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SYNDROME | Glitch Review

Apesar de sentir uma enorme vontade em apoiar a Camel 101 e a Big Moon Entertainment, vejo-me na obrigação de vos fazer um aviso que muito provavelmente já previam: SYNDROME não é um bom jogo e não merece o vosso tempo.

Antes de ser criticado e rotulado como “anti-português”, devo sublinhar e evidenciar o meu entusiasmo por SYNDROME. As imagens e informações não delineavam um jogo muito original ou interessante, é certo, mas a ideia de jogar um título produzido em Portugal na PlayStation 4 e que se inseria no género de terror, era como um pequeno sonho para mim. Se a minha visão estava condicionada antes de começar a jogar, não era pela negativa, mas sim pela positiva.
Um ano depois do seu lançamento medíocre no PC, encontro um SYNDROME ainda mais desapontante, desagradável e absolutamente intragável no que toca à sua performance e qualidade gráfica. É um jogo que parece ter sofrido horrores para chegar à consola da Sony e para justificar a sua versão VR, que infelizmente não pude testar. SYNDROME precisava de mais uns meses, senão mesmo um ano, de produção extra para evitar a versão repleta de bugs que nos chegou este mês.

Como os gráficos e performance não ditam – maioritariamente – a qualidade de um jogo, vamos começar pelo design e jogabilidade de SYNDROME, que se assume como um jogo de terror e sobrevivência. Como um todo, o título da Camel 101 parece querer ser o intermédio entre a tensão e horror de Amnesia: The Dark Descent e a ação e claustrofóbica de DOOM 3. A narrativa foca-se (sem quaisquer surpresas) numa personagem que acaba de acordar do sono criogénico para descobrir que a nave onde viajava está completamente abandonada e que os seus colegas foram ou mortos ou transformados por um artefacto alienígena. As influências de Dead Space e Event Horizon são mais do que claras numa história pouco ou nada original.
Com a ação a decorrer na primeira pessoa, podem muito bem prever todos os elementos que compõem a jogabilidade sem precisarem de jogar. SYNDROME bem tenta ser um jogo de sobrevivência, mas não consegue. Não só não é assustador como acaba por ser mais injusto do que equilibrado quando a hitbox dos inimigos é inconsistente, tornando-se impossível de atacar sem sofrer dano. É óbvio que temos de vasculhar a nave em busca de mantimentos e itens de cura, e que cada conforto é opcional – sendo a fuga uma opção viável em todos os encontros (ainda mais quando a inteligência artificial é péssima) – mas quando o dano que sofremos se deve à má optimização do combate, é fácil dizer que o jogo é “desafiante”. Assim, também eu.

syndrome_ps4_1.png
Os confrontos contra as monstruosidades são desinteressantes e perdem a sua tensão quando a inteligência artificial é facilmente manipulada e enganada.

SYNDROME nunca recupera das suas péssimas primeiras horas. Assim que começamos, sentimos um enorme déjà-vú que nunca nos abandona. Sabemos que já fizemos isto e aquilo, que as coisas se repetem sem razão ou interesse, e que a campanha é tão linear que se torna desconcertante. A maioria dos nossos objetivos resume-se à procura de um item X para usar num local Y. Pelo caminho encontramos monstros e outros perigos que se escondem nos cenários devido à má direcção de arte. Mas maioritariamente, encontramos mais bugs do que monstros.
Para piorar a sua campanha, SYNDROME é um jogo que abraça os clichés do género sem nunca se esforçar em reinventar a sua jogabilidade e encontrar a sua própria alma e conceitos. É um jogo que apenas copia os melhores títulos do género e que se satisfaz ao colar os elementos que rouba na sua própria jogabilidade. Sejam os diários escondidos de Bioshock, que contam a história dos tripulantes e dos acontecimentos que antecedem a campanha, à sobrevivência e manuseamento de inventário do já mencionado Amnesia: The Dark Descent, juntamente com os seus confrontos contra os monstros que nos perseguem, o design de Alien Isolation ou a ação de System Shock. Até a variedade de itens e armas que encontramos – nada nos surpreende. Nada é original, nada é novo e tudo está mal implementado numa jogabilidade insípida, inacabada e aborrecida. Assim é a sina de SYNDROME. que mais parece ser um filme da Asylum do que um verdadeiro jogo.

A conversão para PS4 retirou também parte da tensão da versão PC, com a iluminação a ser uma das falhas mais graves. A nível técnico, SYNDROME sempre foi um jogo pouco apelativo, com texturas datadas e que parecem ter saído de há duas gerações atrás, modelos pouco trabalhados (começando pelo seu design), uma performance duvidosa – já mencionei que o jogo está repleto de bugs, alguns deles capazes de destruir o nosso progresso? – e uma direção de arte tão pobre que evidencia todos estes problemas, mas é na iluminação que surge o maior problema deste jogo português. Sem o contraste forte entre a luz e as zonas menos iluminadas, sem o cuidado visual capaz de transparecer que estamos presos numa nave abandonada, a tensão e o terror caem por terra. Sem a iluminação, que estava presente na versão PC, SYNDROME deixa de ser um jogo de terror para ser um simulador de casa assombrada, mas daquelas que encontramos nas feiras do interior do país.
Esta falha chega a ser tão grave que estraga por completo o nosso primeiro encontro com um dos tripulantes transformados, com a falta de sombras a revelar a presença do monstro muito antes do tempo – para não falar que vemos também o seu aparecimento em estilo pop-up. Para um jogo de terror, esta falta de cuidado é inadmissível. A pouca tensão que poderia existir é perdida nesta conversão PS4, talvez para dar lugar a uma versão VR que procura colmatar algumas destas falhas. Mas é pouco. SYNDROME é feio, é mau e não é assustador.

syndrome_ps4_2
Infelizmente, são raros os momentos onde a iluminação é capaz de criar um ambiente verdadeiramente assustador.

A produção nacional está cada vez mais forte e a assumir uma maior posição de risco perante um mercado bastante competitivo. No mês passado, tivemos Greedy Guns, um jogo produzido pela Tio Atum, que consegue captar a essência do seu género ao mesmo tempo que desenvolve a sua própria identidade. Infelizmente, SYNDROME não enaltece a nossa produção de qualquer forma, a não ser pela sua presença na consola da Sony e pela sua versão para VR, algo que a maioria dos estúdios ainda não está a desenvolver. Mas como jogo, como um produto artístico, é um vazio indesculpável. Queria ter gostado de SYNDROME e tive esperanças de encontrar um jogo simples, mas competente, mas no que toca à versão PS4, é de evitar. Se quiserem, no entanto, apoiar a produção portuguesa, estejam à vontade, só não fiquem à espera de descobrir um diamante em bruto. Aqui só encontram pedras da calçada.

 

Nota 3
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise foi cedido pela Ecoplay.

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

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