Concrete Genie | GLITCH REVIEW

Entre gigantes, que escolheram o mês de outubro para se digladiar nos tops de lançamentos de videojogos, eleva-se, de forma tímida mas coesa, Concrete Genie – um jogo que explora temáticas como o crescimento, a amizade e o poder das emoções e que celebra a criatividade de miúdos e graúdos. Uma sinfonia de cor e arte, e a prova de que todos podemos dar asas à imaginação, para simplesmente criar – de forma espontânea… sem medo de pintar fora das linhas.

Em Concrete Genie, vestimos a pele de Ash, um miúdo sensível, que adora desenhar, mas que vive atormentado pela sombra do bullying. Esta é uma temática-chave no jogo da Pixelopus, que explora o assunto de uma forma diferente, ao colocar a tónica na premissa de que existem vítimas de ambos os lados do bullying (tanto do lado do agredido, como do lado do agressor). E é precisamente uma situação de bullying que dá início a esta aventura: Ash é atacado por um grupo de pequenos rufias, que lhe roubam o seu caderno de desenhos, destruindo-o. Numa jornada para recuperar as suas obras de arte, descobre que a pequena vila piscatória de Denska, cenário de toda a narrativa, tem muitos mistérios por desvendar.

Outrora um local de passeio e de memórias felizes, Denska é agora uma cidade cinzenta e despopulada, depois de ter sido alvo de uma crise ambiental, que deixou as suas águas contaminadas. É, também, a tela de pintura de Ash, que, com a ajuda de um pincel mágico e da criatividade dos jogadores, irá colorir e iluminar a cidade, numa tentativa de restaurar este local à sua antiga glória. Mas Ash não está sozinho e rapidamente se apercebe disso. Os recantos de Denska têm outros habitantes: os Genies.

O pincel mágico de que falamos é dado a Ash por Luna, um de vários Genies que povoam o mundo de Concrete Genie. Os Genies são criaturas mágicas, que nascem da imaginação de Ash e do jogador – uma espécie de amigos imaginários que ganham vida. E não há regras: pernas no lugar de braços, caudas que saem de ouvidos, cogumelos que fazem de chapéus, vocês decidem. Concrete Genie transforma os monstros que habitam “debaixo da cama” em personagens fofas, coloridas, brincalhonas e com muita personalidade. São eles que ajudam Ash a resolver puzzles, o desafiam a pintar determinados desenhos ou o chamam para brincar.

Por se moverem nas paredes, atribuem à jogabilidade de Concrete Genie uma dimensão interessante, com a ação a passar-se em dois planos distintos que, por vezes, se tocam – realidade e imaginário misturam-se para criar um mundo que brinca com o 2D e o 3D. Nas paredes do jogo, o inesperado acontece a cada momento: os produtores certificaram-se de que os Genies interagem com as pinturas e que os próprios desenhos são dinâmicos. No mundo de Ash, a ação desenrola-se em simultâneo, pontuada por momentos em que real e imaginário dão a mão e se unem para criar impacto na ação e narrativa. Curiosamente, estes movimentos e interações sentem-se orgânicas, fundindo-se com o cenário de forma perfeita e ampliando o impacto que os desenhos têm na paisagem cinzenta.

Concrete Genie é, na sua génese, um jogo de plataformas, mas a Pixelopus decidiu pegar no género e dar-lhe um twist interessante ao colocá-lo, lado a lado, com as mecânicas de jogabilidade associadas à pintura. Desta forma, o design de níveis não é óbvio e o jogo deixa o jogador ir descobrindo o caminho, de forma exploratória, sem nunca chegar a ser frustrante. A progressão de Concrete Genie faz-se de forma simples, lembrando um jogo de plataformas “old school”: o jogador vai passando de área para área, à medida que vai resolvendo puzzles, ultrapassando obstáculos, reunindo colecionáveis e cumprindo objetivos. Estes, vão desde unir forças com os Genies para resolver puzzles, a encontrar as folhas do vosso caderno que voam pela cidade ou acender todas as lâmpadas localizadas em Denska – as luzes acendem-se quando as pintam, criando um duplo efeito de luz e cor.

Ash movimenta-se de forma rápida e astuta pelo mapa, das ruas aos telhados, permitindo tirar partido de uma certa verticalidade que é ampliada com o progredir da história e o desbloquear de novas mecânicas. Na segunda metade do jogo, e não desvendando muito, pois a surpresa vale a pena, a jogabilidade de Concrete Genie ganha ainda uma componente de velocidade e acrobacias.

