Censura – ou não censura?

Por: André Pereira

Há uns dias tive uma discussão quase-quente nas redes sociais sobre a censura em jogos. Foi um momento estranho porque ambas as partes concordavam que censurar era mau, no entanto discordavam sobre o objecto censurado.

A origem da discussão foi a foto abaixo:

Dispensa apresentações.

O jogo chama-se Raspberry Cube, uma novela gráfica da iMel, e a imagem vale mais do que mil palavras. Ainda assim, quero estender a minha manta.

Curto e grosso: a imagem não censurada é pornografia infantil. Se forem à definição, mesmo na Wikipedia, irão ver que ilustrações que envolvam menores em actos, simulações ou posições semelhantes são consideradas de pornografia infantil. Na altura falei em pedofilia, mea culpa, mas queria dizer pornografia infantil. A ideia estava lá, mas a mensagem ficou algures no éter das redes sociais e algumas pessoas estavam demasiado focadas no facto de a Sony ter coberto a exposição da moça.

Ora vamos ver uma coisa: isto não se enquadra bem no espectro da censura. Quando se censura algo é para abafar o diálogo, a disseminação de ideias e informações por serem consideradas perigosas ou inconvenientes. Também se censuram conteúdos sensíveis, e podemos considerar este caso de sensível. Eu chamo a esta mudança de adaptação cultural.

O Japão lida com pornografia infantil de uma maneira estranha – isto só para dizer que ainda lida de alguma forma, mesmo que essa forma seja uma palmada no rabo e um raspanete. Não há escassez de manga, literatura, anime e jogos com insinuações de pornografia infantil e bastante público para os consumir. Depois, as tatuagens ou a posse de droga são vilipendiadas no país do Sol Nascente – na série Yakuza/Judgment, dois actores foram apagados do jogo por suspeita e/ou posse de drogas. Consomes? Deixas de existir. Tens fotos de menores na carteira? Malandro, deixa aí ver.

Sim, Sr. agente, é este Yakuza.

Então, quando os muitos jogos orientais viajam para o nosso continente e zona moral e jurisdição, os conteúdos terão, não, deverão ser alterados por constituírem um crime. Aqui não se trata de defender as sensibilidades alheias ou proteger as crianças – PENSEM NAS CRIANÇAS!, trata-se de não alimentar quem consome este tipo de conteúdo e que não devia estar em liberdade ou sem tratamento. Até posso estar a exagerar, mas como consumidor, pessoa, potencial pai de crianças, não quero saber nem quero ver uma menor numa capa de um jogo de qualidade dúbia com os lábios vaginais realçados. Haja bom senso. E haja contexto.

A ser advogado do diabo, consigo pensar em situações onde se justifique a presença de pornografia infantil, pedofilia ou temas semelhantes: assim na ponta dos dedos, estou a lembrar-me do The Last of Us com uma quase violação, que é um ponto fulcral na história. O jogo está direccionado para um público mais maduro, lida com temas pesados e não vende esse conteúdo por tuta e meia ou revolve o jogo à volta do mesmo. É algo que “acontece”. Obviamente que se forem fazer um jogo centrado em pornografia infantil, há maneiras e maneiras de o fazer – desde que, na minha modesta e singela opinião, não seja o jogador (nós) a praticar o acto. Contexto, pessoal.

Eu adoro Animal Crossing, mas se a sequela introduzisse relações sexuais com os habitantes ou a Isabelle em poses comprometedoras, seria algo de muito estranho e descabido. Ou, se numa possível remasterização de Lula, The Sexy Empire incluíssem simulações de slice of life eu… Esperem, isto nem é uma má ideia. Construíamos a nossa própria casa, decorávamos o interior e depois filmávamos o porno em casa. Tenho de patentear esta ideia! Contexto, contexto, contexto!

Ou façam como a HBO fez na série de Game of Thrones. De repente, todas as personagens já eram mais velhas. Se a mãe dos dragões tivesse mantido a idade original dos livros, ia ser bonito, ia.

E censurar a última temporada?

Mas violência é na boa, mas meninas em poses já não é. Aqui torço o braço e é verdade, mas a explicação recai nos dois lados de uma moeda moral e regional. Os Estados Unidos têm zero problemas com conteúdos violentos; há gore, sangue, tareia, tiros a rodos no que consomem e nos media e ninguém pestaneja, mas se uma mãe quiser amamentar uma criança já é indecente e uma falta de respeito. Isso e ter números contados para dizer fuck na televisão.

Portanto, temos conteúdo violento a ser suavizado no Japão e conteúdo pornográfico a ser censurado ou removido no Ocidente. Lembram-se do nivelador de seios em Xenoblade Chronicles X? Não, porque foi removido e a menor coberta, mas sabem o que seria justo? Igualdade. Se por cada nivelador de seios tivermos um nivelador de pénis, estaria na boa. Não quer dizer que vá usar, mas o 25 de Abril fez-se para que eu possa criar um tripé num jogo.

Agora, e muito importante, quando falo em suavizar conteúdos pornográficos falo apenas em menores de idade como a miúda da imagem inicial e que me levou a escrever esta peça. Não falo de personagens (mulheres e homens) maiores e vacinadas que podem vestir o que bem entenderem, mas tendo em conta que não são reais e muitas são criadas por homens, então… já estamos a entrar num possível futuro tema para outro artigo: a sexualização das personagens nos tempos modernos, ou como quero ter uma mulher numa armadura e não num biquini.

Meus caros leitores, para terminar: joguem à vontade! Importem os jogos de onde quiserem e assumam os vossos gostos, mas não me venham com argumentos de: é só um boneco. Não é só um boneco e não é só um livro, um filme, uma piada. É um ponto de mudança para fazermos mais e sermos melhores.

Boom, headshot!

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