O Jak & Daxter dos 300

Existem poucos jogos que consigo acabar várias vezes seguidas, aliás, contam-se pelos dedos da mão. ICO, Silent Hill 2, Rocket Knight Adventure e Sonic the Hedgehog 2 são alguns desses jogos. Podem dizer que sou impaciente ou que necessito de um constante fluxo de novos estímulos para me manter operacional, mas a verdade é que raramente sinto a mesma magia quando repito uma campanha. Faltou identificar o último jogo: Jak & Daxter.

Não consigo numerar as vezes que acabei The Percursor Legacy, mas foram muitas. Joguei na PS2, onde devo ter completado o jogo a 100% umas três vezes. Depois seguiu-se a versão remasterizada, que ocupou mais o meu tempo do que as sequelas – tecnicamente – superiores. É uma maldição, mas aqui estou, agora na PS4 e novamente a terminá-lo a 100%.

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A procura pelas 100 power cells nunca deixou de ser aliciante, ainda que comece a sentir a idade do jogo.

Jak & Daxter não é um jogo muito original. Olhando para trás, funciona como Super Mario 64 e Banjo Kazooie, colocando-nos num mundo extenso onde temos vários objetivos para completar e objetos para colecionar. Insere-se perfeitamente no sub-género que muito intitulam de collectathon, onde a maioria da jogabilidade é focada na descoberta de vários objetos espalhados pelos níveis.

A Naughty Dog pegou nesta fórmula popular e deu-lhe um charme irresistível. Desde as personagens até aos cenários coloridos, Jak & Daxter transborda personalidade e complementa um género que parecia estar preparado para desaparecer com a chegada das consolas de 128 bits. Não foi uma evolução, mas sim uma adaptação com algumas vantagens de uma geração que estava ainda a começar.

Não foi por acaso que Jak II: Renegade abandonou por completo este formato. A passagem estava feita e para a Naughty Dog, pouco ficou por fazer no género de plataformas. As mecânicas mantiveram-se, mas o charme e personalidade da série mudaram por completo. A evolução foi clara e a maioria dos jogadores prefere o tom soturno e a complexidade das duas sequelas, mas para mim, nada bate a aventura inocente e descontraída do título original.

Penso que foi o mundo aberto que me apanhou desprevenido. Não estava habituado a níveis tão extensos e interligados sem quaisquer ecrãs de loadings. Era todo um novo mundo ainda por explorar e durante anos, senti que queria mais. Como cresci com a PlayStation e não com a Nintendo 64, mal sabia que existiam outros jogos dentro do género, ainda que sem a expansividade natural de Jak & Daxter.

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Os cenários coloridos e animados, juntamente com a música, transmitem-me uma calma que raramente vemos nos jogos.

O clássico da Naughty Dog mune-se de clichés do género, mas sem nunca perder a sua classe e personalidade. Cada nível está dividido por missões secundárias, os cenários nunca saem dos tradicionais “pântanos, vulcão, mundo industrial, florestas e cavernas”, e os bosses são derrotados com apenas três ataques. À primeira vista, não há nada de novo para ver, mas quando jogamos, sentimos todos os seus elementos a conjugarem-se, seja na jogabilidade ou na direção artística. É um jogo extremamente focado e que parece ter eliminado outras mecânicas para manter a experiência o mais focada possível.

Depois de jogar na PS2 e na PS3, chegou a hora de regressar a Jak & Daxter. Ao contrário da versão anterior, a dupla da Naughty Dog chega à PS4 não numa versão remasterizada, mas sim numa conversão quase imutável da versão lançada em 2001. Para além de algumas melhorias gráficas, impostas pela passagem para a nova consola, este é o mesmo Jak & Daxter que joguei há tantos anos atrás. Só que não é.

Apesar de ter ficado imune aos erros das restantes conversões para PS4, que parecem assolar alguns dos clássicos PS2, tive a minha primeira experiência negativa com esta aposta da Sony. Ao contrário do que me lembrava, os controlos de Jak & Daxter parecem ter um delay irritante que dificulta a navegação através dos níveis mais complexos e exigentes. Encontrei também inúmeros bugs visuais e senti um certo decréscimo na qualidade gráfica, ao contrário daquilo que a Sony antevia. No geral, estamos perante uma conversão pobre para um jogo excelente.

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Apesar de registarem uma subida acentuada (e inesperada) na dificuldade, até as sequências de condução conseguem ser divertidas.

Compreendo a passagem de Jak & Daxter para a PS4, é uma série demasiado icónica para saltar uma geração onde a Sony, tal como na PS2, é novamente rainha e senhora da indústria. O futuro da série está para sempre no limbo, com reboots e remakes a ficarem pelo caminho, ainda sem ideias fixas do que poderá vir um dia a ser. Por agora, estas novas conversões são o presente, o único que temos, e infelizmente pintam um cenário inesperadamente negro.

The Percursor Legacy pode não ser a bomba que era há mais de 10 anos atrás. A sua fórmula pode parecer datada e os controlos sofrerem agora de uma velhice prematura, mas a sua base continua a ser tão sólida como sempre. É um jogo que não tem medo de nos levar numa aventura, com ou sem clichés, e dar-nos uma experiência bem estruturada e com um ritmo quase perfeito. A versão PS4 tem tudo isto, é certo, mas acrescenta bugs e falhas imperdoáveis.

Se, como eu, ainda continuam a gostar da série, façam um favor a vocês mesmo e fiquem pelas remasterizações na PS3. Este Jak & Daxter cheira a plástico barato.

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Salta Jak! Salta e regressa só quando curares a bebedeira!

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