The Walking Dead Final Season

The Walking Dead: The Final Season | GLITCH REVIEW

O fecho da Telltale Games foi, no mínimo, chato. Equipas de produção inteiras ficaram sem trabalho de um dia para o outro, projetos em produção evaporaram-se de uma forma mais eficaz do que o “snap” do Thanos e, para os jogadores, ficou aquele gosto amargo na boca pelas sequelas e projetos inacabados que nunca mais veriam a luz do dia.Um desse projetos foi The Walking Dead, que ficou com uma história por contar a meio da sua última temporada.

Felizmente, num twist tão clássico como o género nos propõe, The Walking Dead voltou ao mundos dos “vivos” pelas mãos da Skybound, que deu uma segunda hipótese à equipa para terminar a história na qual tinham passado anos a trabalhar. Ao contrário dos zombies que habitam estes mundos apocaliticos, The Walking Dead: The Final Season, de podre tem pouco ou nada: dá-nos uma temporada sólida, com uma jornada emocional e um final bastante satisfatório.

Tal como os comentários reacionários ao fecho da Telltale se focaram maioritariamente numa avaliação ao género de jogo que o estúdio nos trouxera, as críticas menos positivas a The Walking Dead: The Final Season recaem num sentimento, sempre crescente ao longo dos anos, de que o formato não evoluiu.

Uma palete de cores limitada e objetos ao longe que fundem num plano 2D replicam a sensação de estarmos a jogar uma banda desenhada interativa.

Apesar de diferentes iterações no motor de jogo e mudanças de acordo com cada título, The Walking Dead: The Final Season apresenta-se muito familiar. Demasiado familiar, com a mesma arte cartoonesca do primeiro jogo da série, com uma palete de cores limitada e em tons de cinza  – que ajuda a estabelecer o tom do mundo decadente. O resultado? Cenários um pouco pobres em detalhe -, e com uma jogabilidade igualmente limitada, cheia de quick time events, momentos de exploração pouco interessantes (com a procura de itens, muitas vezes, inúteis e que até deixam antever futuras cenas) e um equilíbrio de cinemáticas tradicionais e interativas tão inconsistente que somos obrigados a ter as mãos nos comandos 100% do tempo, não vá acontecer algo de importante.

Não é, de todo, a apresentação e mecânicas de jogabilidade que vão vender o jogo, especialmente a quem não tem algum tipo de ligação emocional a série. Já a jornada que conta será o suficiente para o fazer. E claro que convém jogar The Walking Dead: The Final Season com algum contexto. Apesar de o primeiro episódio desta temporada nos relembrar as aventuras de Clementine e das pessoas que foram passando pela sua vida, com uma breve introdução que nós dá a conhecer o seu petiz companheiro AJ, considero, pelo menos, a primeira temporada extremamente importante (temporada essa que foi a única desta série que joguei). Não por nos apresentar a “origem” de Clementine, mas pelo reflexo narrativo em que The Final Season se foca.

The Walking Dead: The Final Season é um interessante espelho ao origem da série, um fechar de ciclo que coloca a Clementine no papel de tutora.

The Walking Dead: The Final Season é mais um jogo sobre maternidade e maturidade, do que um jogo de horror em ambientes pós-apocaliticos. Clementine, já a entrar na fase adulta, apresenta-se como uma espécie de mãe depois de “adotar” o pequeno AJ neste mundo infernal, onde para além de se preocupar só com a sua sobrevivência, tem agora mais uma vida para defender a todo o custo. Sozinhos, a deambular de terra em terra à procura de um local seguro para viverem a sua vida longe dos perigos, encontram-se com um grupo de jovens de idades semelhantes que lutam pela sobrevivência numa pequena comunidade.

Os jogos do género sempre nos apresentaram um sentimento de ansiedade nas escolhas que tomamos e nos efeitos que podem ter no decorrer da história a longo prazo, e é aqui que The Walking Dead: The Final Season, sem surpresas, brilha. Nesta aventura, não devemos ter cuidado apenas com as consequências das ações de Clementine, mas também com as reações que podemos provocar no inocente e suscetível AJ.

AJ está susceptivel a todas as nossas decisões e são as suas reações que podem mudar o rumo da história.

O reflexo desta última temporada em relação à primeira faz-se sentir na dinâmica entre os protagonistas e em alguns dos pontos narrativos mais importantes dos dois, que ajudaram a caracterizar a nossa jovem heroína. A grande diferença aqui é que vamos andar sempre com o coração nas mãos. Na presença de AJ, qualquer escolha pode influenciar a sua educação e moldar a sua personalidade, que pode resultar em twists inesperados em cada um dos episódios.

The Walking Dead: The Final Season é, no fundo, um jogo na “segunda” pessoa, onde já não assistimos às aventuras de Clementine, mas, mais do que qualquer outro jogo da TellTale, sentimos que somos a personagem principal e os responsáveis pelo desenrolar da história. Mais do que impactar a história, estamos a ter um impacto noutras personagens.

Neste formato, pode dizer-se que há algo de mágico e diferente, que não é explorado por muitos jogos com esta eficácia. The Walking Dead: The Final Season volta mais uma vez a tocar-nos no coração com uma ressonância emocional sem precedentes graças às suas personagens (ainda que umas mais do que outras).

Apesar de dois episódios introdutórios mornos (curiosamente os dois jogos ainda debaixo da asa da Telltale), a jornada de The Walking Dead: The Final Season é emocionante, com algumas set-pieces tão inesperadas como as suas reviravoltas. Ao longo do jogo é normal sentirmos que podíamos optar por outros caminhos e os finais, com as estatísticas em cada um dos quatro episódios, revelam que as várias ramificações são variadas o suficiente para partilharmos experiências completamente diferentes das dos nossos amigos.

O choque faz parte da jornada e faz-nos questionar: “E se tivesse feito a coisa de outra maneira?”

É difícil fazer uma apreciação geral deste jogo sem uma pequena menção ao final, que, pelo menos na minha história, foi extremamente satisfatório. Um ponto final que se faz sentir como um fim definitivo para The Walking Dead e para as aventuras de Clementine. Mas é, acima de tudo, o final para o legado para a Telltale e as pessoas que fizeram os seus jogos.

The Walking Dead: The Final Season é, no fundo, o melhor e o pior que a antiga produtora nos trouxe desde a sua génese. Felizmente, os pontos positivos fazem-nos abstrair do seu lado casmurro e arcaico, com um fechar da cortina quase perfeito.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PC) foi cedido pela EcoPlay.

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