizado em combate e na resolução de puzzles. Esta cópia, que acionamos facilmente ao pressionar o analógico direito, é capaz de passar por grades, ativar interruptores e até capturar fantasmas, funcionando independentemente de Luigi. Aliás, é necessário controlar os dois em separado para resolvermos alguns dos quebra-cabeças, a não ser que estejamos a jogar cooperativamente. É também possível combinar ataques, tornando a aspiração mais forte, e descobrir novos segredos e caminhos alternativos com a cópia gelatinosa. Como os movimentos são os mesmos, nunca sentimos que estamos a controlar uma nova personagem, mas sim uma extensão de Luigi capaz de chegar a locais inatingíveis pelo original. E com um foco tão apetecível nos puzzles, Gooigi encaixa perfeitamente na estrutura desta sequela tanto em combate, como na exploração.

Os boos estão de regresso e é preciso encontrá-los à medida que exploram o hotel, constituindo um dos maiores desafios do jogo, não só na sua descoberta, como na sua captura.

Para um jogo de caça aos fantasmas, a experiência não seria a mesma se não tivéssemos um leque interessante e variado de espectros à nossa espera, e Luigi’s Mansion 3 não se acanha neste campo. Para além dos fantasmas mais comuns, que descobrimos à medida que exploramos os andares do hotel, temos ainda espíritos mais agressivos, outros mais rápidos, alguns que se escondem por detrás de objetos, sendo impossível atordoá-los, e ainda bosses e mini-bosses. Todos eles têm pontos fracos e resistências que temos de explorar para os capturar, dando ao jogo uma sensação de estratégia que torna cada combate num desafio frenético. O jogo nunca chega a ser difícil, que é um dos seus pontos fracos, mas encontramos várias situações onde teremos de gerir a captura de vários tipos de fantasmas em simultâneo, cada um com as suas vantagens e desvantagens. E saindo diretamente o primeiro, foi incrível encontrar fantasmas com tanta personalidade e com designs ainda mais interessantes e animados.

Existe alguma repetição no ritmo dos confrontos fora das batalhas contra os bosses, ainda que o jogo tente equilibrar a sua presença. Infelizmente, seguimos sempre a mesma ação, seja um combate mais simples ou contra um grupo de fantasmas. Utilizamos a lanterna para os cegar e aspiramos os fantasmas, ou retiramos alguma proteção que estejam a usar, como óculos escuros, cegamos e, por fim, aspiramos. É aqui que podemos utilizar o arremesso para causar mais dano e até atacar outros fantasmas ou destruir partes do cenário. A esta falta de variedade junta-se um controlo de câmara com alguns problemas de direção, que pode mudar a visão de Luigi quando ativamos o aspirador, e menus desinteressantes e antiquados. Se não fosse pela repetição e pelos modos online sem grande longevidade, este poderia ser o melhor exclusivo da Nintendo Switch em 2019.

Luigi’s Mansion 3 é um dos jogos mais adoráveis e divertidos que joguei este ano, e uma sequela que consegue finalmente elevar a fórmula da série a um novo patamar. Olhar para o original e perceber o que melhorou neste últimos 18 anos, faz-me apreciar ainda mais as novidades e imaginação de Luigi’s Mansion 3, ainda que acabe por sentir que há espaço para melhorias. Um pouco mais de ambição não teria feito mal a esta nova aventura de Luigi, mas é difícil ser-se negativo e crítico perante um jogo tão charmoso como este. Só há algo a fazer: joguem Luigi’s Mansion 3.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise foi cedido pela Nintendo Portugal.

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