Saltar para o conteúdo

O Fascínio pelo Medo

O

lhando para trás, consigo perceber que existe um género constante na minha vida e nas minhas influências que não só me moldou enquanto criador como despertou certas emoções e gostos que seriam impossíveis sem a sua presença constante. Pode parecer ser estranho, mas esse género é o de terror e com esta época festiva dedicada a tudo o que é assustador e peculiar, decidi deambular por este fascínio. Eu adoro assustar-me. Mas como e porquê?

Chapel-620x.jpg
Está tudo na nossa mente.

Estas questões ganharam um maior impacto depois das minhas primeiras horas com Layers of Fear e Observer, ambos desenvolvidos pela Bloober Team, onde a minha noção de terror foi colocada em causa. Pela receção, pareciam ser jogos assustadores e experiências imprescindíveis para os fãs do género, especialmente Layers of Fear, que se banha também num certo surrealismo para criar os seus momentos mais aterradores. Mas ao fim de pouco tempo, apercebi-me que estava aborrecido e sem vontade de avançar. Os sustos não eram mais do que isso, sustos fáceis com sons altos, e isso desiludiu-me.

Mas estarei eu errado? Se Layers of Fear é capaz de assustar a maioria dos jogadores, o que estarei eu à procura? Ao navegar pela casa e pelos jogos psicológicos com que o jogo tenta assustar os jogadores, moldando a disposição das salas numa tentativa de os confundir, apercebi-me que existe mais a vontade de contar uma história e de surpreender através dos seus pormenores mais macabros do que em criar um ambiente verdadeiramente arrepiante e capaz de nos fazer parar de medo. Layers of Fear é mais walking simulator, com puzzles ocasionais, do que um jogo de terror. Aliás, funciona quase como uma casa de terror onde vemos as coisas à distância e em total segurança.

e4f6015a535042aad36e99b7327b3a31.jpg
As bases para um jogo verdadeiramente arrepiante e provocador estão presentes, mas Layers of Fear prefere estragar o seu ambiente com sons altos e surrealismo barato.

Não sou contra os sustos fáceis, ou jump scares, mas acho que devem ser bem implementados e não servir de muleta. Os sons altos, os gritos inesperados e a música desconcertante não podem ser os elementos que movem um jogo de terror, mas sim pequenos apontamentos. Um susto fácil pode ser extremamente eficaz quando já existe uma tensão palpável, como em Silent Hill 3, quando descobrimos o manequim sem cabeça. Em Layers of Fear, como na maioria destes títulos, este tipo de susto está presente do princípio ao fim e por mais que saltem pela sua surpresa, não é medo que vão sentir, mas sim irritação.

Eu tenho, tal como muito de vocês, um fascínio pelo desconhecido, pelo escuro e por tudo aquilo que não compreendo. Olhar para uma sala sem luz sem saber o que me espera deixa-me arrepiado, mas também curioso. Apesar do medo que sinto, há algo em mim que me pede para avançar. Os pelos do braço levantam-se enquanto estico a mão à procura do interruptor, mas na minha mente, que começa a tentar tapar os buracos da imaginação, sinto que há algo à minha espera. Quase que sinto uma mão a agarrar o meu braço, que está cada vez mais próximo do interruptor, e com o medo a crescer, apresso-me e ligo a luz. Não há nada, a sala está vazia, mas o medo continua comigo. A luz está acesa, sem dúvidas, mas a mente continua a trabalhar e faz-me pensar: e agora, o que está atrás de mim?

Scp.jpg
O que me fascina no género é a sua habilidade de assustar através dos cenários mais simples e das histórias mais arquetipais. Há algo de primitivo no terror e isso mantém-me envolvido.

Este tipo de medo nunca está presente em Layers of Fear, não há um crescendo para os seus sustos e muito menos uma vontade palpável em criar tensão em vez de terror. Se o susto não for estridente, não funciona e isso deixa-me apreensivo. É raro encontrar jogos que tenham a coragem de eliminar estes sustos fáceis em prol de um ambiente arrepiante e em constante construção. Não só Silent Hill como Amnesia ou até mesmo SCP-087 e September 1999, que podem ver no nosso Especial Halloween, são jogos capazes de se focar numa mecânica e criar o ambiente perfeito, mas com a massificação do género, tanto nos videojogos como no cinema, basta olharem para IT, que se relega quase exclusivamente aos sustos fáceis, temo que a qualidade possa continuar a cair.

