Terror Portátil

Por: André Pereira

Como o Natal está a espreitar, nada melhor do que começarmos a nossa lista de melhores jogos de terror. E como não sou tendencioso, vou para o que joguei na Nintendo Switch. O principal factor para um bom jogo de terror não é o jump scare, mas a qualidade de muitos ports na consola e agora que fiz a piada fácil, vamos ser sérios:

Um bom jogo de terror tem de saber criar e manter ambiente; o que me atrai no género é a sensação de desconforto e de me sentir um peixe fora de água. Recentemente vi o filme Midsommar, de Ari Aster, e foi assim que me senti durante o filme todo. Certo, ri-me em certas partes, mas acabou por ser um riso nervoso. Mesmo sabendo que era um filme de terror e que iam acontecer coisas, não pude deixar de me sentir ansioso. E para uma pessoa já ansiosa, ui.

Hygge ou conforto.

Na nossa Nintendo Switch, e que tenha jogado, consigo apontar dois jogos nipónicos que conseguiram criar o ambiente que descrevi e deixar-me satisfeito: Yomawari: The Long Night Collection e Death Mark – serem orientais pode ser coincidência, mas os meus jogos de terror favoritos vêm do Japão (Silent Hill 2, Resident Evil 2 e 3, Siren etc). E alguns filmes.

O que têm em comum é a utilização do folclore japonês, ou a sua deturpação, para criar um ambiente desconfortável com coisas mundanas como, por exemplo, espíritos escondidos em objetos  do dia à dia e maldições. Ao passo que nestes jogos, um espírito com uma tesoura é uma coisa aterradora e stressante, num Yo-kai Watch já é hilariante, apesar de brincar com as mesmas tropes, mas ser direccionado para crianças. Ambiente e contexto!

Quanto aos jogos em si, Yomawari surpreendeu-me na positiva pelo risco que a Nippon Ichi tomou em lançar um jogo não-RPG. Manteve a estética do estúdio, mas deu-nos algo diferente, colocando-nos na pele de meninas indefesas, à noite, e perdidas nas ruas da sua cidade. É notória a inspiração em Clock Tower, um clássico que nos remete à impotência e nos deixa indefesos perante os perigos da narrativa. Fugimos, procuramos abrigos e esperamos, esperamos muito tempo. E é quando o jogo começa a brincar com os seus ruídos monstruosos e batidas cardíacas ansiosas. Não há jump scares, mas um medo irracional do estranho que espera no outro lado da porta. A luz também é companheira e reconfortante, a eterna mensagem do bem contra o mal; escuridão contra a luz.

Fofo, não? Não.

Death Mark é uma novela visual que traz outro elemento de terror para a mesa: o tempo.  Não há nada pior do que ver o tempo a passar, os prazos a aproximarem-se e o trabalho por fazer. Um medo bem real na nossa sociedade, mas uma metáfora para a morte. Não tivesse a palavra morte no título… Neste jogo, cabe à personagem investigar e resolver vários mitos urbanos de forma a livrar-se de uma marca que não o deixa esquecer de que irá morrer em breve. O jogo não tem um cronómetro per se, mas a sensação constante de que estamos a correr contra o relógio está lá. Até porque estamos a ser perseguidos. Ainda estamos a falar de metáforas?

É um jogo com algumas nuances de RPG e com forte conteúdo visual, mas nada de explícito. Durante a escrita deste artigo, fiquei a saber que a sequela está para sair na Nintendo Switch!

Hum…

E como este artigo não é para ser uma análise dos dois jogos (pois já as fiz), não irei mergulhar a fundo, mas deixar a recomendação que a sós ou acompanhados, são duas opções para o 31 de outubro. Ou ignoram tudo o que escrevi e atacam Luigi’s Mansion 3 porque sendo um jogo de comédia, posso confirmar que há partes da série com melhor ambiente de terror que muitos jogos (ou filmes) sérios.

 No final do dia, a vida real já é assustadora q.b. e o resto são aditivos para nos distraírem dos verdadeiros horrores. Bons jogos!

O horror, o horror!

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