Kingdom Come: Deliverance | Glitch Review

O que dizer sobre um jogo tão ambicioso e problemático como Kingdom Come: Deliverance? Posso começar por elogiar a sua aposta na narrativa e na veracidade da sua época, ou posso ainda sublinhar a sua vontade em criar um mundo verdadeiramente vivo onde cada ação tem uma consequência bem definida para a nossa campanha. Mas também posso dizer que não consigo afastar a ideia de que muitos dos seus elementos parecem estar incompletos ou inacabados e que o interface é horrível e confuso, ou que cada missão secundária é repetitiva e sem grande imaginação.

Kingdom_Come_Selo_Análise

Talvez seja a minha expetativa a falar mais alto, mas Kingdom Come: Deliverance tem sido dos melhores e piores jogos que joguei nos últimos tempos. A ideia de termos um RPG que decorre durante a Época Medieval, com uma aposta numa história mais pessoal e com mecânicas que apontam para um mundo mais versátil e vivo, é tão apelativa que o jogo da Warhorse conseguiu um lugar de destaque na minha lista de mais esperados. Mas depois de várias horas, continuo sem saber se gosto mesmo ou não de Kingdom Come: Deliverance.

Se adoram a história europeia e a época em que decorre a ação (século XV), este jogo é para vocês. Desde a vida no campo, as relações políticas entre as cidades e o reino, e até os jogos de usurpação que vamos vendo crescer à medida que nos embrenhamos na viagem de Henry, a nossa personagem, demonstram o quanto a Warhorse quis construir um jogo que nos envolvesse desde o primeiro momento. Existe aqui um enorme cuidado nos pormenores e na estruturação do mundo, e podemos sentir isso através da ação mais insignificante que possamos fazer. É uma viagem entusiasmante pela Europa medieval.

Ao contrário de Skyrim ou de qualquer outro jogo do género, Kingdom Come: Deliverance recorda-nos constantemente que estamos perante um mundo com as suas próprias regras, sublinhando o quanto as devemos respeitar se queremos sobreviver. A ideia de entrarmos em qualquer casa, por exemplo, é aqui um sonho e podemos acabar na prisão se invadirmos propriedade privada sem autorização. Qualquer gesto pode ser interpretado de várias formas e até as nossas roupas determinam se conseguiremos falar com algumas das personagens, sem falar no nosso próprio odor corporal e no estado dos nossos trajes.

Este é o mundo de Kingdom Come: Deliverance, onde teremos de tomar banho se queremos falar com um nobre e cuja fama ganha uma enorme importância ao se espalhar rapidamente pelo reino, obrigando-nos a ter cuidado com cada ação que decidimos tomar. Se roubarmos um camponês numa aldeia remota, a história irá passar de pessoa em pessoa até chegar às cidades e castelos, colocando-nos numa posição difícil onde ninguém confia em nós. E se tentarmos vender os itens que roubámos, ninguém os irá comprar pois sabem que não são nossos. Quando nos embrenhamos nestas mecânicas e deixamos o mundo de Kingdom Come: Deliverance se desenvolver e crescer à nossa frente, sentimos que estamos a jogar algo especial e com uma longevidade que poderá ser infinita.

A sobrevivência assume-se como mais uma camada importante para a profundidade deste mundo medieval, obrigando-nos a ter cuidado com a alimentação e saúde de Henry. Tal como qualquer outra pessoa, o nosso herói tem de comer, dormir e tratar das suas feridas para não criar infeções. Os alimentos estragam-se, as roupas ficam danificadas e cheias de sangue, e os nossos atributos são influenciados pela falta de sono e pelo álcool, o que significa que o nosso diálogo nunca será tão coerente e racional quando estivermos sob o efeito destes dois elementos. E estamos a falar de um jogo onde podem ficar viciados em álcool, por isso cuidado.

kingdom_come_deliverance_talmberg.jpg
Quando não está perdido em problemas técnicos, as regiões de Bohemia são capazes de nos impressionar com a sua beleza natural.

As mecânicas tentam-se complementar e dar uma maior variedade à jogabilidade e à progressão da personagem, mas é muito fácil ficar sobrecarregado com o excesso de informação. A evolução é por níveis, mas cada um dos atributos só poderá ser evoluído através das suas ações, o que significa que para terem uma maior vitalidade terão de correr e saltar, e para desenvolverem uma maior mestria com a espada, terão de se envolver constantemente em combates. Os atributos não evoluem em conjunto e será necessário colocá-los em prática para desenvolverem a personagem ao vosso gosto.

