Gamer com filho(s) | 4. Jogar em família

Abordadas as mudanças na relação individual do jogador com os videojogos, chega a altura de falar sobre o mais importante na vida de um gamer com filho(s): jogar em família.

Para muitos de nós, a passagem do testemunho é um dado adquirido. Somos gamers, os videojogos vão estar presentes nas nossas casas e isso implica tentar passar o gosto que temos por este passatempo para as gerações debaixo. E se é fácil desacreditar os agoiros de quem acha que os videojogos formam pequenos psicopatas, temos de ter consciência de que o mundo e a indústria com que crescemos eram diferentes daqueles com que a nova geração vai crescer.

CONHECIMENTO DE CAUSA
Um facto curioso: os primeiros títulos que comprei foram Heart of Darkness e GTA. Tinha 10 anos. Os meus pais são daquela geração que olhava para jogos assustadores e violentos e diziam “que parvoíce, como podes gostar disso?”. Só. Não havia publicações revoltadas no Facebook nem queixas em formato de petição pública online e as preocupações eram outras, numa altura em que havia pornografia softcore na programação nocturna da TVI vários anos antes de o Big Brother banalizar o conceito de porno saloio™.

Mas se por um lado não sou a favor de um controlo estrito, por outro acho saudável os pais interessarem-se pelo que os filhos jogam, tanto que há uns anos escrevi um especial sobre o assunto com a Vanessa (OG Glitch ftw). A indústria mudou bastante nos últimos 22 anos (porra, estou velho…) e, embora matar e morrer não fosse um passatempo menos inocente nos anos 90 do que o é no século XXI, em 1997 eu esborratava píxeis nos passeios de Liberty City enquanto que em 2002 já espancava prostitutas com um taco de basebol num exercício de poupança financeira. É ligeira, mas há uma diferença.

JOGAR EM FAMÍLIA É
TER DE ARRANJAR UM ESQUEMA
PARA TER CABO DO ROUTER ATÉ À SALA

De certa forma, por muito que os meus pais achassem a maior parte dos meus jogos uma “parvoíce”, uma “porcaria” e coisas “sem graça nenhuma”, de um modo geral sempre souberam o que eu jogava, não porque lhes dizia, mas porque prestavam atenção. Tenciono fazer o mesmo com o Sebastião, embora desconfie que também vá achar os jogos dele uma “parvoíce”, uma “porcaria” e coisas “sem graça nenhuma”. Basta ter a tia V a instigá-lo para jogar a temporada 3029 de Fortnite ou o tio Canelo a corrompê-lo com um JRPG qualquer. Só de pensar já fico mal-disposto.

JOGAR PELO EXEMPLO
Jogue o que jogar, o mais importante é que não seja noob. Estou a brincar, o mais importante é saber lidar com a frustração inevitável. Ser gamer é ficar melindrado com a IA, estar certo de que o jogo faz batota e conspira para nos fazer perder, é gritar com a televisão e sentir aquela tentação de atirar o comando à parede quando no FIFA a minha defesa do Real Madrid joga pior do que as reservas do Mirandela. E estou convencido de que ser pai gamer é ajudar o Sebastião a lidar com tudo isto da forma mais saudável. Pior! É não ficar melindrado com a IA, não gritar com a televisão e não ameaçar sequer atirar o comando à parede por muito teabagging que o TR1AD me faça no FighterZ.

O mais importante numa casa em que há diferentes gerações é o exemplo. Os comportamentos da criança não serão uma cópia exacta dos da mãe ou pai, mas certamente serão influenciados pelos nossos. O que fazemos e como o fazemos é o exemplo que damos e os miúdos têm o péssimo hábito de nos imitarem. Imaginem a dificuldade em explicar a uma criança que a mãe ou o pai podem descarregar palavrões no auricular e insultar um estranho online, mas que ela tem de saber comportar-se – “quando tiveres a tua casa, logo farás como entenderes” é um argumento fraquinho.

JOGAR EM FAMÍLIA É
OUVIR UM IRMÃO NOOB A DIZER QUE
FAZER “TRUQUES” NO STREET FIGHTER É BATOTA

O mais difícil para mim, não tenho qualquer dúvida, será jogar em doses responsáveis. Os meus pais, embora me dessem espaço para jogar GTA, Postal e outras “parvoíces” antes de eu sequer ter buço, sempre fizeram questão de não permitir consolas nos quartos e isso provou ser a forma mais eficaz de controlar quanto tempo eu jogava. Na altura era chato e lutava por quaisquer cinco minutos adicionais, mas, já em mais velho, quando tive um quarto só para mim e a oportunidade de ter lá a consola, acabei por decidir manter a PS3 na sala porque sentia que o meu passatempo fazia sentido enquanto parte da família. Era como um cão, mas deitava menos pêlo.

O LEGADO
Apesar de não se considerarem gamers, os meus pais deram-me o exemplo de que agora preciso. Hoje em dia, o meu pai tem centenas de horas de Panzer Corps (um jogo do Windows 95 ou algo do género) e, no seu apogeu, a minha mãe varria qualquer um no Tétris. E tudo isto com seis filhos. Achar que ser pai é ter de deixar de lado o comando é ideia de quem não percebe minimamente os videojogos, mas achar que vamos ter o mesmo tempo para fazer aquela maratona de Verão que fazíamos nos anos de faculdade é fantasia – os miúdos acordam cedo e, idealmente, tomar conta deles é trabalho de duas pessoas. Ideal também é não ter os miúdos vidrados na televisão a toda a hora enquanto nós jogamos e acharmos que isso é “tomar conta deles” ou um “momento familiar”.

JOGAR EM FAMÍLIA É
COMPRAR UMA CONSOLA SOZINHO
E OS PAIS DECRETAREM QUE É PARA PARTILHAR

Acima de tudo, para mim, ser um gamer com filho(s) é mostrar-lhe(s) a magia do meio, ajudá-lo(s) a perder(em)-se nos mundos virtuais e a compreender(em) o que nos dizem sobre o mundo real. Mais do que um escape, eu acredito piamente que os videojogos devem ser uma plataforma para nos desafiarmos, divertirmo-nos e aprendermos com novas experiências e pontos de vista diferentes que nos ajudam a lidar com os dilemas diários em vez de nos permitirem ignorá-los. E se não sair para aí virado, se não tiver o gene gamer, pois paciência. Há todo um mundo lá fora.

GE_CH

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