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Marvel’s Spider-Man | GLITCH REVIEW

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eter Parker, Mary Jane, tia May. É difícil conceber algo novo com estas personagens, algo que não tenha sido já explorado; mas, ainda que ambicioso, é esse o objectivo de Marvel’s Spider-Man. Em boa parte, esse objectivo é alcançado. A história evita recontar a origem do Homem-Aranha, imagina as personagens principais em início de vida profissional e consegue reimaginar diversos elementos canónicos por forma a criar uma narrativa original com o humor tão típico da franquia e com momentos adultos que dão corpo ao tema da responsabilidade moral intrínseca ao poder.

Friendly-Neighborhood-Spider-Man-Selo-Review

De certa forma, a Insomniac faz com o Homem-Aranha o que a Roksteady fez com o Cavaleiro das Trevas. A comparação com a série Batman Arkham é inevitável, particularmente no que diz respeito às mecânicas e ao design. O sistema de combate é semelhante, as sequências de acção furtiva não menos, ainda que sejam mais permissivas, e até a própria estrutura das missões secundárias e desafios e a forma como encaixam na experiência sem quebrarem a narrativa principal são elementos familiares. E, no entanto, tudo parece ter sido feito à medida de Marvel’s Spider-Man.

O combate assume uma flexibilidade refrescante. Liberdade é a palavra de ordem e a destreza com que as mecânicas nos tornam capazes de alternar entre inimigos, ataque e defesa, traduz-se numa intuição rara neste tipo de jogos. Com isto não quero dizer que o combate seja fácil. A IA é competente e o leque de classes de inimigos vasto, garantindo que um momento de desconcentração (ou confiança a mais) possa resultar numa derrota humilhante. Ainda assim, fica a sugestão para arriscarem a dificuldade mais alta para um bom desafio sem grande frustração.

A decisão mais intrigante no design do combate é o facto de não recuperarmos energia com combos extensas ou acções especiais, como é comum, mas através do uso da barra de foco. Esta é construída durante o combate com ataques ou evasões bem-sucedidas, e é usada para restaurar energia ou neutralizar inimigos instantaneamente. É uma escolha interessante que cabe ao jogador e que carrega um impacto sensível nos combates. Já os gadgets sofrem de alguma artificialidade, em boa medida por não ser possível alternar entre as diferentes opções sem recorrer à “roda de armas” tradicional dos TPS.

DOIS TOQUES NO L1 ALTERNAM
ENTRE OS DOIS GADGETS MAIS USADOS,
MAS É LIMITADOR PARA UM ARSENAL TÃO VASTO

De uma forma geral, os elementos de progressão sofrem desta artificialidade. Há vários fatos de eras distintas do universo de Homem-Aranha, poderes que podem ser equipados e mods que alteram os atributos da personagem, mas tudo isto tem um impacto quase negligente. Há habilidades que podem ser desbloqueadas com pontos de experiência e que realmente fazem a diferença, principalmente em combate, mas a única razão para estas nos serem barradas inicialmente é uma necessidade mal-informada de criar uma ilusão (fraca) de progressão. A verdade é que estes elementos pseudo-RPG não precisavam de estar no jogo. Faria mais sentido estar tudo disponível desde o primeiro momento e que a evolução dependesse da aprendizagem do próprio jogador.

A história do jogo, por sua vez, não se deixa prender por convenções. Ambicioso é realmente o adjectivo que melhor descreve Marvel’s Spider-Man neste campo. O início sofre com situações clichés e alguns diálogos desinspirados, mas o jogo torna-se mais confiante e afinado perto do final do primeiro acto. O que se segue é uma narrativa que recorre a perspectivas de diferentes personagens, inevitavelmente com uma jogabilidade própria – as sequências de jornalismo de investigação com Mary Jane são exclusivamente furtivas –, e que por várias vezes subvertem as expectativas dos jogadores, em particular daqueles que estiverem familiarizados com os desenvolvimentos do universo do Homem-Aranha nos últimos anos.

AS MISSÕES SECUNDÁRIAS E DESAFIOS
VÃO SURGINDO NATURALMENTE
COM A PROGRESSÃO DA HISTÓRIA PRINCIPAL

Marvel’s Spider-Man assume riscos corajosos com a história que conta. O carisma da Marvel está presente, mas ao contrário dos filmes que parecem alérgicos ao peso das cenas dramáticas, o jogo da Insomniac não se coíbe de explorar os temas deste universo com a seriedade merecida nos momentos certos.  O panteão de vilões é bem explorado, cada um fazendo valer as suas particularidades tanto na história como nos momentos de combate, e as personalidades estão bem definidas independentemente do tempo de antena individual. Tudo isto é concretizado com um trabalho de voz e uma qualidade nas sequências cinemáticas a que os exclusivos da Sony já nos habituaram.

Não há forma fiel de descrever a experiência de Marvel’s Spider-Man. Ainda que haja detalhes pouco polidos, como os elementos de progressão e a artificialidade dos nova-iorquinos, a Insomniac acertou nos elementos cruciais. Durante as primeiras horas fiz pouco mais do que vaguear pela cidade a travar crimes que vão sendo reportados de forma dinâmica e aleatória. Manhattan é a verdadeira sandbox e o Homem-Aranha a personagem perfeita para a explorar. De bom grado teria ficado muitas horas mais a escalar aos edifícios mais altos para em seguida saltar e lançar a teia no momento antes de aterrar no passeio, mas alguém tinha de terminar o jogo para escrever esta análise.

Nota 8
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela Sony.

Duarte Pedreño Ver todos

Adepto de indies, fã antigo da série Total War, e tenho uma relação especial com os jogos de Fumito Ueda. Não sou muito esquisito, gosto de desporto, acção, aventura, RPG... Só dispenso terror e jogos de corrida, a não ser que seja o Crash Team Racing.

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