Apesar de ter vários níveis de dificuldade, Concrete Genie não é um jogo complexo – podem inclusivamente contar com dicas que vos ajudarão se ficarem presos numa só zona durante alguns minutos. A narrativa está dividida em mais ou menos quatro atos e aquilo que considero duas partes distintas. Em cerca de seis a sete horas de jogo, irão pintar muito, explorar Denska, recolher as páginas do vosso livro de desenhos, descobrir Genies e colecionáveis e navegar pela história. Se, na primeira metade do jogo o ritmo é descontraído e maioritariamente narrativo, na segunda metade de Concrete Genie dá-se uma mudança profunda – tal como as paredes da cidade, o ambiente do jogo transforma-se de forma quase camaleónica.

Na segunda metade da história, e sem querer spoilar demasiado, Concrete Genie ganha um novo tom e novas mecânicas, enquanto inicia o caminho para um clímax a um bom ritmo – não se sente, de todo, aquela sensação de apressar da história e isso é um ponto muito positivo. Não vos contarei o que acontece neste momento da narrativa, mas poderão esperar uma reviravolta interessante e emocional, com momentos de maior tensão e perícia, nos quais a Pixelopus soube explorar o potencial daquilo que, no início do jogo, era um simples pincel. *wink wink*

Além da tinta normal, Ash terá também de usar a “super paint”: uma tinta especial, dada pelos Genies, que permite eliminar a poluição e escuridão de determinadas zonas do mapa.

Se tivesse de fazer previsões, diria que a pergunta mais comum relativamente a Concrete Genie será algo como “mas é ideal para crianças, não?”. A resposta é sim, mas não só. As mecânicas e temáticas do jogo tornam-no num essencial PlayStation para os miúdos – fica a advertência, aos responsáveis, de que poderá ser necessária alguma ajuda inicial, no que diz respeito à utilização do sensor de movimento do DualShock 4. O jogo permite pintar com este ou com o uso dos analógicos e, depois de testar ambos, recomendo a utilização do primeiro – é mais divertido e o movimento imita, de forma interessante, a ação de pintar.

No que diz respeito à localização, e mantendo o hábito de nos presentear com a possibilidade de jogar em português, a PlayStation Portugal certificou-se de que Concrete Genie pode ser jogado no nosso idioma. A nível do áudio, podem mudar o idioma a qualquer momento e, no que diz respeito ao texto de legendas e menus, este estará em português caso tenham a consola definida para esse idioma. Este detalhe é, para mim, muito relevante, uma vez que permite eliminar quaisquer barreiras de linguagem e fazer com que os mais pequenos possam perceber a temática na sua totalidade. Na verdade, acho que Concrete Genie seria um jogo perfeito para ser jogado em ambiente de aula ou ATL, por exemplo, para explorar a temática do bullying.

Ainda assim, Concrete Genie não é somente um jogo para crianças: eu diverti-me mesmo muito nesta aventura. A pintura e o desenho fascinam-me na mesma medida que me assustam. Nunca tive jeito para nenhuma das duas e, apesar de por vezes dar por mim a ter vontade de desenhar (ou pintar) sempre neguei esse impulso com um “ah, mas eu não sei” ou “para quê? vai ficar horrível”. Contudo, quando somos crianças, estes pensamentos não existem: flores que nascem no céu? Okay, bora; uma floresta que, por acaso, tem um peixe em cima de uma árvore? Mas, claro, normalíssimo. Em Concrete Genie, quando desenhei sistemas solares por cima da densidade da paisagem de uma floresta ou das profundezas do fundo do mar, foi como se a criança dentro de mim tivesse dito “vês? Não há regras”. É uma liberdade que se sente, desde o primeiro momento, com o ato de pintar a tornar-se quase uma forma de meditação. É relaxante e simples e eu adorei isso. 

Liberdade é palavra de ordem em Concrete Genie. Querem recriar o vosso amigo imaginário da infância? Siga, ninguém tem que saber!

Esta liberdade é também resultado do facto de a equipa de Concrete Genie dar ao jogador designs pré-definidos que, com apenas um movimento simples, aparecem nas paredes, formando ilustrações mais complexos. Se, para alguns, esta decisão pode parecer castradora ou limitadora da criatividade, eu considero-a fundamental: ajuda a remover a barreira que é o medo da imperfeição, permitindo desenhar sem o peso de criar algo que é “suposto”. Pintei como pintava a Vanessa de 5 anos e isso foi incrível.

