The Long Dark | Glitch Review

O género de sobrevivência corre o risco de se tornar banal e em mais uma moda se não sofrer uma transformação suficientemente consistentes. É isto que tenho sentido ao longo dos primeiros meses do ano e após analisar jogos que tentam capturar alguma da magia do género e dar-lhe alguma variedade. Mas falharam, pelo menos na minha perspetiva.

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The Long Dark já se encontrava disponível no formato Early Access desde 2014, mas surge agora numa versão final capaz de alterar a minha visão sobre o género. Na verdade, não eram necessárias grandes reinvenções ou mecânicas inesperadas, mas sim condensar o que significa “sobreviver”. Não existem floreados, atalhos ou histórias felizes em The Long Dark. E ainda bem.

O título da Hinterland Games encontra-se dividido em dois modos quase distintos. O primeiro, a grande novidade deste relançamento, que marca também a estreia nas consolas, leva-nos numa aventura episódica e mais estruturada que procura dar uma narrativa ao mundo de The Long Dark. Por agora, apenas temos dois episódios para explorar, mas é fácil perceber que são a melhor introdução ao universo do jogo, seja pelas mecânicas e pela descoberta do mundo que nos espera.

Wintermute é o título dado ao modo de história e foca-se na história da Dra. Astrid Greenwood e do piloto Will Mackenzie, ambos perdidos nas terras gélidas e selvagens do Canada após um desastre de avião. A narrativa leva-nos a conhecer alguns dos locais mais mortíferos do jogo em busca de respostas, mantimentos e novos equipamentos, que poderemos modificar e reaproveitar, se assim o quisermos.

A história é competente e transmite alguma da solidão e tristeza inerentes à jogabilidade The Long Dark. Apesar de encontrarmos outras personagens, a maioria da campanha coloca-nos sozinhos e em constante perigo, sempre à procura de abrigo e de uma fonte de calor que nos ajude. Este sentimento de solidão é muitas vezes quebrado por diálogos pouco consistentes e por uma narrativa demasiado dramática, onde a exposição é o veículo para a maioria das interações com as restantes personagens.

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O mundo de The Long Dark está dividido por zonas com as suas próprias localidades, tipos de recursos e itens, e animais para caçar.

Existe muito a melhorar na sua história, mas Wintermute consegue capturar a alma do jogo e transmiti-la de uma forma mais estruturada aos jogadores menos experientes. É totalmente aconselhável a terminarem primeiro os dois episódios antes de se aventurarem sozinhos pelas terras selvagens. E como tutorial, a história é competente e com alguns momentos envolventes e de puro mistério, mas esperava-se mais de um jogo que está agora a ser adaptado para o cinema.

O segundo e mais importante modo, na minha honesta opinião, é o Survival. Disponível desde o seu lançamento em Early Access, Survival também nos transporta para as terras frias e perigosas do Canada, mas desta vez, sem ajudas ou um fio narrativo para seguirmos. Depois de escolhermos uma das zonas disponíveis para começarmos a aventura, que são caraterizadas pela sua dificuldade (um toque importante para ajudar aqueles que jogam pela primeira vez), somos deixados à nossa sorte e destreza. A partir daqui, a nossa sobrevivência depende unicamente de nós.

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Os abrigos escondem não só recursos preciosos para a nossa sobrevivência como  abrigos essenciais.

The Long Dark é difícil. Muito difícil. Não penso que seja injusto, mas devemos ter consciência que os recursos disponíveis e algumas das zonas são aleatórias. Cada campanha é diferente da anterior e será necessário compreender e dominar as várias mecânicas do jogo para nos mantermos vivos. O sentimento de urgência e de terror rivalizam com qualquer título de horror, e é absolutamente aterrador quando nos vemos sem luz, perdidos na noite e observados por animais que nos querem matar.

A Hinterland Games não tentou alterar as mecânicas que servem de base para a maioria dos títulos deste género, mas nota-se que limou certos elementos e os moldou para se encaixarem na natureza de The Long Dark. A progressão continua a ser a mesma: explorem as zonas, encontrem recursos, construam equipamentos melhores, cacem e mantenham a personagem alimentada, hidratada e saudável. Estes são os alicerces de The Long Dark, tanto no modo de história e de sobrevivência, algo que podemos encontrar em tantos outros jogos do género. O que muda, e torna o jogo obrigatório, é a forma como se conjugam.

