O Paraíso dos RPGs

Durante o final da década de 90 e o início do século XXI, a minha vida foi abalroada pela crescente necessidade de descobrir e jogar todos os RPG que existiam. Havia, como podem imaginar, uma enorme preferência pelas produções japonesas, pelos Final Fantasy, Dragon Quest ou Tales of da vida, todos eles grandes exemplos do que o género tinha para nos oferecer e cuja influência ainda pode ser sentida pela indústria; mas queria mais. E durante anos, essa foi minha missão.

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Missão RPG: Soldado Canelo no terreno.

Se não fosse pela PlayStation, pela primeira e agora velhinha consola da Sony, nunca teria descoberto este género que ainda respeito com tanto carinho. Foi a primeira consola a dar-me um leque tão variado de jogos que me acompanharam durante o início da minha adolescência e que moldaram não só o meu gosto como a minha visão enquanto jogador. E bolas, eu joguei tantos, mas tantos RPG que não consigo associar outra consola ao género senão a PlayStation.

Talvez seja por isso que ainda hoje sou fiel à marca e continuo a restringir as minhas aventuras de troca de papéis à marca PlayStation. Foram muitos anos e muitos jogos a jogar e a crescer com uma consola e um ideal que, apesar da crescente popularidade da indústria, nunca mais se vi a repetir. Para muitos, existe a SNES e há ainda quem valorize o catálogo da PS2 em prol de qualquer outra consola, mas para mim, nada bate a nossa primeira vez.

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Quando os mundos nunca eram pequenos ou limitados.

O meu início foi igual ao de tantos outros, e talvez se consigam rever. Nunca época em que só tínhamos as revistas e a opinião de amigos para estarmos a par dos novos lançamentos, fiquei cativado por Final Fantasy VII numa das minhas frequentes idas ao clube de vídeo. Já contei esta história anteriormente, mas a capa, quase toda branca, o lettering clássico e o número impressionante de CDs, deixaram-me tão curioso que, durante o meu aniversário, acabei por o comprar. Fui para casa, coloquei-o na consola e fiquei tão confuso com o jogo e as mecânicas que acabei por o trocar por Tomb Raider 2.

Mas o bichinho ficou comigo e quando Final Fantasy VIII chegou a Portugal, decidi ter mais cuidado e pedir o jogo emprestado. A partir daqui, não olhei para trás e apaixonei-me pelo género. As horas passavam, ainda sem saber bem o que estava a fazer, mas fui aprendendo com os erros e fui celebrando as vitórias. As memórias ainda cá estão e quando me lembro que cheguei ao quarto CD com a equipa abaixo do nível 30, fico envergonhado, mas bolas, o sorriso vem logo a seguir.

Parasite Eve foi outra presença forte na minha consola e o primeiro jogo a fazer-me perceber que nem todos os títulos chegavam à Europa. Se não fosse pela minha consola modificada, não teria jogado metade dos RPGs que saíram na PlayStation e teria perdido alguns dos meus jogos favoritos. Parasite Eve seria um desses jogos, um RPG que ainda hoje me deixa tão curioso por ser uma anomalia tão grande, mas um excelente exemplo dos tempos áureos da Squaresoft, onde a criatividade e ambição estavam em alta. Eu quero esta Squaresoft, com ou sem Enix, não o que tenho visto nestes últimos anos. E na PlayStation, ainda a tenho.

Xenogears, Tales of Eternia (ou Tales of Destiny II, como foi intitulado durante o seu lançamento), Star Ocean 2: Second Story, Chrono Cross, que adorava com todas as minhas forças, Threads of Fate, Vagrant Story, que me arrependo de nunca ter acabado, Dragon Quest VII, e tantos tantos outros. Bolas, ainda posso acrescentar Grandia à lista ou Final Fantasy Tactics, Alundra, Breath of Fire III, The Legend of Dragoon, etc. Meu deus, e estava-me a esquecer de Persona II: Eternal Pushinment e Wild Arms! Que lista!

A PlayStation continua a simbolizar o que é, para mim, a época de ouro dos RPG produzidos no Japão. É certo que a maioria foram produzidos sobre o molde de Final Fantasy VII e que muitos jogos vinham munidos de clichés que ainda hoje associamos ao género – como a aldeia de infância destruída pelo império malvado, o jovem com amnésia e o herói destinado a salvar o mundo – , mas existia aqui uma verdadeira vontade em inovar e em apostar em histórias e mundos criativos e diferentes de tudo o resto. É sabido que muitos queriam apenas imitar a Squaresoft e tentar repetir o sucesso de Cloud e Sephiroth, mas todos os que conseguiam quebrar o molde e encontrar a sua identidade rapidamente se transformaram em clássicos absolutos.

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Não é por acaso que gráficos, como este, existem por todo o lado, mas o género conseguiu sempre compensar a utilização de clichés com excelentes momentos narrativos e reviravoltas inesperadas.

Como era jovem, os verões eram passados com RPGs, com as suas longas campanhas que se dividiam ao longo de vários CDs, sendo o seu número um sinal de qualidade – algo que hoje em dia é apenas cómico e infantil. Adorava perder-me nestes jogos e existia um verdadeiro autoinvestimento em todas as histórias, personagens e mundos que encontrava, quase como se fossem também meus. Hoje em dia, sinto que dificilmente me deixo agarrar por outro RPG. Hoje, ou são jogos em mundo aberto ou imitações de MMO ou produções influenciadas pelos estúdios ocidentais. Algo se quebrou com o passar dos anos, talvez tenha sido apenas o meu gosto que mudou, até porque agora prefiro The Witcher III a Final Fantasy XV, mas durante a era da PlayStation, tudo se encaixou no seu devido lugar e durante aqueles poucos anos, era a consola que simbolizada todo um género.

A PlayStation foi importante por tantas outras razões, mas para mim, foi uma pequena revelação e um portal para novos géneros e toda uma nova forma de olhar e percecionar os videojogos. Sem esta consola, que sempre considerei feia, o meu gosto seria diferente, talvez já nem jogasse ou me interessasse em escrever sobre jogos, e sinto que lhe devo muito. Talvez seja por isso que, mesmo com toda a evolução gráfica e melhorias na jogabilidade, continua a ser a minha consola favorita. Eu dava muito para voltar atrás e ficar apenas no sofá, de pernas cruzadas, a jogar todos estes RPGs durante as tardes quentes de julho e agosto. Mas agora apenas recebo mensagens para jogar Fortnite. E tenho contas para pagar. E é assim.

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