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Por amor aos jogos, joguem Mutant Year Zero!

O final de 2018 tem sido um período de experimentação, de riscos e de contra-correntes. Numa fase em que os lançamentos de peso se começam a dissipar, vi-me a expandir os meus horizontes e a apostar em jogos que nunca compraria ou teria interesse em experimentar se não fizesse parte do GLITCH. Depois de Moonlighter e Farming Simulator 2019, Mutant Year Zero, um RPG estratégico com combates por turnos, pareceu-me ser a aposta mais acertada. E aqui foi um verdadeiro jackpot.

Não segui a revelação de Mutant Year Zero e pouco ou nada conhecia sobre o jogo antes de receber a minha cópia para análise. Sabia que era um RPG e que a história se passava algures num futuro pós-apocalíptico onde controlamos uma equipa de mutantes. Não sabia o contexto da sua história e muito menos sabia que se tratava de um RPG estratégico, muito próximo de XCOM, com um enorme e assustador foco nos combates desafiantes. Quando descobri este pequeno grande pormenor sobre o jogo, já era tarde, Mutant Year Zero já estava comigo e instalado na consola. E apesar de não alterar a minha opinião pouco simpática sobre o género em que se insere, a verdade é que o jogo da The Bearded Ladies Consulting cativou-me por completo.

A ideia de explorar um futuro pós-apocalíptico atraiu-me, é certo, ainda mais depois da desilusão de Fallout 76. O mundo de Mutant Year Zero consegue equilibrar uma constante sensação de medo e perigo com a vontade de explorar e encontrar novas localidades e recursos, algo que me satisfez desde o início. Apesar dos cenários, que se encontram divididos por zonas, serem um pouco limitados, há sempre algo para descobrir, desde pequenos momentos de história até à revelação de objetos perdidos da nossa civilização. A simplicidade da história, que nos coloca em busca de uma cidade lendária, ajuda ao desenvolvimento das personagens, mas é o mundo e a forma como é caraterizado que se assumem como um dos destaques do jogo.


Se jogaram S.T.A.L.K.E.R. ou se viram o belíssimo filme de Andrei Tarkovski e leram Roadside Picnic, dos Irmãos Strugatsky, livro que inspirou tanto a série de jogos como o filme de Tarkovski, conseguem ver as semelhanças

Se Mutant Year Zero limita a exploração em prol da história, o mesmo não pode ser dito do seu sistema de combate, que é, sem quaisquer dúvidas, o seu foco. Apesar de não existirem combates aleatórios ou a repetição de certos encontros ao longo do mapa de jogo, cada zona apresenta um desafio que deve ser ultrapassado para continuarmos em frente ou recolhermos itens e equipamentos mais valiosos. O sistema de combate, que funciona de uma forma semelhante ao que vimos em XCOM, é muito assente na estratégia, no posicionamento das personagens e da preparação prévia das personagens, algo que me assustou no início. É comum perdermos, até nos combates mais acessíveis, e é na sua repetição, pouco frustrante, que vamos pensando para além do simples ato de atacar e procurar estratégias alternativas.

A nossa equipa de mutantes faz parte de um grupo de aventureiros, intitulados de Stalkers, que têm como missão explorar as zonas mais perigosas em busca de recursos. Se jogaram S.T.A.L.K.E.R. ou se viram o belíssimo filme de Andrei Tarkovski e leram Roadside Picnic, dos Irmãos Strugatsky, livro que inspirou tanto a série de jogos como o filme de Tarkovski, conseguem ver as semelhanças entre os batedores de Mutant Year Zero e os das outras franquias. O objetivo é o mesmo: explorar zonas inóspitas, recolher o máximo de itens possíveis e regressar à Ark, a última cidade viva. Para mim, teria sido muito mais entusiasmante manter este ritmo de exploração e adicionar mecânicas de sobrevivência ao jogo, mas a história, não estivéssemos nós perante um RPG, acaba por ganhar um peso enorme sobre a jogabilidade, dando-nos a possibilidade de explorar, mas sempre com a urgência da missão principal sob os nossos ombros. Nesse sentido, e tendo em conta as claras influências do jogo, queria ter visto muito mais do mundo do jogo.

Os artefactos da nossa civilização povoam os cenários do jogo e é interessante ver como as personagens interagem com objetos que desconhecem, mas que para nós são mundanos.

