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Hello Neighbor | GLITCH REVIEW

Com o verão a chegar, desce sobre a maioria dos jogadores uma nostalgia palpável pelos tempos simples de escola. Os três meses de férias, as idas para fora e as tardes passadas a jogar sem quaisquer preocupações da vida adulta. É por esse motivo que ainda hoje tenho o hábito de me munir dos melhores jogos para passar o meu verão e foi isso que me levou até Hello Neighbor, um título que procura misturar a furtividade de Thief com a tensão de Outlast e os puzzles de Portal ou Half-Life. Existe aqui todo um excelente ADN, por isso imaginem como seria se fosse um bom jogo.

hello-neighbor-selo

Desde a abertura até ao seu final confuso, Hello Neighbor é uma enorme desilusão. Existe aqui tanto potencial perdido por más ideias, péssima otimização, má gerência de objetivos e uma dose pouco saudável de bugs. É um jogo que quer ser tudo e que acaba por ser apenas uma amalgama de mecânicas mal implementadas que revelam o quanto precisava de mais uns meses de produção. E tendo em conta que Hello Neighbor saiu primeiro no PC e chegou, ainda assim, neste terrível estado à PS4, revela muito sobre a sua produção.

No seu cerne, Hello Neighbor é um jogo das escondidas com uma dose pouco saudável de quebra-cabeças que teremos de resolver através da leitura dos cenários e da utilização do motor de física. A casa do nosso vizinho, que decidimos investigar após ouvirmos gritos misteriosos do seu interior, é um enorme labirinto que se vai reconstruindo e complexificando à medida que avançamos pelos três atos.

Esta ideia de termos um espaço em constante transformação, juntamente com a capacidade de aprendizagem do vizinho – que, após uma das nossas tentativas, passa a estar mais atento às nossas entradas ou a utilizar armadilhas nos locais que visitamos mais vezes –, é aliciante e seria um elemento de peso se existissem objetivos mais claros. Esta falta de pistas é compreensível, mas apenas até certo ponto. Ao contrário do que seria de esperar, Hello Neighbor não é, de todo, intuitivo e coloca-nos em cenários onde o objetivo não é claro. Com a constante presença do vizinho, que nos obriga a voltar ao ponto de partida, a resolução da maioria dos puzzles torna-se irritante e cria-se uma enorme urgência em chegar o mais depressa possível ao fim. Não existe aqui nenhum prazer na exploração ou na resolução do puzzles, mas sim uma frustração constante.

hello_neighbor_construções
O problema desta evolução da casa e das suas divisões é a falta de objetivos e a presença de elementos que apenas prejudicam a nossa diversão e compreensão do espaço.

Hello Neighbor parece ter começado como uma boa ideia entre amigos que se transformou num jogo experimental cuja popularidade acabou por afetar a produção e obrigar a equipa a lançar um jogo inacabado e repleto de problemas de performance. O primeiro ato, se tivesse sido limado, podia ser uma excelente porta de entrada e dar aso a uma maior experimentação por parte dos jogadores, ao descobrirem novos caminhos e soluções, e da Dynamic Pixels, ao terem espaço para melhorarem as mecânicas e reformular a estrutura do ato. Ao implementarem novos atos, evidenciaram os problemas e não as virtudes da jogabilidade. Devia ter sido apenas uma experiência curta, nada mais.

Mas o que prejudica a qualidade de Hello Neighbor e o nosso envolvimento na sua história e mecânicas são os problemas técnicos. Passaram-se quase dois anos desde a sua relevação e oito meses desde o seu lançamento no PC e no entanto, a versão PS4 apresenta-se com os mesmos problemas, como se nada tivesse sido resolvido. Temos também de pensar que Hello Neighbor começou por ser um projeto em Early Access, onde problemas tão visíveis como os que encontrei aqui, deviam ter sido resolvidos muito antes do seu lançamento tanto no PC como nas consolas. O que se passaram nestes meses?

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A ideia de termos um inimigo, indestrutível, à nossa procura é muito aliciante, mas Hello Neighbor parece pensar que uma boa inteligência artificial é suposta ser injusta e irritante.

Não é uma questão de “será que vão encontrar bugs”, mas sim da sua quantidade. Durante as minhas horas com o jogo, consegui entalar objetos no cenário, projetar outros para fora dos níveis e destruir todo o meu progresso quando o motor de física não conseguia lidar com uma pilha de caixas. O melhor momento que encontrei foi a projeção da minha personagem para fora do quintal do vizinho durante o segundo ato. Isto seria um bug relativamente normal se não tivesse significado que tinha acabado de eliminar todos os desafios do ato e chegado ao seu final devido a problemas técnicos. Os bugs projetaram-me para o terceiro ato. Não há nada mais irónico do que isto.

Hello Neighbor é o que Alien Isolation seria se fosse um mau jogo. Tinha tantas esperanças para a versão PS4, mas os sinais estavam lá todos, especialmente com a receção do título no PC. É uma desilusão enorme e é um jogo que não consigo recomendar, nem pelos seus bons momentos – existem puzzles satisfatórios, só os têm de encontrar. Este é um jogo a evitar durante o verão.

Nota 4
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela tinyBuild Games.

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

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