As terras selvagens e abandonadas do Canada não servem apenas de pano de fundo para a ação. Não se tratam de localizações que são apenas utilizadas pela sua beleza natural ou por estarem afastadas de cidades ou povoações mais pequenas. Em The Long Dark, estas terras são tanto uma personagem como nós, e um inimigo tão perigoso como os lobos e ursos que nos tentam caçar. Os seus rios frios cortam-nos o caminho e atravessá-los pode levar-nos a um estado de hipotermia. A sua isolação significa que os recursos são escassos e a fauna é mais ativa e mortífera. O frio é capaz de nos matar em poucos segundos e os abrigos naturais são difíceis de encontrar durante as noites escuras ou dias de nevões fortes.

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O frio não é o único perigo que irão encontrar e podem contar com vários animais selvagens, como ursos e lobos, durante a vossa aventura.

É este o mundo de The Long Dark – frio, calculista, natural e sem morais. Não existem personagens que nos moldam o pensamento ou que nos ajudam na nossa demanda. Somos só nós contra os elementos. O frio é, sem dúvidas, uma das maiores novidades do jogo e um dos seus maiores perigos, pois obriga-nos a procurar abrigos e fontes de calor. O medo de contrairmos hipotermia ou uma doença infeciosa é real, e acompanha-nos sempre, relembrando-nos que qualquer passo ou ação menos ponderada pode significar o nosso fim.

A tensão é palpável e quase indescritível para quem ainda não jogou. Quando começamos a explorar, tudo parece ser tão acessível. Encontramos rapidamente recursos e galhos que nos permitem construir a nossa primeira fogueira, mas à medida que as horas passam e o frio se torna ainda mais forte, tudo muda. Os recursos não chegam, a água acaba e os alimentos consomem-se tão depressa que nem conseguimos acreditar. Precisamos de continuar em frente e encontrar algo que nos ajude, mas em muitos casos, isso torna-se impossível devido às decisões que tomámos nas primeiras horas. E quando morremos, perdemos todo o progresso.

 

É preciso planear todos os passos que damos e é absolutamente revigorante sentirmos todo este desafio à medida que avançamos. Se Dark Souls nos satisfaz através da catarse de vencermos um dos seus bosses mais exigentes, The Long Dark fá-lo através da nossa engenhosidade para ultrapassar todos os problemas que encontramos e manter-nos vivos perante todas as adversidades. É um jogo recompensador que nos desafia constantemente e que exige sem nunca se tornar injusto.

Mas The Long Dark não se resume apenas à sua dificuldade. É um jogo visualmente marcante e de uma beleza rara neste tipo de projetos. Os cenários brancos, desprovidos de vida, são tão belos quanto assustadores, enaltecidos pelas pequenas povoações ou réstias de vida humana que encontramos abandonadas ou destruídas. A aleatoriedade dos cenários e dos acontecimentos dão alguma vida às terras frias e deixam-nos sempre em alerta. Muitas vezes, é a beleza de um rio ou a altitude de uma montanha ou ainda a descoberta de uma nova localização que nos maravilham.

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Apesar da sua crueldade e dificuldade, The Long Dark é um jogo terrivelmente apelativo através da sua tristeza inerente.

Para além dos seus problemas narrativos, The Long Dark demonstra algumas falhas na jogabilidade. Os loadings são demasiado longos para um jogo deste género, especialmente quando queremos entrar e sair rapidamente de uma casa ou do interior de um carro. A recolha de recursos é sempre interrompida por um ecrã informativo que nos pergunta se queremos ou não guardar os itens que acabámos de apanhar. E tal como No Man’s Sky, teremos de pressionar os botões para realizar qualquer tarefa, o que significa que cada ação demora mais um ou dois segundos do que aquilo que deveria. Para um jogo que se foca tanto na urgência da sua jogabilidade, The Long Dark adora desperdiçar o nosso tempo.

The Long Dark é um passo certo para o género de sobrevivência. A sua jogabilidade é envolvente, muito desafiante e engenhosa, agarrando-nos desde o seu primeiro momento. O modo de história ainda precisa de algum trabalho, mas é uma aposta forte e um exercício interessante no que toca às mecânicas caraterísticas do género e à sua estrutura. Se estão à procura de um jogo que não vos segure a mão e que seja capaz de transmitir uma verdadeira sensação de sobrevivência, The Long Dark é o que estão à procura.

Nota 8
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela Hinterland Games.

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