Gamer com filho(s) | 2. Backlog

Há dois tipos de jogadores com backlog: o que gosta de tudo e o que não tem tempo para nada. Ora, um pai tem pouco tempo. Na minha experiência, o backlog é uma droga, uma lista que nos tenta, que nos suga o dinheiro em saldos sazonais ou espontâneos, que aumenta sem controlo e fica a ganhar pó digital. Relembro que a idade da reforma já vai nos 68. É fazer as contas.

keep pounding carolina panthers GIF by NFL

BACKLOG OU NÃO, EIS A QUESTÃO
Dinheiro e tempo, como apontados na primeira parte deste especial, são factores a ter em conta e o mais provável é que não venha a calhar gastar €70 euros sempre que sai um jogo que até tem boa pinta e até gostava de jogar. É uma espécie de regressão aos tempos de miúdo em que não havia uma fonte constante de dinheiro e decisões difíceis tinham de ser tomadas. Felizmente, não havia DLC nessa altura. Se procuram alguma solução milagrosa ou uma óptima desculpa para justificar a existência de um backlog, lamento desiludir. Para um escritor, diz Stephen King, o bloco de notas é “a melhor forma de imortalizar más ideias”. Para um jogador, digo eu, o backlog é uma lembrança de quanto dinheiro atirámos fora.

Há sempre bons jogos a serem lançados e, de um modo geral, os jogos pertecem a uma altura específica. Há excepções, claro, mas é preciso ter discernimento para distinguir o capricho da obra-prima. Dar €2 por um jogo que nunca vou instalar sequer são €2 deitados à rua. É uma questão de feng shui das ideias, uma espécie de Marie Kondo dos saldos Steam. O melhor, decidi, é vasculhar a loja e os saldos apenas quando não tenho realmente nada para jogar. Melhor do que isso é revisitar os jogos que nunca cheguei a acabar, fazer-me homenzinho e ver o fim à coisa (#RainWorld4Ever). Afinal de contas, agora sou pai e há que dar o exemplo.

scared rain world GIF by Adult Swim Games

O LEGADO INGRATO
Eu percebo, somos gamers e queremos partilhar esta paixão com quem trouxemos ao mundo. Contudo, se eu já tenho um irmão mais velho a gozar comigo por jogar Rain World, Samurai Gunn e The Final Station, aos quais chama “jogos de píxeis” ou “jogos do Canelo”, imaginem o que será a reacção de uma criança de uma geração completamente diferente da nossa a pegar num título que achamos que é o supra-sumo da batata. Na melhor das hipóteses riem-se de nós e continuam a jogar o Fortnite da altura, enquanto comentam com os amigos virtuais que nós somos “bué fatelas”, usando ambos os termos propositadamente de forma irónica.

Se o objetivo for a partilha com a geração seguinte, parece-me que o mais seguro será acompanharmos os tempos e tentarmos encontrar pontos em comum na altura. Não é certamente a tentarmos impingir jogos de Spectrum que os vamos convencer de que aquilo é que é o Santo Graal – mais sobre isto numa outra parte deste especial. Para já, convém deixar claro que a probabilidade de os nossos filhos virem a interessar-se genuinamente por um jogo de um tempo que não o deles é baixa, por isso não se tentem a convencer de que o vosso backlog é, de uma forma ou de outra, uma espécie de espólio que estão a compor para deixar para gerações vindouras. Os jogos de hoje são os napperons do futuro.

Aceitar que nunca vamos dar resposta ao backlog é, a meu ver, a postura mais saudável. Não acho que seja game over ou que nunca vamos conseguir encontrar gostos comuns com os mais novos. Há tempo e espaço, tanto que jogo quase todos os dias, relembro, mas há que trocar fraldas, embalar e responder às baboseiras que o miúdo vai palrando. Já o mencionei e repito: com muita pena minha, Dead Static Drive, Hades ou Tunic não deverão passar pelas minhas mãos. Nunca. Sei também que haverá quem ache que nada tem de mudar ou que ainda vai conseguir a platina daquele JRPG que saiu para a PS3 e que ainda não conseguiu jogar porque, entretanto, estava a dar conta de outros milhentos JRGP e das versões de Monster Hunter para a Nintendo 3DS. A esperança é uma coisa bonita até ser parva.

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