Isto Dá-te Alegria?

Por: André Pereira

Então, já viram a série da adorável Marie Kondo? Aqui entre nós, o sorriso da senhora derrete-me o coração e os seus ensinamentos cravaram-se em mim como os Dez Mandamentos nas tábuas. Dito e feito, assim que acabei a série fui arrumar a roupita, agradeci o que não usava e doei; passei aos livros e livrei-me de uma valente quantidade de leitura que podia ler no Kobo, mantive e manterei aqueles que quero na colecção. Reza a lenda que ainda não terminei. Também fui aos jogos. Hum Hum, estes também foram retirados, passei-lhes a mão pelo plástico e agradeci (não agradeci) por terem estado comigo.

Eu até estava a meio de um artigo sobre Resident Evil 2 e remakes, mas um passeio pelo Reddit abriu-me feridas de artigos passados quando dois tópicos diferentes, de pessoas diferentes, perguntavam como conseguiam lidar com o backlog e com o burnout de terem tanto para jogar.

Um filme de terror!

E diziam coisas como:
Chego a casa com cinco a seis jogos novos, jogo uma hora cada e depois decido qual começar, mas ter de recomeçar é chato, então desisto.
Ou:
Estou a jogar X, mas começo a pensar que se calhar devia jogar Y, então fico desmotivado porque acho que estou a perder tempo e acabo no Facebook.

De quem é a culpa? Do tempo que é escasso porque temos empregos e vida social? Do preço e das promoções dos jogos? Da pirataria? De haver um lançamento pesado a cada mês? Se vamos apontar dedos, ainda ficamos sem eles para carregar nos botões, mas se tiver de culpar alguém, culpo-me a mim. Eu é que cliquei no botão Comprar e fui eu que marquei o código do multibanco. Eu é que não soube gerir as minhas expectativas, aquela ânsia de ter de jogar o jogo do momento e o meu tempo.

Ninguém quer perder a festa!

Então, enquanto jogam Battle Royales sem fim, a pilha aumenta e a ansiedade também. O que fazemos? Começamos a suar e começamos a negociar com a vida, fazemos listas em Excel, dividimos por géneros, vamos ao How Long To Beat (eu) e vamos jogando contra o tempo, mas aquele rato não larga e rói, rói a corda do “e se aquele jogo é melhor”? Está tudo a jogar Kingdom Hearts 3 e eu no Yakuza 4 (e no Sekiro, pronto)… Vou chegar atrasado à festa, talvez se encontrar uma promoçãozita…

Era eu. Não comprei Kingdom Hearts 3 numa promoçãozita, mas comprei Resident Evil 2 por inteiro enquanto estava no Yakuza 5. E interrompi a maratona? Nem pensar. Se prometi que ia acabar tudo, acabei tudo! Mais!, o próximo artigo vai ser sobre a série Yakuza. Pessoal, nada de copiar! Depois de Yakuza 6 e de alguns sentimentos, acabei Resident Evil 2 e digo-vos que valeu todo o dinheiro até porque pretendo voltar para platinar.

Acabar dois jogos de categoria de seguida!

Outro exemplo, neste Natal ofereceram-me o God of War (PS4) e combinei comigo que ia acabar a trilogia antes de tocar neste. Meti o primeiro na PS3 e comecei a jogar, mas o jogo não estava a jorrar alegria. Aliás, pelo contrário, estava a deixar-me frustrado e não estava a tirar prazer nenhum (ao passo que Tales of Vesperia, que interrompi, estava a ser fantástico…). Respirei, parei, tirei o jogo da consola, meti na caixa e decidi não acabar a trilogia. Irei ver os vídeos da história e avançarei para o da PS4. Ao mesmo tempo que fiz isto, meti-os na pilha para agradecer e doar. Não os irei manter na colecção e, honestamente, um certo peso subiu de mim para o céu dos backlog.

Há que ser forte, mas honestos, precisamos mesmo da pressão para acabar e ter closure? Os jogos não servem para nos relaxar e divertir? Porquê insistir em algo que só nos faz pior? Tanto jogar como acumulá-los. Não sou perfeito, ainda tenho muito para limpar, mas estou num bom caminho e tenho-me portado lindamente na Switch com um jogo novo e três indies para começar. Pode não ser muito, mas estou num bom caminho.


Devia haver fichas de recuperação para quem não compra mais jogos antes de acabar os que tem.

De resto, quando começarem um jogo, foquem-se apenas nesse e tentem não pensar nos outros, mas se isso acontecer frequentemente é porque o jogo não está a ser assim tão bom. Deixem o telemóvel virado ou longe. Pensar noutros jogos ou ter distracções ao lado não deixam aproveitar o momento. O jogo até pode ser bom, mas se aquele meme é muito engraçado…Às tantas estamos a navegar no Instagram com o jogo a dar música em segundo plano. Gastamos muito tempo nestes nhónhós, não? Importante, não vejam promoções! Apaguem os mails, não entrem em lojas, usem palas. O que não souberem não vos magoa – principalmente na carteira e nas prateleiras.

Voltando a mim, juntei os God of War à pilha e mandei para a margem sul, para uma loja e para dar a amigos. Não tenciono lucrar, mas criar mais espaço e harmonia mental. Os que ficaram estão bem arrumados e de lá não saem. Poucos, mas bons. Ah, quanto aos Kingdom Hearts, eis o meu plano: vou começar tudo de início porque preciso de entender o que raio se passa ali, mas vou ignorar forte e feio o Chain of Memories porque esse doesn’t spark joy, only rage and sadness.

Like tears in the rain.
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.