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Dakar 18 | GLITCH REVIEW

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uma das épocas mais preenchidas do ano, chega timidamente ao PC e às consolas um jogo nacional. Dakar 18, produzido pela Bigmoon Entertainment, é um jogo bastante ambicioso e não é por acaso: esta é a maior produção nacional na indústria dos videojogos.

Dakar-18-Review--Selo

Com uma aposta na simulação do evento de rally mais perigoso do mundo, Dakar 18 apresenta-se, para além da sua ambição, com conceitos inovadores e com mecânicas raras no género. Com um mapa gigante, que inclui regiões condensadas de três países da América do Sul – Peru, Bolívia e Argentina -, Dakar 18 não é apenas um jogo de mundo aberto que podemos explorar livremente. Durante a campanha, o seu mapa serve apenas de tela para um enorme jogo de “orientação” onde temos de usar um conjunto de ferramentas bem limitadas para descobrir os pontos que traçam cada percurso.

Ao nosso dispor, vamos ter cinco classes de veículos – carros, motas, camiões, quads e SXSs. O jogo conta com alguma variedade e podemos selecionar marcas oficiais e pilotos reais, com a escolha de cada classe a definir o modo como abordamos o jogo, algo que pode afetar drasticamente a jogabilidade e o uso (ou limitação) de algumas mecânicas. Por exemplo, a navegação de mota retira-nos a possibilidade de ter um copiloto.

Cinco classes, com diferentes veículos que mudam a forma como podemos jogar.

Com uma dificuldade ajustável, onde podemos configurar ajudas mecânicas, Dakar 18 oferece três níveis de dificuldade, com o terceiro e mais difícil, Lenda, a ser desbloqueado depois de completarmos as 14 provas do jogo em qualquer uma das modalidades. Cada nível de dificuldade tem um conjunto de opções predefinidas. No nível mais fácil, por exemplo, temos um indicador na bússola durante os momentos em offroad; o nosso veiculo é mais resistente; e é mais fácil ganhar pontos (chamados Dakar Points) para podermos reparar o nosso veículo durante a prova.

Infelizmente (e começam aqui os “infelizmentes”), nem a opção mais fácil é amiga dos jogadores casuais. Dakar 18 é difícil. É difícil porque foi desenhado para tal e é difícil porque não é um bom jogo. Dakar 18 quer ser autêntico e visceral, quer fazer-nos sentir na pele o que os pilotos sentem durante as provas: desorientação, obstáculos, condições agrestes e muito mais. Isto tudo existe, mas é muito mal implementado.

Todas as promessas e ambições vão pelo cano abaixo quando o tutorial, para além de obrigatório, é extremamente confuso. Depois do tutorial, que nos tenta explicar como usar o roadblock, entrar na primeira prova começa com uma simples dor de cabeça: “E agora? É para onde?”, perguntei a mim mesmo como se tivesse faltado à aula de matemática onde foram ensinadas as equações mais importantes. Existe ainda um modo de treino que pode ser muito útil para passar pelo processo de aprendizagem, contundo requer um investimento extra e demasiada dedicação para o que o jogo oferece.

Mesmo ao fim de algumas provas e de ganhar o jeito à coisa, o sentimento de desorientação continuava presente. Cada vez que me perdia sentia que não estava a ler as informações de forma correta, sentia a falta de coordenação na leitura do que me era dado. É muito frustrante e é o mesmo que o jogo nos chamar de burros.

A leitura do roadblock requer muito investimento do jogador.

Nem sempre temos a ajuda do copiloto, mas quando está presente pode ser mesmo útil. Ainda assim, também se revela como mais uma dor de cabeça que temos de ter em conta. Para além da atenção ao jogo, temos também de olhar para o roadblock constantemente, calcular e apontar o veiculo para a direção certa e ainda temos de gramar com uma voz irritante a dar-nos indicações. É altamente estafante. Aqui também é estranha a ausência de uma voz em português. Seria muito simpático da parte da Bigmoon.

Eu sei e percebo que o jogo quer ser diferente de tudo o que já vimos, mas outro tipo de indicadores e navegação, para além dos “realistas”, teriam sido muito bem-vindos para a execução das provas, especialmente quando os checkpoints são invisíveis e alguns têm uma área de reconhecimento tão pequena que é fácil andar perdido à volta deles. Mesmo a bússola nem sempre útil e só nos dá indicação quando estamos fora de alguns caminhos (na dificuldade mais fácil) e o design do jogo a não fazer um bom trabalho ao mostrar a existência de trilhos, pois em alguns ambientes são muito difíceis de se ver, causando uma enorme confusão quando o copiloto ou o roadblock nos dizem “stay on track.”

Toda esta “complicação” (a favor do realismo e da autenticidade) e falta de acessibilidade é facilmente comprovada no modo Caça ao Tesouro, que nos permite explorar o mapa à procura de colecionáveis. O jogo larga-nos no mapa e diz “safa-te” A única informação existente é um mapa branco (que não permite ser visto na totalidade com zoom-out), praticamente vazio, apenas com a localização aproximada dos itens, que são quase impossíveis de encontrar.

