All we need is <3

É quinta-feira, começou a chuva, e tive 40 minutos no trânsito para fazer um percurso que faço em menos de 5. Talvez por isso me tenha dado para isto. A primeira coisa que vi quando cheguei ao trabalho foi um vídeo de Tim Minchin, comediante australiano, a dar um discurso de final de curso. Sim, a primeira coisa que faço quando chego ao trabalho é abrir o Facebook. Estes discursos estão repletos de clichés, bem sei, mas Minchin dá um toque cómico a nove pontos para ter em conta para a vida. O que é que isto tem a ver com jogos? Em dois desses pontos, dei por mim a pensar “isto é o que está errado na cultura dos videojogos”. Passo a explicar em jeito de filosofia New Age.

tim
Este é um rosto que diz “eu tenho sabedoria que quero partilhar convosco”. Ou isso ou “vou continuar a usar eyeliner até virar moda masculina no mundo inteiro”. Não estamos certos.

SEJAM PROFESSORES (Be a teacher)
Durante anos a cultura gamer foi um ecossistema fechado, não por vontade própria mas porque o resto do mundo nos catalogava de nerds e geeks e crianças. Ainda somos nerds e crianças aos olhos dos “não-gamers”, mas geek agora é sexy (obrigado, The Big Bang Theory…?) e por isso já ninguém nos chama isso. Não sei se por este historial, a verdade é que a cultura gamer permanece fechada e exclusiva, com ares de elitismo que se tornam plenos em motes como “git gud” ou “scrub“.

Um bom exemplo desta cultura tóxica é a comunidade de jogos de luta (FGC). Se por um lado os menos hábeis gritam “OP” e “broken” no instante em que não sabem contrariar uma personagem ou classe específica, os prós assumem o mote “Nerd Buff Patch Adapt” como se fosse dogma religioso. O diálogo é raro na comunidade, que se regozija com episódios como o de Justin Wong (campeão de tudo e mais alguma coisa) a destruir uma criança com spam em Mortal Kombat X. Tem piada? Tem, e talvez isso diga muito de como a Internet nos moldou como pessoas.

Numa comunidade é suposto existir um sentido de entreajuda, e apesar de a encontrarmos em microssistemas (fóruns) de jogos específicos, o mais comum é termos de procurar contribuições positivas no meio de montanhas de participações tóxicas. A linguagem, os conceitos, a postura, tudo isto são barreiras. Pedir ajuda é quase tabu, e o “git gud” inevitável só faz com que quem precisa de ajuda não a peça, porque não saber o que é “DHC“, “oki” ou “plink“, aparentemente é crime. O que nos vale é o Google, ou então víamo-nos forçados a inventar “onomatopeias” nossas para fingirmos que percebíamos alguma coisa do assunto.

DEFINAM-SE PELO QUE GOSTAM (Define yourself by what you love)
Na era da ironia, dos ódios de estimação e do fatela (será que já é fatela dizer “fatela”?), a cultura gamer dá corpo a esta faceta dos millennials, definindo-se pelo que desgosta e aquilo a que se opõe, ao invés daquilo que gosta. A guerra de consolas é um bom exemplo. A “minha” consola não é boa, é melhor do que a “outra”, e em grande parte não porque tem um catálogo de exclusivos melhor, mas porque o outro catálogo é pior. É um detalhe, concordo, mas é a diferença entre a postura positiva e a negativa.

oqnym
Eh… sim.

A bem dizer, os tops costumam ser positivos, são sempre “The Best of All Time” de qualquer coisa. No entanto, um pouco como na cultura popular, existe a tendência de se discutir o que é sobrevalorizado, em vez do que possivelmente é subvalorizado. Definimo-nos por oposição àquilo que somos, escolhendo desvalorizar aquilo de que não gostamos em vez de nos envolvermos em debates sobre o que vemos de especial em títulos ou géneros que se calhar não recebem o devido valor. Mesmo o PC, na sua ideia de “Master Race” constrói-se por oposição às consolas. É como aquelas imagens foleiras com tiradas em português do Brasil, só que em vez de “Ame-se a si mesmo”, lê-se “Odeie todos os outros”.

ghandi
Nuff said.

Aqui no Glitch também temos os nossos ódios de estimação *cofUbisoftcofKonamicof*, mas, ainda assim, escolhemos definirmo-nos pelo que gostamos: a Vanessa adora as séries GTA e Fallout; eu venero o trabalho de Fumito Ueda e perco a cabeça com Total War; o David, coitado, é fã da Xbox, não consegue viver sem simuladores de corridas, e sofre hypendicite aguda com tudo o que tenha um traço de ficção científica; e o Canelo… bom, o Canelo só gosta de jogos da treta, mas no espírito New Age deste artigo, vejo-me forçado a validar a sua fixação em JRPG e fantasias melodramáticas adolescentes.

Vêem como não é assim tão difícil fazer o exercício? Se eu consigo, vocês também.

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