Escrever sobre jogos

Por: André Pereira

Sempre achei que o Estudo do Meio era aquela disciplina que ficava entre a Matemática e a Língua Portuguesa, mas há uns anos corrigiram-me e disseram que tinha esse nome porque estudava o meio ambiente. Está bom, respondi, e fingi que acreditei.

Nessa disciplina aprendi que o ser vivo nasce, cresce, reproduz-se e morre. É uma visão bem simplória e nada niilista da nossa existência. No fundo, raspa onde quero chegar: à nossa evolução.

sala-de-aula-escola-particular-SP-size-598
Quando o niilismo se cruza com o estudo do meio.

Gosto de escrever, gosto de jogos e comecei a brincar com as duas coisas quando fiquei encarregue de acompanhar o desenvolvimento de Super Smash Bros. Brawl. Na altura, podia ter-me limitado a fazer um trabalho mais jornalístico de cópia e cola, mas havia aquela ânsia de ter um cunho pessoal. Quando o senpai reparou em nós e as distribuidoras começaram a enviar jogos, as análises ganharam mais destaque. Havia mais conteúdo e todo um outro processo intelectual, mas ainda assim era muito formulaico.

Começamos por introduzir o leitor ao jogo, desvendamos um pouco da narrativa e o que se anda por lá a fazer; abordamos os aspectos positivos e negativos; avançamos pelos visuais e som e atamos tudo com uma bela conclusão. O jogo sai do templo com um valor numérico que, de alguma forma, expressa a qualidade do mesmo. Ou uma nota de escola primária.

1_os 90 tinham uma escassez de píxeis
Os anos 90 tinham uma escassez de pixeis.

Em relação à história, por gostar de descobrir por mim, não gosto de falar muito sobre ela, prefiro atiçar a curiosidade, mas gosto de falar do que estou a sentir enquanto jogo. Se me emociona, se me frustra, se é uma total perda de tempo – como podem ler no artigo sobre Brutalism – , etc.

Quero acreditar que as pessoas ainda procuram por humanidade e criatividade na indústria (escrita e não só) ou não subscreviam a canais especializados onde os locutores têm um guião ou persona para entreter. Falo de pessoas como o AVGN, AngryJoeShow, Jim Sterling, Yahtzee, etc. Através deles e de outros, as pessoas são informadas, mas de uma maneira mais imersiva, interactiva e divertida. Lembram-se do Nutícias? Exacto.

Poder identificar com a escrita, com a voz ou com a mente de outra pessoa é meio caminho andado para nos fidelizarmos ao conteúdo. Eu ainda tenho na memória a Super Jogos com os guias nas páginas centrais que me deram a conhecer Metal Gear Solid, Resident Evil 3, The X-Files (tudo PSX) como se fossem livros; os editoriais da revista Playstation, da MConsolas que evoluíram até à Smash. Sempre me disseram que os fãs de escritores são bastante fiéis e seguem o autor para todo o lado. E o mesmo acontece aqui e com os milhares de subscritores de canais de YouTube ou assinantes de revistas. E é o que pretendo.

2_só mais um bocadinho
“Só mais um bocadinho”, disse ele a saber que ia estar a noite toda a jogar.

Escrever sobre o que se gosta com a total liberdade e criatividade para entreter é fantástico. Não há prazos para jogar RPGs de 100 horas num fim de semana ou ter de dar boas classificações e escrever tudo pipi porque os estúdios querem um currículo bonito. Apenas há um editor a bater com o indicador no relógio porque o prazo aperta ou porque escrevemos um texto com palha que não pode ser publicado assim porque ninguém vai ler. A liberdade também tem disto, levar nãos, mas estes estão sempre garantidos em tudo na vida. De resto, podemos mandar bitaites sobre Gamergates, Biowaregates, No Man Skygates, FKonamigates e outros que as pessoas respondem porque passa a haver espaço para debate.

Mudar de ares é bom para a cabeça. Abraçar novos desafios permite-nos conseguir mais e acho que vai ser uma boa experiência escrever sobre tudo – e nada. Se um tipo consegue nove temporadas de nada, acho que consigo ter pelo menos um leitor! Dois, se usar um título clickbait.

Então, e o que queres dizer com isto? Quero dizer que o Estudo do Meio lançou a primeira faísca que me fez apaixonar pela evolução. Anos de RPGs expandiram este conceito e, agora que estou prestes a terminar Romancing Saga 2, posso usar a metáfora de que quanto mais usamos uma habilidade, mais a desenvolvemos (Lamarck iria adorar este e Final Fantasy II). E espero que gostem. Se não, digam também.

3_estão a ouvir a música, não estão
Estão a ouvir a música, não estão?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.