Apesar de termos pintado, até aqui, uma imagem excelente de Concrete Genie, é importante ressalvar de que este não é um jogo perfeito. Foram várias as vezes em que sentimos dificuldade em interpretar toda a informação que nos aparecia no ecrã. Por vezes, devido às cores fortes, utilização de neón e diversos designs numa só pintura, torna-se difícil conseguir perceber que tipo de designs os Genies pretendem que façamos.  Estes designs, que aparecem em balões de pensamento, são também eles desenhados na parede e, o resultado de tudo isto em simultâneo, é, por vezes, um ruído visual, composto por informação que nem sempre é fácil de ler.

Adicionalmente, é pena perceber que a equipa de Concrete Genie não explorou mais a interação de Ash com os bullies. Sente-se uma falta de dinamismo e variedade nas sequências de fuga. Como está, Concrete Genie apenas nos permite correr em fuga e, com sorte, saltar para cima de um prédio e, desta forma, impedir a captura – Ash vai perdendo velocidade e podem também gritar para tentar distrair os bullies. Mas é só. Com o progredir do jogo, estas perseguições tornam-se repetitivas e sem qualquer desafio associado. Já que Ash é tão rápido e arisco, teria sido interessante vê-lo abordar estes “confrontos” de outra forma – por exemplo, saltar por cima dos ombros dos adversários para fugir, ou ser capaz de os pintar com o seu pincel mágico para os atrasar nas perseguições. 

Por fim, o “end game” de Concrete Genie não convida, infelizmente, a continuar a jogar após a conclusão da aventura. Sim, podem voltar ao mundo de Concrete Genie (para completar algo que tenha ficado por finalizar), e até há um modo de “pintura livre” que permite escolher a área na qual querem jogar e fazer aquilo que bem vos apetecer, mas é só. Teria sido interessante ver desafios pós-história, como, por exemplo, pintar uma percentagem de área em tempo limite ou fazer X acrobacias utilizando rampas.

As fugas e interações com os bullies são um dos pontos negativos de Concrete Genie. É pena que a Pixelopus não tenha explorado mais esta seção da jogabilidade.

Em jeito de início de despedida, que é como quem diz que estou a preparar-me para assinar esta obra de arte que vos escrevo, menção honrosa para a excelente banda sonora de Concrete Genie, composta por Sam Marshall, compositor e diretor de áudio na Pixelopus e o modo de fotografia do jogo. A primeira é soberba, e o segundo, apesar de simples, é uma adição interessante ao título, que permite a partilha das criações dos jogadores.

A par de toda a diversão, Concrete Genie explora, de forma direta e simples, temáticas relevantes para a atualidade, trocando-as por miúdos. Do bullying ao impacto ambiental da poluição, das relações ao impacto nefasto das emoções negativas, dos problemas familiares ao poder da amizade, mesmo a que se cria de forma improvável. Concrete Genie é, desta forma, um bom ponto de partida para criar diálogo entre adultos e crianças, simplificando temáticas, sem lhes retirar a importância. É a prova de como os jogos nos podem ensinar mais sobre o mundo.

Por isso mesmo, tenho alguma pena se passar despercebido. O lançamento em outubro, um mês tão recheado de grandes cabeças de cartaz, poderá ter sido uma escolha má para o título. Espero que, a acontecer o que prevejo, Concrete Genie chegue, mais cedo do que mais tarde ao PS Plus, para poder ser descoberto por uma maior fatia de jogadores.

Concrete Genie é um jogo de simbolismos e cor, que, ao tirar partido da liberdade da criatividade, faz do jogador um artista nato. Um título que explora temáticas relevantes e dá um twist interessante ao género plataformas, com uma jogabilidade sólida, um ritmo coeso e algumas surpresas. Um jogo para miúdos e graúdos, que coloca o pincel em algumas feridas relevantes, com a mestria da narrativa e a simplicidade das crianças interiores que, saibamos ou não, todos temos.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise foi cedido pela PlayStation Portugal.
A presente análise não reflete/inclui a experiência de Concrete Genie com a utilização do PlayStation VR.


09/10/2019 – atualização: este artigo foi atualizado para corrigir uma versão mais antiga que incluia um erro na informação relativa à localização de Concrete Genie para português.

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