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Quando Não Temos o Que Queremos

I

maginem este cenário: a vossa série favorita acaba de receber um novo jogo que é uma desilusão em todos os sentidos. Apesar do vosso amor pela franquia, por todos os títulos anteriores, este novo jogo coloca tudo em risco, dá-vos uma nova perspetiva e obriga-vos a repensar tudo o que sabiam sobre a série e sobre o estúdio que a criou. O que fazer depois desta desilusão?

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Imaginem como foi o Dia de Ação de Graças em casa do Todd Howard, especialmente quando o pai dele é fã de Fallout.

Este é o interregno em que me encontro depois do lançamento de Fallout 76. Apesar do meu amor pela série Fallout, sinto que algo mudou com a chegada deste MMO vazio e desapontante, algo que já tinha sido evidenciado em Fallout 4 devido à sua história e falta de missões secundárias memoráveis. Três anos depois, volto a sentir este medo, esta desilusão, mas personificados por um desapontamento que até agora não tinha contaminado o meu amor pela série. Mas agora, isso mudou e o meu interesse está alterado.

O problema é que eu não sinto que isso seja totalmente justo. É certo que considero as práticas da Bethesda como duvidosas e vejo a forma como tem vindo a posicionar-se na indústria e a explorar as suas séries, mas a verdade é que um jogo não pode – e nem deve – alterar o nosso amor pelas franquias ou pelos títulos que antecederam a nossa desilusão. Um jogo não personifica uma série e, como fã, é necessário respeitar as vontades das produtoras, as suas escolhas e assumir que as séries não são, até certo ponto, nossas. Mas quanto mais penso em Fallout 76, apercebo-me de que não estou irritado com a Bethesda, mas sim desiludido. E isso é marcante.

A ideia de não termos NPCs e de todas as quests serem iniciadas por computadores ou robots era um sinal claro para o futuro do jogo.

É difícil pensar que, enquanto consumidores, nós podemos não receber o que tanto queremos. Afinal, o que podemos exigir? Mais jogos iguais? Que as nossas séries nunca mudem? A verdade é que os estúdios não estão a produzir apenas para nós, não a nível individual, mas sim para a sua comunidade. Neste momento, existem pessoas a adorar Fallout 76 e eu compreendo isso. Tenho de me mentalizar de que isso é totalmente possível. Mas como um consumidor que continua a receber algo que não quer, a minha visão fica deturpada e a raiva e a tristeza alteram a perceção de uma série que considerava com todo o carinho.

As nossas expetativas são um bicho peculiar e, acima de tudo, perigoso, tanto para nós como para os estúdios. Não é suposto alimentar esse monstro e muito menos explorá-lo. Um artista, seja músico, escritor, pintor ou cineasta, não deve pensar apenas naquilo que o público quer, mas sim naquilo que lhes quer transmitir e contar. O problema surge quando estúdios como a Bethesda mexem com essas expetativas e reforçam o que sempre quisemos ouvir: que o jogo vai ser como queremos, que vai nos dar o que esperamos e que “vai simplesmente funcionar”. E depois, isso não acontece. E no final do dia, tanto os media como os vários membros do estúdio dizem que a culpa é nossa. Esta dissonância é dolorosa.

Talvez o meu amor por Fallout não mude. Não é a primeira vez que me desiludo e tenho de compreender que existe sempre espaço para algo novo. Posso vir a surpreender-me com o próximo jogo da série, mas isso só acontecerá daqui a vários anos. Com Fallout 4 e Fallout 76, instalou-se a dúvida: e se não for bom? Este pensamento irá acompanhar-me até ao próximo jogo e eu não vou conseguir fazer nada para o impedir. É tarde de mais. Podem dizer que estou a ser infantil e que devo aceitar as coisas tal como elas são, mas isso é uma desculpa esfarrapada. Nós não temos de aceitar tudo, não temos de nos calar quando nos sentimos desiludidos. Posso respeitar a Bethesda, compreender o meu lugar como consumidor e saber que não devo, até certo ponto, exigir o que quer que seja, mas sei muito bem o meu lugar como fã e sei que posso rejeitar algo que não está dentro dos meus gostos.