A jogabilidade de Dakar 18 define-se como “realista.” Não retiro crédito à profundidade dada ao jogo neste campo. Ao longo das provas, temos de reparar o nosso carro com o uso de pontos; encontramos obstáculos que nos obrigam a dar voltas maiores; ficamos atolados em áreas lamacentas ou com areia; e em situações mais criticas, vamos ter de sair do carro, na terceira pessoa, para arranjar uma solução e pedir ajuda ou até ajudar outros pilotos rivais em situações semelhantes.

Infelizmente, estas ocorrências, tirando a reparação do veiculo, não são muito frequentes. Mais depressa ficamos desqualificados pelos danos no veiculo, seja por falta de atenção ou por um acidente, do que as vezes que encontramos um NPC em apuros.

Para fãs de Dark Souls: “You Died!”

Apesar de todos os veículos apresentarem um comportamento diferente e distinto, a física de Dakar 18 é tudo menos realista. Os veículos comportam-se de uma maneira muito estranha, parece que estão sempre a flutuar, não existindo a sensação de atrito em estrada ou offroad, e nas zonas mais áridas ou perigosas, o jogo fica apenas pesado. A direção dos veículos também sofre deste peso e atraso. Mesmo quando as condições são ideais, os veículos têm um comportamento pendular muito pouco satisfatório.

A colisão com objetos no mapa também é irregular. Por vezes, é fácil passar por cima de uma rocha, outras vezes é o suficiente para ficarmos KO. É extremamente difícil prever o que é verdadeiramente perigoso ou não, mesmo com o auxilio do roadblock.

A visibilidade das câmaras, em conjunto com o controlo dos veículos, também é desastrosa. Na terceira pessoa, a câmara nunca centra quando movemos a sua direção para observar o que está em nosso redor e é extremamente fácil danificarmos o carro numa duna, seja por falta de visibilidade ou por causa dos voos absurdos que os veículos dão nesses momentos. Já usar a câmara interior está mesmo fora de questão, para além de claustrofóbica torna ainda mais difícil a nossa navegação. Interessante é a adição de uma câmara de helicóptero, que, infelizmente, sofre dos mesmos defeitos da câmara exterior.

Nas motas, em particular, a jogabilidade é ainda pior. Curiosamente, esta foi a modalidade que mais gozo me deu em usar, ainda que a dificuldade e os problemas expostos sejam aqui amplificados. Mesmo em estrada, é quase impossível manter a mota direita e se estão à espera de encontrar harmonia e fluidez entre desvios de objetos e saltos entre dunas, esqueçam. É frequente cairmos da mota em pleno voo enquanto esta fica estática e outras vezes, a colisão com uma simples palmeira não tem qualquer efeito.

Visualmente, Dakar 18 também não é nenhum encanto. É extremamente datado e aborrecido. Os modelos dos veículos são decentes, identificam-se bem, mas existe uma enorme falta de direção artística. O mapa é extremamente aborrecido, com poucos pontos de referência, sem vida e muito mal povoado, onde se destaca apenas a diferença da ambiência entre desertos e zonas mais rochosas. Mesmo as diferentes condições atmosféricas presentes durante as provas não fazem o suficiente para dar o mínimo de brio ao aspeto do jogo. Não há dúvidas que é uma mapa gigantesco, mas do que vale tanto terreno se não for bem aproveitado?

Identificar trilhos e zonas de passagem é, por vezes, complicado.

Na versão PlayStation 4, onde foi jogado, os trilhos e estradas vão aparecendo e ganhando forma à distancia como se as texturas não carregassem na totalidade. Já o desempenho do jogo é inconsistente, com partes que parece tocar nos 60fps e outras onde fica abaixo dos 30fps. Também saliento os tempos de loading enormes, mesmo quando recuamos um checkpoint.

Dakar 18 conta ainda com modos multijogador, onde temos, por exemplo, um modo de ecrã dividido e um modo online. O online não consegui experimentar por falta de jogadores e pela frequente desistências nos lobbies e no modo de ecrã dividido tive um estranho bug em que o jogo não acusava o segundo comando.

Não tenho dúvidas que há um amor enorme pela modalidade desportiva e imenso talento na equipa de produção de Dakar 18, mas o jogo tem uma enorme dificuldade em corresponder a expectativas básicas, como se tivesse sido pensado para um público muito especifico. A falta de direção e de polimento e o foco na autenticidade limitam o potencial de um jogo que podia ser muito melhor mas, acima de tudo, muito mais divertido.

Diz-nos a produção para não nos deixarmos ir abaixo, pois só 55% dos pilotos é que concluíram a prova do Dakar deste ano. Certamente que, com este mindset, acrescentando os problemas que o jogo tem, vão ser muito menos os jogadores que vão querer jogar o Dakar 18.

Dakar 18 está disponível para PC, Xbox One e PlayStation 4.

A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela EcoPlay.

David Fialho Ver todos

É geek, é jogador, gosta de novas tecnologias e tem a mania que sabe opinar sobre algumas coisas.

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