Quem és tu, Death Stranding?

Depois de quase três anos de especulações, dúvidas e teorias mirabolantes, Death Stranding está quase a chegar à PS4. O novo jogo de Hideo Kojima, fruto do final da relação com a Konami – que continua a tentar comer sopa com um garfo –, tem conquistado os fãs do género e da série Metal Gear, unindo-os numa antecipação desmesurada e alimentados pela certeza de que será, de facto, um jogo de Hideo Kojima. Mas o que é Death Stranding? Ninguém sabe.

Faltam três meses para o seu lançamento e depois de várias passagens pela E3, Gamescom e PlayStation Experience, Kojima continua a passar uma mensagem confusa e nada concreta sobre que é Death Stranding. Sabemos que é um jogo sobre ligações, que se passa nos Estados Unidos e que há uma estranha ponte entre a nossa realidade e um mundo alternativo marcado pela morte e a ressurreição – e mesmo isto pode ser especulação da minha parte. Sabemos que Norman Reedus, Guillermo del Toro, Mads Mikkelsen, Troy Baker, Léa Seydoux, entre outros, fazem parte de um elenco de luxo que irá dar voz e vida a personagens e a um mundo que ainda desconhecemos.

Esta parece ser uma nova e crescente moda na indústria dos videojogos, onde os estúdios se munem da popularidade de uma figura importante ou de uma série icónica para justificar a venda de um produto. Tal como Death Stranding, podemos olhar para Gears 5 e Marvel’s Avengers para vermos como este fenómeno funciona, onde as informações são limitadas a uma categoria especifica – como o modo multijogador de Gears 5 –, e não aos jogos em si, dificultando a sua análise e compreensão . No caso de Death Stranding, a estratégia parece ser apenas uma: é um jogo de Hideo Kojima, o resto não interessa.

A ideia de explorar o mundo de Death Stranding é muito apelativa, mas apenas porque sou obrigado a fazer um esforço mental e a imaginar o que o jogo poderá ser. O mistério é sempre importante, mas eu quero saber o que vou encontrar e explorar nestes cenários incrivelmente detalhados.

O problema é que interessa. Death Stranding não é Metal Gear Solid, não existem bases ou uma história expansiva e interligada que justifique o envolvimento dos fãs sem uma explicação clara sobre as suas mecânicas. Até mesmo Metal Gear Solid, com os seus jogos mentais, foi sempre apresentado como um jogo com mecânicas específicas, onde as diferenças entre os vários títulos da série eram sublinhadas durante as suas revelações. Sabíamos sempre que jogos eram, como eram e o que poderíamos esperar. Em Death Stranding, podemos esperar uma produção de Hideo Kojima – seja o que isso for em 2019.

Apesar de ser um fã incontornável de Kojima e de ter, quase injustificavelmente, certezas que não irá desapontar, a verdade é que estou saturado deste jogo de cintura a que tenho assistido nos últimos anos. O que começou por ser uma brincadeira e um método “muito Kojima”, acabou por se transformar numa frustração onde não existem certezas sobre nada. Eu adoro um bom trailer surreal, mas eu quero saber o que é Death Stranding, como funciona e o que posso esperar da sua experiência. É um jogo de entregas? De ligações? Mas em que sentido? E como funcionam no mundo do jogo? Somos literalmente um carteiro? Estas questões já não deviam de existir a três meses do lançamento.

Em A Escavação, de Andrei Platonov (The Foundation Pit, 1930), vários trabalhadores são obrigados a escavar e a construir uma enorme fundação para o que pensam vir a ser a base para uma casa do proletariado. Os anos avançam, alguns deles morrem e as escavações continuam sem final à vista e sem objetivos. A sua missão foi, para além de uma enorme crítica à União Soviética, ilusória, irreal, levando-os numa literal espiral descendente que os consumiu. Neste preciso momento, nós somos os trabalhadores a escavar a fundação, a construir uma antecipação incompreensível e nada merecida para um jogo que desconhecemos, composto por pequenos trechos de jogabilidade que não nos dão uma visão geral da sua qualidade e das suas motivações. Não temos nada, mas continuamos a escavar e é assim que a indústria quer que estejamos, que não questionemos nada e que apenas continuemos a consumir com a esperança de que não seremos desapontados com o resultado final. Afinal, como poderemos ficar desapontados com algo que adoramos?

