Por Amor aos Jogos, Joguem Pillars of Eternity!

Quando tinha 9 anos, os meus pais ofereceram-me o meu primeiro computador. Lembro-me de ter pedido um “pentium qualquer coisa”, algo entre o 2 e o 3, se não estou enganado, mas aquilo que recebi foi um Commodore 386, um bicho enorme e barulhento que só funcionava após três pancadas secas e certeiras na sua lateral. O Windows 1.1 mal funcionava e nos jogos estava condicionado a Elifoot, Arkanoid e nos melhores dias, a uma versão manhosa de DOOM.

Não será, portanto, de estranhar quando digo que nunca tive grandes ligações aos videojogos no computadores, exclusivos ou não. Não só a minha experiência foi péssima como nunca me habituei ao teclado e rato. As mihas mãos foram feitas para os comandos e a minha paciência é ideal para a simplicidade das consolas.

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O commodor – momentos antes de lhe dar as 3 pancadas para funcionar.

Poucos anos depois, já o Commodore estava no raio que o parta, tornei-me num enorme fã de RPG orientais. Final Fantasy IX, Tales of Eternia, Star Ocean: 2nd Story, Vagrant Story, Parasite Eve e até Koudelka e outros menos conhecidos – se saíram na PlayStation, muito provavelmente tive ou joguei. Deixei-me encantar pelas mecânicas, pelos mundos extensos e narrativas complexas que compunham a maioria do género. E ao longe, ouvia sempre falar de outros jogos, exclusivos para PC, que me prometiam o mesmo e muito mais. A curiosidade foi aumentando.

Não pude fazer muito para alterar o meu percurso, e a culpa foi minha. Quando recebi o meu Pentium IV 2.8, já estava mais do que embrenhado no mundo das consolas e existiam anos de mecânicas e avanços gráficos que me limitavam o prazer e gozo em jogar títulos como Baldur’s Gate e até mesmo Diablo. Lia nos fóruns que devia jogar Planescape: Torment, especialmente se adorava e valorizava uma boa história, mas quando o instalei pela primeira, não consegui perceber metade do que via, muito menos jogá-lo durante horas. Frustrado, desisti e regressei à PS2.

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As más decisões na minha vida, levaram-me a jogar a versão PS2  e manhosa de Grandia II e não Baldur’s Gate ou Morrowind.

A culpa sempre foi minha. Não tive qualquer paciência para conhecer melhor um género que se escondia por detrás de mecânicas mais complexas e pouco acessíveis à primeira vista. As produções japonesas tinham uma simplicidade reconfortante, e em apenas poucos minutos, conseguia compreender onde estava, o que estava a fazer e para onde ia. Era tudo tão direto, tão simples e fácil. A minha paciência limitou-me ao ponto de ter rejeitado um PC apenas para ter a PS2 e Metal Gear Solid 2.

Com a chegada da PS3 e de Fallout 3 às consolas, o meu amor pelos RPG orientais sofreu uma mudança repentina e inesperada. Talvez tivesse crescido e ultrapassado as histórias de adolescentes que estavam a manchar o género, ou então senti finalmente que queria algo diferente, mais desafiante e envolvente. Ainda demorei mais alguns anos até dar o passo, mas agora, já na PS4, vejo-me a jogar e a adorar Pillars of Eternity: Complete Edition.

Ainda não joguei 10 horas e já sei que adoro o título da Obsidian, também responsáveis por Fallout: New Vegas, um dos meus RPG favoritos da geração passada. Se estivesse a fazer uma crítica tradicional, isto seria inadmissível, e é por isso que escolho este formato mais livre para vos dizer o quanto precisam de jogar Pillars of Eternity. Talvez seja a minha inexperiência sobre um género que sempre me foi distante ou a minha corrente sede por algo mais sofisticado, mas há muito tempo que não sentia tão embrenhado num mundo e na sua história como aqui.

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Precisamos de mais cenários destes no género. A sério!

