As linhas do Inferno

Hoje sinto-me estúpido. Aliás, ultimamente tenho-me sentido a pessoa mais estúpida do mundo. Algo mudou, consigo senti-lo, e não há forma de parar esta nova e inesperada queda na estupidez, que se tem agravado com o tempo. O culpado? The Witness.

Demorei três anos a aceitar o desafio, mas aqui estou eu, horas depois de jogar The Witness e pronto para atirar a toalha ao chão. O jogo de puzzles, criado por Jonathan Blow, chegou à PS4 em 2016 e intimidou-me desde o seu lançamento, como se gozasse comigo à distância, relembrando-me da minha incapacidade para lidar com quebra-cabeças. Eu sabia o que me ia acontecer, tinha total consciência das minhas limitações e tentei evitar o jogo ao máximo. Admiti a derrota, dei-lhe total razão. Em março deste ano, a Sony decidiu oferecê-lo através do PS Plus, algo inesperado. A cavalo dado não se olha ao dente, pensei eu enquanto instalava The Witness e tenta convencer-me que não ia perder nada em experimentá-lo três anos depois. E aqui estou eu.

Sejam bem-vindos ao meu inferno privado.

The Witness é um jogo doloroso para pessoas estúpidas e é doloroso porque nos engana. Aquilo que me fascina, para além da densidade de alguns dos seus puzzles, é o mundo que constrói à sua volta, com um nível apetecível de pistas visuais que complementam a narrativa visual (e quase inexistente, se não estiverem atentos) que nos apresenta. É um mundo repleto de ambiência, de um conforto e de uma calma que só um cenário idílico nos poderia dar, e sentimo-nos enternecidos pela sua beleza enquanto observamos os rios e subimos às montanhas e vemos o horizonte. E foi embrenhado pela sua beleza que fui levado ao engano e encaminhado até à conclusão que vos trago hoje: eu sou estúpido. Só posso ser.

Quando nos apercebemos do grau de complexidade dos puzzles já é tarde. Já se passaram minutos, senão horas, e o mundo e a sua beleza apoderaram-se de nós. A dificuldade dos primeiros puzzles também é enganadora, num crescendo muito eficaz, mas cuja realidade é mais falsa do que aparenta ser. Durante a minha primeira hora, senti-me como um verdadeiro campeão, completando puzzles como se não fossem mais do que meras distrações. Cheguei a pensar que o jogo não era assim tão difícil e que os outros estavam errados ou a exagerar, já que parecia estar não só a dominar as regras do jogo como a compreender todas as mecânicas por detrás dos quebra-cabeças. E depois tudo mudou.

Os puzzles são apresentados com um ritmo eficaz e é fácil de compreender os seus objetivos sem explicações adicionais, bastando observar a sua progressão para perceber como resolver os desafios mais complexos.

The Witness é um jogo de puzzles, como já devem ter percebido, mas é diferente de tudo o que já viram. Não existe uma variedade de quebra-cabeças, por exemplo, ou a necessidade de mover obstáculos ou de encontrar peças espalhadas pelos cenários. Em The Witness, temos acesso a painéis eletrónicos cujo objetivo resume-se à navegação de uma linha desde o ponto de partida até ao final. Todos os puzzles seguem a mesma filosofia de design e não oferecem quaisquer variações a este modelo, mas é na forma como vamos de A a B que o jogo ganha personalidade e nos dá uma experiência muito própria. E é ai que revela o quanto sou estúpido.

O jogo não é cruel, apesar de não existirem tutoriais, e dá-nos espaço e tempo para dominarmos os vários tipos de puzzles que encontramos. Como se trata de um mundo aberto e à nossa mercê, o jogo pede até que o exploremos e que não façamos os puzzles por uma ordem fixa – aliás, não há, tecnicamente, uma ordem. Há uma progressão palpável e os objetivos de cada puzzle são fáceis de perceber, na maioria, com algumas das soluções a estarem escondidas nos cenários, onde é necessário manipular a nossa perspetiva ou utilizar os níveis para chegarmos à resolução. Apesar da sua dificuldade, este tipo de quebra cabeças deslumbrou-me e deu-me uma nova visão sobre o jogo e o seu mundo. Mas tudo muda quando terminamos o primeiro conjunto de paneis. Tudo muda.

Eu nem sei o que isto é e estou a ver a resolução.

A minha diversão e deslumbramento desvaneceram quando encontrei puzzles que me obrigavam a construir figuras geométricas com as linhas. O objetivo é claro, mas a forma como podemos criar essas figuras, com apenas uma linha, começou a encurralar-me e a demonstrar como o meu tempo com o jogo estava a chegar abruptamente ao fim. Nos paneis, temos apenas acesso à forma que temos de construir antes de chegarmos ao fim, sem mais nenhuma pista ou direção. O puzzle está à nossa mercê e eu não consigo compreender como fazer a maioria destes desafios. Custa-me dizer isto, mas cheguei ao limite da minha inteligência e paciência. Continuei a explorar, na esperança de fugir e de encontrar puzzles mais acessíveis, mas só piorei as coisas. Comecei a encontrar puzzles onde tinha de construir formas e separar peças brancas das pretas. Depois vieram os painéis com cores. E depois encontrei painéis com tantos objetivos que nem os consegui compreender.

Eu sou estúpido, só posso ser. Não sei se vocês sentem o mesmo que eu, mas fui derrotado. Este jogo levou-me ao limite. O mais interessante é que não me sinto irritado com The Witness e muito menos sinto que está construído para ser injusto e artificialmente complexo. The Witness não é “o Dark Souls dos jogos de puzzle”. É uma experiência muito própria que não é para mim. Não estou irritado, não há motivos para tal, admito que achei o jogo relaxante e envolvente até a ilusão se quebrar, mas sinto-me triste e derrotado. E sinto-me de tal maneira desiludido comigo que nem consigo ir ver as soluções para criar a ilusão que acabei o jogo. Não mereço isso, não vou fugir ao problema. Atiro a toalha branca ao chão, admito a derrota. Depois de três anos a evitar o jogo, fui mais uma das suas vítimas.

Mas a vida continua e é nisso que me vou focar daqui para a frente. É difícil de admitir que algo não é para nós, que não pertencemos ao seu público-alvo e que não conseguimos compreender o que torna aquele jogo especial para tantos jogadores. É difícil, mas é a realidade. Serei mesmo burro ou estúpido? Será que o jogo não foi feito para mim? Duas questões que irão permanecer comigo enquanto desinstalo o jogo e admito mais uma vez a derrota. O primeiro passo é admitir que temos um problema, que ele é real e nosso. E este é o meu divórcio forçado. Talvez não seja estúpido, mas The Witness não é para mim. Está dito, agora vou viver.

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