O problema é que Kingdom Come: Deliverance quer fazer tanta coisa e ser tão completo que a maioria das mecânicas se perdem. É estranho criticar um jogo por nos dar tanta liberdade, mas acho que a comunicação entre o jogo e o utilizador não é a melhor, o que vos poderá deixar confusos. É fácil relegar estes elementos, cada um bastante profundo se os quiserem explorar, à sua utilização mais básica e ainda assim conseguir chegar ao fim sem problemas. É verdade que podemos desbloquear novas habilidades, mas quando o interface é tão confuso como aqui, é mais imediato deixar tudo de parte e fazer o que é mais natural – se falar evolui o diálogo, então fazemos isso e acabou-se.

A Warhorse deu-nos tantas mecânicas que a maioria não irá ver tudo e muito menos ter interesse em conhecer todos os elementos do jogo. Tendo em conta que ainda estamos perante um RPG em mundo aberto, é fácil de cair nos clichés do género e assumir uma posição ou mais violenta ou pacífica, e não procurar outras alternativas. Isto significa que a profundidade do jogo é relativizada pelo próprio jogo ao dar aos jogadores certas escapatórias que provêm das frustrações de maus tutoriais (vejam o lockpick) e interfaces pouco intuitivos.

Battlegrounds_DeepingDrome_1515000659-1
O mapa mantém o estilo medieval e é bastante fácil de utilizar. Todos os pontos de interesse e missões estão sempre devidamente identificadas, tais como recursos preciosos para a vossa sobrevivência e para a alquimia.

As missões secundárias tentam dar uma maior profundidade ao jogo e inserir alguma variedade através de uma abertura nas abordagens, sendo possível terminá-las de várias formas e onde a sua resolução dependerá do próprio estilo do jogador. Por exemplo, a primeira missão do jogo leva-nos a tentar convencer um cliente do nosso pai, que é ferreiro, a pagar o que deve. Para conseguirmos o dinheiro, podemos convencê-lo através do diálogo, roubá-lo, pedir ajuda aos nossos amigos, que convencem o homem através dos seus punhos. Apesar de existirem alguns pontos de interesse e outros auxiliares para as missões, a Warhorse tentou manter alguma liberdade na jogabilidade ao obrigar-nos a investigar os espaços à procura de pistas para o próximo objetivo, mas irão perceber rapidamente que existe sempre uma abordagem que elimina todo esse processo.

Dentro do mundo do jogo e das suas regras bem estabelecidas, existe muito para explorar e sentimos rapidamente que tudo está à nossa mercê. Existe aqui uma liberdade louvável, ainda que acabe por ser condicionada pela dificuldade acentuada do jogo. É verdade que podemos ir para onde e quando quisermos, mas não nos podemos esquecer que existe todo um ecossistema preponderante para bandidos e grupos de mercenários. Podemos explorar livremente uma floresta à procura de recursos e acabarmos numa emboscada que não terá outra resolução senão a nossa morte.

O sistema de combate, que nos dá uma mistura entre o que vimos em Absolver e For Honor, tenta criar confrontos mais emocionantes, pesados e crus, com a direção de cada golpe a estar sob o nosso controlo (ainda que existam algumas combinações para aprender). Isto significa que os combates são maioritariamente 1v1 e com uma duração que poderá flutuar entre segundos e uns minutos excruciantes, onde a barra de estamina servirá não para nos ajudar, mas sim frustrar do princípio ao fim. Não é um sistema complexo, mas sim competente, ainda que não exista muito para aprender e dominar.

kingdom-come-deliverance-pc-cd-key-2
Existem algumas combinações que poderão dominar e utilizar em combate, mas não esperem um grande foco nas lutas ao longo da vossa campanha.

Apesar de termos uma narrativa envolvente e um enorme foco nos pormenores, e aqui basta olhar para cada localidade, Kingdom Come: Deliverance nunca parece estar devidamente completo. Durante várias horas, não consegui afastar a sensação de que estava a jogar mais um conceito do que um jogo, algo que me deixou desgostoso. É verdade que temos mecânicas que justificam cada abordagem que decidam assumir ao logo do jogo, seja ela mais focada no combate ou nos diálogos, mas quanto mais nos aproximamos da jogabilidade e da história em si, mais vemos os seus problemas.