O medo do desconhecido dá lugar ao incompreensível, a algo tão macabro que a nossa mente não consegue percecionar. A confusão, que se concilia com um estado constante de pânico, cria uma falta de compreensão onde somos obrigados a traçar cenários para compensar esta falha e à medida que o medo cresce, também estes cenários vão sendo deturpados pela nossa ansiedade. O que começa como uma simples dúvida – o que está do outro lado? -, transforma-se numa luta pela sobrevivência onde aceitamos que há definitivamente algo que nos quer matar, mas não conseguimos, por mais que tentemos, compreender o que é. E neste estado de euforia, como em muitas histórias de H.P. Lovecraft, a nossa mente desliga-se e entregamo-nos ao medo, sabendo que em momento algum conseguiremos compreender o que nos espera, deixando-nos num tormento constante e num desconforto palpável. Este é o medo que eu adoro sentir, esta união entre o desconhecido e a nossa imaginação, onde somos levados a pensar em todos os cenários sem, muitas das vezes, termos uma resposta concreta. Sem uma certeza, a mente continua a tentar compensar esta falta de compreensão mesmo depois de sairmos do jogo. E isto é possível, mas cada vez mais raro.

605895-915022_20040924_002
O desconforto é outro dos grandes aliados do género de terror e um efeito muito esquecido pela maioria dos estúdios.

Eu gosto de me assustar, gosto de sentir medo e de me sentir tenso enquanto vejo um filme ou jogo. Adoro ficar perturbado por A Bruxa ou Hereditário e adoro parar para me recompor e sentir receio em virar a câmara em Alien Isolation ou não saber o que me espera do outro lado da porta em Resident Evil Remake. Este fascínio pelo desconhecido está comigo desde miúdo, o medo do escuro e a vontade de o explorar. O arrepio na pele quando juramos que sentimos algo, mas sabemos que não está lá nada, e o sorriso na cara quando nos assustamos a sério e nos sentimos vivos. Talvez o “como” continue a crescer comigo e a ser moldado pelos meus gostos, mas o “porquê” torna-se claro para mim: porque somos todos um pouco masoquistas e queremos sempre saber mais. Quero mais, quero saber o que se passa do outro lado da porta e o porquê das luzes estarem às escuras. Quero duvidar e ter coragem.

Talvez o género me deixe de fascinar, talvez já tenha visto de tudo e agora seja obrigado a pegar nos pedaços que sobram e a tentar reconstruir algo para me sentir satisfeito, mas este amor pelo desconhecido estará sempre aqui. Quero acreditar que existe sempre uma história para descobrir ou uma lenda para aprender e até mesmo Layers of Fear e Observer conseguem dar-me isso. É continuar a ter fé no desconhecido e a temê-lo com todo o respeito.

Layers of Fear e Observer (PS4) foram cedidos pela Aspyr Media.

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

2 thoughts on “O Fascínio pelo Medo Deixe um comentário

  1. Bom artigo. Eu não sou fã de terror mas há algo que gosto de afirmar: Os videojogos de terror, quando bem feitos, podem ser mais intensos que filmes. Porquê? Porque num filme, se a pessoa não conseguir aguentar o momento, pode simplesmente tapar os olhos e esperar uns minutos que a coisa passa. Já nos jogos, a coisa funciona de forma diferente. Se quisermos continuar a avançar no jogo, vamos ter que ser nós a abrir a porta, a acender a luz, a descer à cave ou até a entrar naquela gruta… É neste aspeto que acho que os jogos conseguem ser uma experiência muito mais intensa, mas o ser uma experiência interativa é é isso mesmo. Contudo, não sendo fã do género como tinha dito no início, gosto sempre de tentar jogar algo nestes que se encaixe nesta quadra de abóboras e sustos. 🙂

    Liked by 1 person

    • Eu concordo contigo. A ideia de sermos obrigados a avançar e a sentir que o controlo está nas nossas mãos dão aos videojogos uma vantagem que os filmes nunca conseguirão imitar. É isso também que me fascina, essa necessidade de avançar, tal como descrevi no exemplo do interruptor da luz :). Apesar de não gostar desta nova moda dos jump scares, tens excelentes jogos para jogar no Halloween e eu vou sempre aos clássicos como Silent Hill, Project Zero 2 ou Alien Isolation (este último já é um clássico para mim ahahah),

      Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: