Smoke and Sacrifice | GLITCH REVIEW

Para a maioria dos jogadores, a falta de direção e de uma narrativa palpável são dois dos elementos mais incontornáveis na sua apreciação de um género como o de sobrevivência. Sem uma história, sem personagens e protagonistas ou objetivos claros, o que fazer num mundo extenso e inexplorado? À medida que o género perde a sua popularidade, ainda que lentamente, vários jogos têm tentado responder a esta questão ao adaptar as mecânicas de sobrevivência a novos géneros e experiências.

Sem em 2018 vimos Red Dead Redemption 2 a sucumbir ao charme do género, com a implementação de sistemas de fome e estamina – tanto na personagem como no cavalo e até na manutenção das armas –, este ano começamos por encontrar uma nova aposta neste género híbrido com Smoke and Sacrifice. Já disponível para PC e Switch, o jogo de aventura chegou agora à PS4 e Xbox One para exemplificar como o género de sobrevivência pode ser implementado numa estrutura metroidvania e de ação. Apesar do seu combate pouco convincente, ainda mais para a importância que tem na jogabilidade, Smoke and Sacrifice é uma boa aposta para o início do ano.

Imaginem que estão perante um The Legend of Zelda, ou até mesmo Metroid, com uma visão isométrica e um mundo extenso para explorar que cresce à medida que criam novos equipamentos e acessórios. Assim é Smoke and Sacrifice, um jogo com um enorme foco na aventura e na criação de itens, que consegue capturar o perigo de um título de sobrevivência com o desbloqueio de habilidades (neste caso, de equipamentos e de receitas) e missões secundárias de um jogo de aventura. É um equilíbrio um pouco instável devido à sua dificuldade, mas a progressão da campanha mantém um ritmo mais acelerado do que é esperado de um título desta natureza, em que estamos constantemente a encontrar novas zonas, novos inimigos e novos desafios.

O mundo de Smoke and Sacrifice é de opressão e controlo. Com a ausência do sol, a terra mantém-se congelada, com os sobreviventes a necessitarem de tecnologia – que consideram ser divina – para continuar a cultivar os seus campos e sobreviver perante todas as adversidade. É neste mundo que encontramos Sachi, a nossa protagonista, sete anos depois de sacrificar o seu filho para garantir a sobrevivência da sua aldeia, num ritual praticado por todos os seus habitantes. A sua vida muda quando é transportada para um novo mundo, para os subterrâneos daquilo a que chamava casa e para uma realidade que desconhecia. Mas neste novo e estranho mundo, poderá também estar o seu filho. Há esperança. E assim começa a nossa aventura.

O mundo é extenso e temos a possibilidade de viajar rapidamente entre terminais para encurtar as distâncias. O jogo peca ao obrigar-nos a recuar constantemente, devido às estações de personalização, mas o mundo é tenta contornar este problema ao dar-nos várias zonas para explorar.

A nível de mecânicas, Smoke and Sacrifice funciona como um jogo de aventuras onde podemos recolher recursos, criar equipamentos e acessórios, atacar e até desviar-nos rapidamente dos perigos. É um jogo familiar que consegue implementar a dificuldade do género de sobrevivência à exploração de um RPG sem perder o seu encanto. O foco na narrativa, motivado pela busca incessante pelo filho de Sachi, dá um maior ritmo à campanha e leva-nos a descobrir rapidamente o mundo do jogo e todos os seus habitantes. Em Smoke and Sacrifice, estamos sempre em movimento e temos sempre algo para descobrir ou até para matar, algo que se torna aliciante especialmente durante as primeiras horas.

A exploração é a melhor parte de Smoke and Sacrifice, com o mundo colorido – e de um estilo visual raramente visto em videojogos, que lhe dá quase uma tonalidade de um conto de fadas gótico – a motivar-nos a continuar em frente. O design das zonas é pouco intrínseco, apostando mais em cenários amplos do que em níveis desenhados cuidadosamente, mas esta escolha ajuda na exploração e na recolha de itens. Como é, na sua base, um jogo de sobrevivência, é mais importante ter um mundo fácil de conhecer, onde conseguimos recolher itens o mais rapidamente possível, do que algo meramente apelativo e vazio. É um sacrifício necessário.

Existe uma dicotomia entre natureza e tecnologia, com o mundo a ficar cada vez mais industrializado à medida que avançamos na campanha.

Se a sensação de sacrifício, que premeia o título, está presente em todos os momentos da jogabilidade, desde a criação e a deterioração dos nossos itens e equipamentos, já o fumo se assume como uma das mecânicas que melhor caraterizam o mundo do jogo. Ao contrário de outros títulos do género, Smoke and Sacrifice não tem propriamente um ciclo de dia e noite, mas sim um período de fumo. Nestes momentos, o mundo fica coberto por um fumo espesso que nos mata se não tivermos as proteções necessárias. A única forma de combater este perigo constante é a utilização de luz, de lanternas ou de outros artefactos lendários que param o avanço do fumo. Se não estivermos iluminados, seremos consumidos lentamente até morrermos.

Para além das mudanças visuais, com o mundo do jogo a ficar obstruído pelo fumo – o que dificulta a navegação –, temos ainda a presença de fantasmas por todo o mapa de Smoke and Sacrifice. Estes fantasmas do fumo assumem várias formas e têm uma força acima dos inimigos comuns, podendo, inclusivamente, roubar as nossas fontes de luz. Em união com os restantes perigos do jogo, os fantasmas podem ser uma força destrutiva suficientemente poderosa para parar o nosso progresso ou dar lugar a uma batalha inesperada. É um elemento que personifica o mundo de Smoke and Sacrifice, a sua tristeza e falta de esperança, dizendo-nos que mesmo depois da morte, os nossos espíritos não terão descanso.

Existe uma óbvia limitação no armazenamento, o que nos obriga a pensar no que devemos ou não recolher. No entanto, o jogo não nos castiga regularmente, disponibilizando vários baús onde podemos armazenar os itens que não queremos.

Apesar de adorar a expansividade e criatividade dos jogos de sobrevivência, é reconfortante encontrar um maior foco na história. O mundo de Smoke and Sacrifice ganha muito com esta escolha, ainda que a dificuldade acabe por condicionar regularmente o nosso progresso. É uma experiência simples e familiar quando mais precisa, diferente e desafiante quando nos sentimos mais confortáveis. Não consegue, no entanto, evitar a repetição dolorosa do género em que se inspira, colocando-nos num ciclo vicioso de construção, desconstrução, exploração e recomeço. Mesmo com o seu foco na história, é fácil sentirmo-nos cansados de Smoke and Sacrifice e das suas tarefas mundanas, especialmente nas missões secundárias.

Mesmo com a sua estrutura familiar, Smoke and Sacrifice poderá não ser para todos. A constante quebra das armas e de itens poderá desmotivar os menos pacientes e a campanha repetitiva, assente em tarefas pouco empolgantes, irá certamente afastar até os fãs de jogos de aventuras. No entanto, o seu mundo e o seu equilíbrio entre géneros são cativantes e demonstram como um jogo de sobrevivência pode ser transformado num metroidvania ou até num The Legend of Zelda. Há muito para descobrir, mas é difícil não ver as suas falhas durante os piores momentos.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela Plan of Attack

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