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Red Dead Redemption 2 | GLITCH REVIEW

S

ejamos honestos: antes da vaga de análises de Red Dead Redemption 2, já todos sabíamos qual seria o veredicto. Posto isto, há um perigo enorme em escrever sobre um jogo tão antecipado a tempo de publicar a análise nessa primeira vaga, em especial um jogo que vai estar com os jogadores durante dezenas (ou centenas) de horas. Este perigo costuma, por norma, revelar-se em dois extremos: ou na confirmação do hype com notas (quase) perfeitas, ou na contracorrente que se agarra cegamente às falhas do jogo para ser diferente. E a verdade é que Red Dead Redemtion 2 é o candidato mais forte ao título de GOTY. Está longe de ser perfeito, é verdade, mas as falhas que apresenta, ainda que desapontantes, não impedem a experiência de ser algo revolucionário.

RDR2-SELO

Com cerca de 180 horas de jogo, estou mais do que satisfeito com Red Dead Redemption 2. Gostaria de poder dizer que o espanto que me agarrou desde o primeiro momento durou até ao rodar dos créditos, mas estaria a mentir. De todos os elementos menos bem conseguidos, foi a narrativa a culpada pelo esmorecimento da minha vontade de explorar e permanecer neste mundo, mas apenas na recta final. A história de Arthur Morgan é, com percalços pontuais, um perfeito exemplo do talento da Rockstar Games, mas a forma como decidiram deixar cair o pano quebrou o ritmo. Pior ainda, a relação que construi com o mundo e com o jogo ao longo de 170 das 180 horas. É uma jogada algo arrojada, embora não inovadora, que não funcionou para mim e que me faz não querer explorar mais o mundo. Felizmente, fi-lo quase por excesso antes do final.

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Se o ponto forte de Red Dead Redemption 2 é a forma como o jogo cria as condições perfeitas para uma imersão total, as suas falhas jazem na falta de informação (ou na qualidade da mesma) e na forma como alguns dos sistemas se invalidam. Algumas mecânicas não são explicadas convenientemente e a navegação pelos menus é morosa e pouco clara, mas é o compromisso por metade com algumas decisões de design que impedem Red Dead Redemption 2 de se destacar verdadeiramente dos jogos que o precedem.

OS CAVALOS ESTÃO CONSIDERAVELMENTE
MELHORES DO QUE NO JOGO ANTERIOR,
MAS A “INTELIGÊNCIA” ARTIFICIAL AINDA PECA

Quanto à incompatibilidade de sistemas, sinto que os elementos de sobrevivência serão o melhor exemplo, uma vez que acabam por ter um impacto maior na economia do jogo ao mesmo tempo que se apresentam quase opcionais. Passo a explicar. À semelhança de The Last of Us, é possível interagir com móveis dentro de casas (abandonadas ou não), abrir as gavetas e portas e vasculhá-los em busca de mantimentos e outros objectos úteis. O equilíbrio quebra quando há tanta abundância de todo o tipo de artigos no mundo que se torna irrelevante estes estarem à venda nas mercearias e outras lojas, e o dinheiro que deveria ser difícil de adquirir e custoso de gerir, passa a haver quase em demasia.

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Este desequilíbrio faz com que comprar aquela nova arma especial acabe por ser um momento banal em vez de uma conquista ou um marco. Da mesma forma, chegar a uma nova localidade e visitar as lojas na expectativa de terem artigos diferentes das aldeias e vilas onde estivemos antes, é desapontante e confirma que o catálogo do jogo é praticamente universal. Em Red Dead Redemption 2 o jogador precisa de comer e descansar para se manter saudável e de alimentar e cuidar do cavalo, mas este realismo que nos obriga a determinadas rotinas, como é típico dos jogos de sobrevivência, contrasta com tradições da indústria que volta e meia nos quebram a ilusão de sermos um fora-da-lei no faroeste. Tudo isto é, em certa medida, anticlimático porque a Rockstar Games subverte tantos dogmas da indústria em vários aspectos de Red Dead Redemption 2 e com grande sucesso que, quando segue realmente as normas estabelecidas, fica a sensação de que estes pormenores podiam estar mais afinados.

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É importante relembrar que estou a olhar para Red Dead Redemption 2 ao fim de 180 horas de jogo, a maior parte das quais investidas a explorar os recantos do mapa, a caçar e a descobrir as idiossincrasias do mundo através dos olhos de Arthur Morgan. As falhas de Red Dead Redemption 2 são, na verdade, as falhas da indústria que existem em jeito de normas e que a própria Rockstar desafia com este título. Quando sucede, é espectacular. Quando se conforma, desaponta, mas só porque eleva a fasquia a alturas inéditas. As falhas provocam uma sensação de oportunidade perdida e não de frustração. Há decisões difíceis de aceitar no que respeita a narrativa e sente-se a falta de experiência da Rockstar no que respeita os elementos de RPG e de sobrevivência, que acabam por ser muito leves.

A ROCKSTAR ELEVA A FASQUIA,
DE TAL FORMA QUE É DUVIDOSO QUE ESTE
VENHA A SER O NOVO PADRÃO DA INDÚSTRIA

Não obstante, é uma aposta arriscada de um jogo que pretende agradar a maioria. Mesmo como está, seria irresponsável da minha parte assumir que todos os jogadores se apaixonarão pelo jogo, em especial porque aqui somos atirados para um mundo mais lento, de cavalos em vez de carros e de revólveres em vez de metralhadoras, e obrigados a aceitar esse ritmo como regra natural – uma espécie de heresia na indústria moderna dos videojogos. Ainda assim, para quem conseguir aceitar estas características como positivas, a experiência provar-se-á refrescante e, possivelmente, terapêutica. Acima de tudo, a Rockstar aposta na interacção com o mundo e, em particular com o nosso gangue, consegue um feito raro nesse campo.

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Mais do que o jogo do ano, Red Dead Redemption 2 é possivelmente o jogo desta geração de consolas. A meu ver, a história beneficiaria de uma revisão com direito a cortar algumas partes (há um conjunto particular de missões na segunda metade do jogo que deveriam ser eliminadas por completo) e a rever outras, e os sistemas de crafting e a economia precisavam de ser retrabalhados. Porém, Red Dead Redemption 2 consegue o feito alcançado por poucos jogos de nos fazer importar com os nossos companheiros NPC e de criar um mundo realmente vivo, onde as nossas acções se sentem consequentes. E ainda que seja tudo uma ilusão, raramente lhe encontramos as rachas e nunca chega realmente a quebrar. E isso é revolucionário por si só.

Nota 10
A escala utilizada é de 1 a 10

Duarte Pedreño Ver todos

Adepto de indies, fã antigo da série Total War, e tenho uma relação especial com os jogos de Fumito Ueda. Não sou muito esquisito, gosto de desporto, acção, aventura, RPG... Só dispenso terror e jogos de corrida, a não ser que seja o Crash Team Racing.

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