Este desafio, ainda mais num género que não aprecio, tinha tudo para me afastar de Mutant Year Zero, mas isso nunca aconteceu. Talvez tenham sido os anos de Dark Souls que me tornaram um pouco mais paciente e me ensinaram a olhar para os cenários em busca de pistas e de alternativas, mas aqui senti que podia controlar qualquer situação de combate se fosse paciente. Cada personagem tem duas ações por turno, que podem ser gastas na movimentação, ataque ou habilidades especiais – que podem ser afetadas por mutações. Com esta limitação das ações, somos obrigados a pensar com antecedência e a tentar prever os ataques dos inimigos consoante as suas classes. A possibilidade de usarmos táticas furtivas, por exemplo, vai de encontro a estas limitações e dá-nos uma ferramenta importante para termos consciência dos cenários em si, do posicionamento dos nossos inimigos e do poder das nossas personagens. Cheguei a perder combates apenas porque não previ o som das minhas armas e encontrei situações onde fui eliminando os inimigos mais afastados, um a um, para conseguir ter alguma vantagem sobre o grupo que estava a atacar. Se aliarmos estas possibilidades à verticalidade de certos cenários, percebemos que Mutant Year Zero é difícil, sim, mas apenas se deixarmos que seja. E isso tranquilizou-me.


Um elemento que adorei é a forma como as personagens interagem com objetos da nossa sociedade, inventando, muitas das vezes, histórias e explicações hilariantes que dão ao jogo toda uma inocência inesperada.

Mas não se enganem: o jogo é mesmo difícil. É preciso ter paciência e perseverança para enfrentar grupos extensos de inimigos, ainda mais quando a nossa equipa é composta por três elementos, e aceitar que vamos perder uma ou várias vezes até compreendermos como devemos enfrentar aquele combate em específico. Pode ser assustador no início, mas acabei por descobrir que Mutant Year Zero é igualmente acessível. A jogabilidade é rápida e intuitiva, sendo possível trocar automaticamente de arma ou de habilidades, com os cenários a darem-nos todas as informações necessárias sobre cada confronto que encontramos. Apenas senti que a alteração entre pisos pode ser frustrante, ainda mais em situações de maior stress. Os combates por turnos dão-nos todo o tempo necessário para pensarmos e construirmos a nossa estratégia e há toda uma vontade em habituar os jogadores ao mundo e ao sistema de combate antes de chegarem aos desafios mais afincados. Sim, é difícil, muito até, mas a dificuldade é progressiva e bem estruturada.

Os combates colocam-nos sempre em desvantagem numérica, algo que aceitamos à medida que compreendemos o poder e a importância das habilidades das nossas personagens. Como mutantes, têm acesso a poderes que a maioria dos inimigos não têm, como o controlo mental ou a força bruta.

É uma pena o mundo ser, por vezes, tão limitado. Existem zonas alternativas onde podemos simplesmente explorar e combater, com vários itens e recursos à nossa disposição, mas queria muito mais deste mundo destruído. As personagens não são fascinantes, mas servem bem a história, algo que, se tivermos em conta o foco no combate, acaba por fazer todo o sentido. Mas queria saber mais, muito mais e o jogo não me dá isso. Um elemento que adorei é a forma como as personagens interagem com objetos da nossa sociedade, inventando, muitas das vezes, histórias e explicações hilariantes que dão ao jogo toda uma inocência inesperada. Um simples iPod, por exemplo, é visto como algo completamente alienígena e uma escola, que encontramos no decorrer da história, é descrita como um local assustador que era habitado por uma raça de monstros chamada “stu-deeeent”. É isto que me fascina no mundo de Mutant Year Zero e fico a pensar que este é um mundo que merecia ser expandido e explorado ao máximo. Ficarei a aguardar pela sequela.

Ainda estou longe de acabar Mutant Year Zero, mas sei, ao fim de 10 horas – sendo que muitas dessas horas foram em combates perdidos –, que estou perante um possível clássico desta geração. Não tenho ouvido falar muito no jogo, ainda mais numa época como esta, mas não tenho quaisquer problemas em dizer que merece o vosso tempo. Os combates continuam a assustar-me, mas sempre que penso ter chegado a um ponto de não retorno, respiro fundo, experimento outra tática ou melhoro o equipamento limitado das minhas personagens e acabo por encontrar uma solução. A vida é mesmo assim.

O código (PS4) foi cedido pela Evolve.

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

5 thoughts on “Por amor aos jogos, joguem Mutant Year Zero! Deixe um comentário

      • Não joguei o XCOM 2 mas joguei o primeiro e gostei. Foi a primeira vez que joguei algo do género, então já tinha uma ideia do que esperava aqui e o Mutant é bem melhor do que esperava. Em que parte… hmm… Cheguei à zona onde tenho de encontrar um homem, isso já deves saber, apesar de não me lembrar o nome dele agora ^^’ mas tenho de derrotar ainda alguns inimigos da zona. Estou a nível 34 acho eu. E tu?

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      • Acho que vais à minha frente! Também estou à procura desse homem, acho que se chama Hamond (agora também tive uma branca), e encontrei agora a mutante raposa. Estou nessa zona e ontem perdi contra um grupo de robots. Lá vou eu tentar outra estratégia :D.

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      • ah já sei! Essa parte é só robôs por todo o lado de facto! E sim está aí a raposa. Sim, vou bem mais à frente. Estou no local onde, supostamente, está o Hamond, penso que seja este nome mesmo 🙂

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