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A morte do artista

Por: André Pereira

O título é fatalista, mas não se preocupem que ninguém está para morrer. Só para dizer que vi Avengers: Endgame e o terceiro episódio de Game of Thrones. Foram dias bem recheados de emoções e não se preocupem que não vou estragar nada, apesar de dizer que, sim, morreram pessoas – bastantes. Mas que peso terão essas mortes? Qual a diferença entre morrer personagens nos Avengers e em Game of Thrones? Ou, neste caso, nos jogos quando o prato do dia é matar, matar e matar.

Ned’s dead, baby. Ned’s dead

Tornou-se tão frequente que já estamos tão dessensibilizados com o acto de morrer e matar. Morrer implica um ligeiro atraso no nosso progresso e matar implica um avanço no mesmo. A série SoulsBorne-Sekiro vive à volta da morte e das penalidades que esta acarreta, com o último jogo a explorar mais o assunto da ressurreição e consequências da mesma.

Ainda assim, são poucos os jogos que sabem lidar com a morte; com o luto; com o trauma e com a ausência da pessoa. Nos jogos, a morte é quase sempre utilizada como motivo da demanda: alguém morreu? Bora vingar. Ou, dá trabalho animar muitas personagens? Não existem porque já morreram. Por ter perdido pessoas, sei que a morte afecta de maneiras diferentes. Ninguém sofre da mesma maneira nem há um manual para saber lidar com a ausência da pessoa que gostamos: ora está aqui, ora não está. E agora?

Agora… agora irei mencionar alguns jogos que considero terem lidado bem com a morte. Sim, agora vão ter spoilers fortes.

Final Fantasy VII – Não é o meu Final Fantasy favorito (é o VI), mas a morte da Aerith continua a ser um dos momentos mais tocantes dos jogos da época. E tem tanto de triste como de frustrante. A Square teve a ousadia de matar uma das suas personagens principais e deixou-nos a chorar por uma boneca pixelizada. Todo o progresso da personagem foi perdido e as pessoas perguntam-se: passei horas a fazer level up para depois morrer? É assim a vida (e a morte), passamos anos a crescer e a fazer coisas para depois morrermos miseravelmente e do nada. Claro que eu acho que o Cloud podia e devia ter usado um Phoenix Down, mas…

Desde então que a Square não teve mais tintins para algo parecido.

Choro pixelizado.

Metal Gear Solid – Céus, a série está cheia de baixas! Se tiver de escolher só uma… peço para escolher duas: a morte da Boss (MGS 3: Snake Eater) e do Big Boss (MGS 4: Guns of the Patriots). A morte de figuras maternais/paternais é a receita para traumas, mas também para simbolismos bonitos e sentimentais. Ambas as mortes foram acompanhadas de revelações importantes que, goste-se ou não da narrativa, fizeram com que a personagem vivesse carregada de culpa. E isso acontece na vida real, será que devia ter feito ou dito isto? Se calhar devia ter estado mais com a pessoa. Somos todos o Snake neste dia abençoado.

The Last of Us – Sim, a morte da filha do Joel foi de caras e vai ao encontro do que disse acima: só serve para impelir o herói, mas… tem outro efeito. O Joel passa anos a evitar relações íntimas com outras personagens, tornando-se “mau”. A única pessoa que conseguiu alguma coisa foi a Tess, mas eles eram só amigos coloridos. Criar relações de qualquer índole é um grande não para este homem vazio, mas quando a Ellie surgiu, também já sabíamos o que viria aí: o início de uma relação pai-filha. Uma pessoa que não se quer pegar a alguém, torna-se obcecado por essa mesma pessoa ao ponto de ir ao inferno por ela. Fora dos jogos é um pouco oito e oitenta, começamos a ver as relações como algo frágil, que ora existem, ora deixam de existir porque temos medo de começar e perder a pessoa logo a seguir. Ou ficamos demasiado colados à pessoa por essa mesma razão.

Tal pai, tal filha. Zero comunicação

Life is Strange – Este pedaço de maravilha tecnológica fez-me chorar que nem perdido numa noite, sozinho, na sala – que miséria. Não há nada mais doloroso do que criar e fomentar relações e ver a pessoa a partir à nossa frente. Em várias instâncias temos de nos despedir da Chloe e, no final, temos AQUELA escolha. A música, as imagens, o que aconteceu a seguir mexeram de tal maneira comigo que, mesmo sabendo do final, quis jogar a prequela. Não ajudou… das vezes que perdi alguém, nunca pude despedir, mas não me imagino a olhar para a pessoa e dizer adeus e nunca mais a ver. É um jogo… posso voltar a jogar, mas aquele momento nunca se repetirá no tempo.

Mass Effect – Sem razão aparente. Apenas gosto de mortes épicas e algum sacrifício heróico. Há vários momentos obrigatórios e outros opcionais em que várias personagens morrem, mas o sentimento de perda é forte porque também temos relações com estas personagens, temos investimento e, se quisermos, uma relação amorosa. E eu, no final, apesar de toda a controvérsia tomei a melhor decisão para a minha personagem e deixei-a descansar para sempre. Se tomaria essa decisão para mim na vida real? Não, mas também não me vejo a salvar o universo…

Esta unidade tem alma?

Termino com NieR: Automata – Certo, somos andróides e morremos ad nauseam, mas o momento que me lixou foi durante os créditos. Tal como disse para Mass Effect, tenho um fraco por sacrifícios heróicos e, durante os créditos, ver dezenas de jogadores a sacrificarem-se por mim, é algo tão lindo, mas tão lindo que a cantora do tema final soluça num dos refrões. A música chama-se Weight of the World (Peso do Mundo) e se for levado à letra, a vida pesa imenso e nem sempre sabemos o que fazer ou para onde ir… mas quando o jogo pergunta se este mundo faz algum sentido, temos mesmo de responder não. E porque não desistimos, dezenas de jogadores anónimos juntam-se nós, sacrificando os dados de jogos para nos ajudar. É belo e tramado continuar a jogar enquanto chove na cara… e a mensagem é simples: por mais pesada que seja a frustração, a dor, a culpa, a perda – o mundo, nunca estamos nem estaremos sozinhos. Há imensa gente a passar pelo mesmo.

E cá estamos, foi o artigo deste mês. É possível que me tenha esquecido de outros jogos, mas estes foram os que me marcaram. Espero que estejam bem e que, se foram ver os Avengers, que estejam melhor. De resto, estamos aqui e os jogos também podem ajudar!

Continuem por ai!

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