As missões secundárias são, na sua maioria, desinteressantes. Se não for pela evolução da personagem e por alguns espojos de guerra, não encontramos nada de muito substancial. Existem obviamente algumas missões que merecem o nosso tempo, mas senti que o foco está na história de Henry e na sua procura por vingança. Parece que grande parte destas missões secundárias só foram inseridas para expandir artificialmente a longevidade do jogo ou por serem elementos imprescindíveis do género. Mas aqui, esperava encontrar muito mais.

Depois temos a inconsistência gráfica, onde o mundo de Kingdom Come: Deliverance flutua entre o verdadeiramente belo e o horrível. Os bugs são uma constante para um título desta natureza, algo que já deve ser esperado, mas nada justifica o número de pop ups, quebras de framerate e personagens presas nos cenários que encontrei. Existem missões que continuam quebradas e impossíveis de acabar, a maioria dos locais apresentam texturas ainda por carregar e é fácil perder itens porque simplesmente desapareceram.

kingdom_come_deliverance_Neuhof01_logo_VG247.jpg
Não nos podemos esquecer que Deliverance se junta à extensa lista de jogos com cavalos impossíveis de controlar.

Apesar dos pontos positivos que apresentei e de respeitar a ambição da Warhorse, continuo sem saber se gosto genuinamente de Kingdom Come: Deliverance. Sinto que o jogo está constantemente a dar dois passos em frente e outro atrás, deixando-me com uma experiência pouco consistente. Temos aqui um dos mundos mais detalhados e trabalhados que já encontrei no género, e louvo a sua aposta numa época pouco explorada pela indústria dos videojogos. Existem momentos em que estou simplesmente a caminhar pelo mundo e a absorver tudo o que rodeia, desde as florestas mais densas até à maioria das cidades, e é assim que me sinto mais confortável com Kingdom Come: Deliverance. Mas quando decido começar uma das missões secundárias e entrar em combate, tudo se desmorona. Existe algo que nos deixa insatisfeitos à medida que jogamos, um sentimento que não conseguimos compreender plenamente, mas que nos atormenta. É este desconforto que me faz continuar na dúvida.

Devo ainda sublinhar dois problemas que funcionam também como aviso. O sistema de lockpicking é dos mais confusos e desnecessariamente complexos que já encontrei num videojogo, e não existem tutoriais suficientes que vos ajudem a dominar esta mecânica. A Warhorse já confirmou que irá retrabalhar o lockpicking num futuro patch, mas até lá, não estranhem se evitarem a vida de ladrão. Depois temos um sistema de gravação tão retrógrado e inexplicável que condiciona toda a experiência. Kingdom Come: Deliverance grava automaticamente o nosso jogo, mas apenas em momentos chave – isto é, quando começam ou acabam uma missão e quando dormem. Até lá, podem passar duas horas a jogar e perder tudo ao morrerem numa emboscada. Existe ainda a possibilidade de gravarem manualmente, mas para o fazer terão de comprar (ou produzir) elixires alcoólicos. Isto significa não só que as gravações manuais são limitadas como terão a personagem alcoolizada sempre que decidam salvar o jogo.

Kingdom Come: Deliverance merecia mais uns meses de trabalho e um maior equilíbrio entre a beleza natural do seu mundo, com as suas regras tão bem delineadas, e a jogabilidade pouco envolvente que encontramos. É um jogo dividido entre a narrativa e a expansividade das suas mecânicas, onde sentimos que existe uma luta constante por domínio. No final do dia, é um bom jogo enterrado por baixo de problemas técnicos e más escolhas de design, mas onde a experiência continua a ser única. Apesar de sentir alguma desilusão, não consigo deixar de ficar surpreendido pela ambição da Warhorse e acredito que, com mais alguns patches, que a equipa já anunciou, poderá até ser um jogo de culto. Mas por agora, aproximem-se com cuidado, especialmente se estão à espera de uma experiência próxima dos títulos da Bethesda.

Nota 7
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela Ecoplay.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.