Novo ano, mesma falta de noção

Por: André Pereira

Eu sei, eu sei – é bem provável que este artigo chegue atrasado à festa, mas se pensarmos bem, chega mesmo? Estava aqui a actualizar-me sobre a polémica da Epic contra o mundo e pensei para comigo: mas que raio se passa com esta gente que cospe na mão de quem os alimenta? E porquê as ameaças mesquinhas? Enfim.

Eu todos os dias a ir para o trabalho.

Isto lembrou-me de quando o Wyatt Cheng perguntou a um público que vaiava o novo Diablo Immortal se não tinham telemóveis. Soube logo que este estava a anunciar a sua sentença na comunidade. Insultos, memes, ameaças, sei lá.

Don Mattrick odiava tanto o seu trabalho que virou os fãs contra uma consola que nem tinha chegado ao mercado, saiu da Microsoft, foi para a Zynga e desapareceu. Vocês sabem quem é: é o tipo que disse que podiam jogar offline na 360 se não conseguissem ter a Xbox One sempre online. Claro que, para se protegerem deste incêndio de marketing, todas as limitações foram levantadas e agora podem jogar à vontade.

A diferença é que tenho pena do Wyatt e não do Don – ou de quem tomou a decisão de tirar Metro Exodus da Steam para a loja da Epic. Wyatt é um artista a dançar a dança dos tipos de fato e gravata que preferem meter dinheiro ao bolso à custa dos fãs e os outros são desses tipos de fato.

Aquele sorriso que convida a um punho.

Não obstante, o artigo não é sobre o modus operandi de uma empresa, mas sobre a integridade de um artista. Também não vou dissecar o que é um artista, principalmente nos jogos de vídeo, mas a pergunta que quero colocar é: o artista serve a quem? A si mesmo? Ou ao consumidor da arte? Neste caso, nós, os jogadores. A imagem que me vem à cabeça é a de duas mãos a lavarem-se uma à outra. O artista cria para o público apreciar, ao mesmo tempo que o público paga ao artista para criar – somos uma espécie de mecenas nerds.

Make it rain!

Considero-me um artista quando escrevo os meus contos. Gosto de escrever e de os publicar por aí; gosto e tenho prazer de ser lido e, consoante o feedback, fico com vontade de criar mais. Alimento-me e motivo-me quando sei que há alguém a ler, a relacionar-se e a emocionar-se.
Mas… de quem é o conto? Meu? Ou do leitor? De quem são os jogos? Dos estúdios ou dos jogadores?

Pensem em Mass Effect 3 e no final controverso (eu gostei, e gostei muito da extensão). Por mais defeitos que tivesse, aquele final foi criado por artistas (Casey Hudson e Mac Walters – dizem que o resto da equipa não teve dizer sobre o mesmo…) e o colectivo de jogadores odiou; sentiu-se insultado e roubado de uma conclusão épica. Mas… de quem é o jogo? Posso ir mais atrás quando Lost acabou e falar sobre o público dividido. Havia quem tivesse gostado (eu!) e quem tivesse odiado. Não respondeu a X e Y questões e não fez sentido. Mas… de quem é a série?

Ainda é cedo…

Metroid Prime: Federation Force; as sequelas de Final Fantasy XIII, Animal Crossing: Amiibo Festival e Pocket Camp, etc. Jogos que ninguém pediu, mas que existem porque alguém os criou ou foi obrigado a criar. Jogos que alguém deve gostar – como este Diablo. Diablo Immortal talvez sirva para chamar novos fãs à saga, talvez seja só um poço de micro-transacções, mas depois do medíocre Diablo III…alguma coisa será melhor. Mesmo que não goste de jogar num telemóvel, este Diablo é perfeito para o tap tap tap da carnificina.

E até experimentarmos, porque temos de falar mal dos artistas? E mesmo depois, podemos só criticar a arte e deixar as pessoas em paz? Podem ter falhado numa coisa, mas é bem possível que tenham outras no forno. E uma crítica baixa dirigida ao artista pode desmotivá-lo de continuar a criar.

Dito isto, nunca iria para um concerto, peça de teatro ou evento de jogos vaiar alguém. Odiaria que mo fizessem. Se não gostar, não aplaudo e não toco no produto. Aqui o público tem poder: o de votar com a carteira. Talvez assim consigam ver que alguma coisa não está a funcionar. Ei, talvez se deixarem de comprar os milhentos CoD, Assassin e amigos anuais, comecem a mudar alguma coisa. Se criam para consumirmos e vamos para outro lado, então têm de criar outras coisas para voltarmos.

Não!

No meu caso, eu nem vivo da escrita e posso continuar a escrever o que me apetecer, mas nem todos têm a mesma sorte. No final do dia, estamos aqui para sermos entretidos e para entreter, mas há uma linha de respeito mútuo bem ali no meio e quando ambas as partes a pisam, então não estamos a fazer nada.

Respondendo à pergunta de Wyatt, que foi só a pior coisa que alguém poderia ter dito num evento a afundar: tenho. Também tenho uma varinha mágica, mas isso não quer dizer que queira um Diablo para lá. Agora, aquele remaster de Warcraft III? Ficaria bem lixado se saísse numa T1-80… E para quem fez a birra de não lançar mais Metro no PC se fosse boicotado, ui…

Brincam, brincam…já agora, o vídeo de LGR.

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