Neste preciso momento, e apesar de adorar o seu design, ainda nem compreendo como funcionam os menus e a UI do jogo. Adoro descobrir mecânicas novas e não quero que os produtores revelem tudo antes do lançamento, mas quero saber como um jogo funciona. Há sempre espaço para explicar e para surpreender.

Outro exemplo, desta vez mais cinematográfico. Em cinema, aprendemos que não devemos escrever uma única frase do treatment ou do guião sem termos uma sinopse final e capaz de resumir a história que queremos contar. Para além da sinopse, que é pouco mais alargada e descritiva, devemos pensar sempre numa tagline, numa frase simples e direta que consiga resumir a ideia a um conceito compreensível. E isto é válido para todos os filmes, sem excepção, por mais surreais, arquetipais ou atípicos que sejam. “Um grupo de camionistas espaciais é atacado por uma criatura aparentemente indestrutível” – Alien, de Ridley Scott (1979). “Um tubarão aterroriza uma vila costeira nos Estados Unidos” – Tubarão, de Steven Spielberg (1975). E Death Stranding? Conseguem resumir o que já vimos em apenas uma frase? Eu consigo: “É um jogo do Hideo Kojima”.

E vocês podem dizer: “no cinema, é melhor mostrar do que contar”. Está certo, é verdade. Mas mostrar o quê? O que temos visto nestes três anos senão trailers sem nexo ou ligação e trechos de jogabilidade que se resumem a uma personagem a caminhar por campos enormes em busca de um objetivo que desconhecemos? Quem é Sam? Que mundo é aquele? O que raio leva ele às costas? Infelizmente, ser-se misterioso não é o mesmo que não saber contar uma história. Não podemos justificar a ausência de nexo e compreensão com “depois irão saber, esperem só até revelar o mistério”. Isto nunca funciona. Ou sabemos e compreendemos a nossa história e temos confiança para falar sobre ela ou não sabemos. Não há meio termo. E neste preciso momento, Kojima está mais interessado em dizer-nos que nos vai surpreender do que em dizermos o que está a fazer. Por mais que não queiram ver os sinais, isto é preocupante.

Neste momento, não sei se hei-de ficar mais assustado com a falta de informações sobre o jogo ou com a defesa desmesurada por parte dos fãs, que desculpam todo este processo e até o enaltecem.

Pessoalmente, nunca gostei de visitar uma exposição cujo tema só me é revelado quando pago e entro. Não gosto de pagar por um filme de ação e ver um filme melodramático. Eu não gosto e vocês não gostam. Mas sabem o que é preocupante? Isso não acontece nos videojogos e estou a senti-lo em primeira mão. Por mais que fale e grite e me queixe, eu vou comprar Death Stranding. Eu faço parte do problema. Não sei o que me espera e isto é errado. Não podemos alimentar uma prática que nos dá como garantidos e que é capaz de nos manipular não através do que é apresentado, mas sim do que não mostrado, com a campanha de marketing a focar-se unicamente na popularidade de uma série, estúdio ou produtor. Não podemos permitir que estejamos a três meses do lançamento e que não saibamos nada. Somos consumidores, podemos votar com a carteira. Não façam pré-reservas até verem algo em concreto.

Por mais que queira defender o jogo e por mais que saiba que o vou comprar, o meu lado crítico e analítico não consegue não ver os seus problemas. Depois da E3 2019 e da Gamescom 2019, cuja apresentação se focou mais na revelação de Geoff Keighley como uma das personagens do que em mostrar-nos o jogo, eu recuso a antecipação, o hype e a crença. Se Death Stranding fosse um filme, vocês iriam ver algo sem saber a história? A resposta, espero eu, é não. Kojima pode ser um génio, mas 2015 foi há algum tempo e esta é a sua primeira aventura a solo. Neste momento, preciso de mais e vocês deviam sentir o mesmo. Afinal, o que é Death Stranding?

Antes de publicar este artigo, Kojima anunciou que existe um trailer mais focado na história que revela, supostamente, detalhes sobre a narrativa e sobre Sam, o protagonista. É um trailer que está disponível na Gamescom 2019 e que sairá para o público, assim o espero. O entusiasmo cresce, as promessas regressam e a esperança volta a acalentar as nossas almas. E nós continuamos a escavar e a escavar e a escavar…

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