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A velha desculpa do “ao menos eles lançaram alguma coisa” só resulta quando não estamos a falar da nossa série favorita. Nós, os jogadores, somos assim, mas ao menos unimo-nos na desilusão.

Se quiserem fugir à desilusão, existem mecanismos que vos podem ajudar. No caso de Fallout 76, podem pensar que se trata apenas de um spinoff, com o quinto título da série ainda distante. Podem também pensar que a Bethesda irá aprender com os erros deste jogo e que franquia irá regressar à jogabilidade e narrativas que a popularizaram. Mas até lá, até esse futuro cada vez mais distante, terão de viver com a ideia de que a Bethesda, ao contrário do que vos foi dito na E3 deste ano, não vos ouviu e muito menos quis saber das vossas expetativas. Tão simples como isto. Todd Howard e companhia podem dizer o que quiserem durante os próximos meses, nada muda o facto de que recebemos algo que não queríamos e que mal funciona. Se ao menos fosse um free-to-play, não é?

A pergunta mantém-se: o que fazer quando não recebemos o que queremos? Alguns dizem para não sermos mimados, outros erguem os seus punhos no ar e exigem que nos rebelemos contra os estúdios em protesto. Mas qual será a posição pela qual devemos optar? E valerá a pena? A desilusão vai permanecer aqui. Por mais que grite, Fallout 76 vai continuar a ser mau. Decidi que não devo, por uma questão de consciência, comprar o jogo. Vou seguir o meu caminho e mentalizar-me, mais uma vez, de que não existem “vacas sagradas”. Isto é um vale-tudo e eu tenho o direito a sentir-me saturado.

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

3 thoughts on “Quando Não Temos o Que Queremos Deixe um comentário

  1. Eu, apesar de não ser fã da série, espero bem que a Bethesda aprenda com esta chapada que levou. O milking the cow não funcionou desta vez. Não sou, de longe, a pessoa mais informada no franchise mas, pelo que pude analisar no jogo, e de algumas coisas que sei da série, a quantidade de bugs é enorme, o motor de jogo é velho como tudo e o frame rate… nem é bom entrar por ai e relatar o que senti em primeira mão. São estes três pontos um problema? Nos “bons” jogos da série eram apenas algo menos positivo e passavam quase ao lado com o resto do bom conteúdo. Agora em 76, as coisa não são bem assim. Esses três pontos fazem-se notar mais ainda, porque não há mais nada que possam usar para jogar areia para os olhos. É tudo muito abaixo do esperado e, tal como as lootboxes da EA, espero que esta seja uma lição para a empresa e, quando chegar a altura do 5, espero que pensem bem em como abordar o produto. Além do mais, têm agora muito trabalhinho pela frente com o 76, pois alguma coisa tem que ser mudada e o damage inicial já está feito. Mas para além da Bethesda, espero que também seja uma chamada de atenção para outras empresas no futuro, as quais possam pensar em usar os mesmos procedimentos.

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    • Temos o exemplo de Elder Scrolls Online que também desiludiu no lançamento, mas que se transformou num MMO adorado pelos fãs através de atualizações. No entanto, ESO tinha as bases para ser mais do que aquilo que foi no lançamento, já Fallout 76 parece ser exactamente o contrário. Pelo que vejo do jogo, parece que está incompleto e alguns críticos dizem que mais parece ser um “proof of concept” do que um jogo de 70€. Isto significa que a Bethesda estava tão convencida que tudo o que é Fallout vende que nem pensou em todas as variantes, dando aos jogadores um jogo que irá atualizar (se o atualizar). Mas será o suficiente? Estou contigo, espero que seja uma chamada de atenção para os outros estúdios. Já tivemos No Man’s Sky (ainda que este fosse um jogo independente) e agora temos Fallout 76, por isso espero que não vire moda.

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      • Deviam estar a contar com o ovo no cu da galinha e, no fim, deram-se mal. O NMS realmente é um bom exemplo mas, segundo consta, lá melhorou bastante. Eu acho que são casos isolados mas nunca se sabem se não podem começar a ser mais frequentes… A verdade é que alteraram muitas das mecânicas (do Fallout) e acabaram por não implementar algo que fizesse o lugar delas e o resto já se sabe.

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