Este foi o ano das secas, nunca vi nada assim. Tem sido um bom, mas no que toca aos jogos que analisei, nem me digam nada. Horizon: Zero Dawn pode ser um poderio gráfico, mas que horror de história e de missões secundárias. Seguiram-se jogos de sobrevivência a torto e a direito, desilusões e até algumas surpresas, mas nenhum me surpreendeu mais do que este RPG clássico, que chegou quase sorrateiramente às consolas. Em menos de 10 horas, estou embrenhado no mundo, nas personagens e na história. E agora quero mais.

A passagem para as consolas trouxe os problemas do costume, com os menus a ficarem condicionados pela utilização do comando. Apesar de existirem menus rápidos e uma tentativa em simplificar a sua navegação, Pillars of Eternity nunca deixa de ser um pouco irritante quando precisamos de alterar o equipamento das nossas personagens ou a gerir o seu inventário. Nunca me habituei ao teclado e ao rato, mas até eu tenho de admitir o quanto são essenciais para estes jogos.

Fora os menus e alguns problemas na interação entre as nossas personagens e o mundo do jogo – às vezes a deslocação é incómoda, mas nada de muito negativo -, Pillars of Eternity assume-se como uma verdadeira maravilha. Os combates dão-nos uma mistura saudável entre o velho e o novo, com a ação a passar-se em tempo real, mas com a salvaguarda de podermos parar o tempo para alterar o posicionamento das personagens e delegar-lhe novas ações. Tudo acontece no campo de batalha e cada combate surge com uma dificuldade pouco vista no género (pelo menos, para mim). Se não estivermos com atenção e deixarmos a ação avançar sem darmos qualquer input, veremos rapidamente a nossa equipa destruída.

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Passem horas a recriar as personagens de Berserk para depois perderem logo na primeira batalha.

Como cresci com RPG orientais, o conceito de liberdade – verdadeira liberdade e não aquilo que a Ubisoft nos vende todos os anos – sempre me foi estranho. Os mundos eram falsamente extensos e complexos, e as nossas decisões nunca iam para lá da ordem em que escolhíamos realizar certas missões secundárias. Mas em Pillars of Eternity – e eu sei que posso estar a dizer uma coisa tão óbvia que doí -, senti-me finalmente livre. Claro que existe um fio narrativo que teremos de seguir para chegar ao fim, mas até lá, temos o mundo à nossa disposição.

Esta liberdade também vai para além daquilo que Skyrim nos vendeu. Não é uma questão de explorar um mundo aberto com várias atividades que só encontraremos se nos desviarmos o mais possível da campanha principal. Aqui, a liberdade está presente em todas as nossas ações, sejam elas pequenas ou grandes. Podemos aceitar uma missão e concluí-la de várias maneiras, todas elas com um sistema de consequências complexo que ditará o nosso progresso no futuro. É possível resolver cada conflito através de diálogo, encontrar fraquezas nos inimigos, investigar a fundo uma conversa supostamente solta e inocente entre duas personagens, e deixar as diplomacias para os mais fracos e atacar com tudo o que temos. Senti que o tempo está nas minhas mãos e que o jogo me pede para ir com calma, para analisar todas as possibilidades existentes e para observar atentamente o mundo que me rodeia. E essa sensação é deliciosa.

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Existe ainda a possibilidade de gerirem a vossa própria fortaleza e criarem zonas de negócio onde poderão acrescentar novas personagens e comércio.

As consequências e represálias colam toda a experiência com uma tensão palpável desde o primeiro segundo de jogo. Sabemos que podemos mudar todo o nosso percurso se fizermos uma má decisão, mas sentimos igualmente que o jogos nos dá sempre a possibilidade de continuarmos e de acarretarmos com o peso dessas mesmas decisões. O fim está sempre próximo, mas a cada final prematuro está um escape e uma resolução inteligente que só encontraremos se conhecermos bem o jogo, o mundo e até a nossa capacidade enquanto jogador.

Pillars of Eternity pode não ser um RPG perfeito, mas caiu que nem uma benção na minha consola. Estive anos há espera de me embrenhar desta maneira num jogo como este e apesar de ainda estar longe de ser um jogador de computador, sinto-me como se estivesse a descobrir uma segunda casa. Conseguirei voltar atrás e regressar a Planescape: Torment ou abraçarei apenas a sua sequela, também disponível para consolas? Só o tempo o dirá!

O código (PS4) foi cedido pela Paradox Interactive.

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