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Future Unfolding | Glitch Review

Oiçam, eu não quero ser cínico ou parecer velho, mas começo a ficar cansado de projetos artísticos. A culpa deve ser minha, acredito nisso. O meu cérebro foi afetado por anos de cinema e de histórias pseudointelectuais, e devo ter ficado sem imunidade para ideias que ambicionam uma profundidade que nunca atingem. É uma constante frustração.

Future-Unfolding-Selo_Análise

E se calhar até estou a ser demasiado duro com Future Unfolding, agora disponível no PC e consolas, mas não consigo compreender o seu objetivo. A crítica internacional tem uma opinião diferente da minha, e eu respeito isso, mas tal como Everything, este é um projeto que se foca mais na sua direção artística e mensagem (supostamente) filosófica do que na sua qualidade enquanto jogo.

Future Unfolding é um jogo de exploração e autodescoberta. Bom, acredito que seja de autodescoberta, já que a história se resume a mensagens confusas – leia-se filosofia dos 300 – espalhadas pelo mundo do jogo. Não existe um objetivo claro para além da exploração e dos ocasionais pontos amarelados que teremos de seguir. Tudo é confuso, pouco claro e tão, mas tão artístico. Que enjoo.

Apesar de conseguir compreender o que comove a maioria dos jogadores, este é um jogo que não vive para além da sua direção artística e banda sonora. É certo que os cenários são muito coloridos, ainda que pouco animados, com tons pastéis e um enorme foco num estilo pitoresco. Future Unfolding quer ser uma pintura que admiramos ao longe e cujo significado nunca deixa de ser subjetivo. Ao juntar ocasionalmente a banda sonora, composta por Thomas Carleberg e Emil Nilsson, o jogo ganha um tom reflexivo com as melodias ambientais a tentarem esconder a falta de profundidade de todos os outros elementos da sua apresentação.

Ao contrário de Everything, Future Unfolding dá-nos uma jogabilidade mais mecanicamente complexa. É óbvio que não estamos perante um jogo muito completo, mas quando se insere num género como o de exploração, onde as mecânicas são sempre simplificadas em prol da história, o título da Spaces of Play UG vai para além do “segue em frente, controla a câmara e carrega no botão X para interagir com os objetos”. Aqui podemos correr, comunicar com os vários animais das florestas e utilizá-los para superar alguns dos puzzles, saltar por cima de pedras – que nos impulsam pelo ar – e ainda alterar os cenários para encontrar caminhos alternativos.

futureunfolding_1.png
Há primeira vista, parece existir muito para descobrir neste jogo, mas rapidamente percebemos que passamos a maioria do tempo a fugir de animais e a interagir com esferas brancas.

A aleatoriedade dos cenários tenta proporcionar um sentimento de descoberta à experiência e criar uma aventura que muda consoante as nossas ações. A sua aposta em mecânicas mais próximas de um título de aventura é valorizada neste ponto, funciona perfeitamente, mas a repetição surge rapidamente e nunca mais nos abandona. Sim, conseguimos explorar as florestas e encontrar novos caminhos em cenários que nunca se repetem. E sim, podemos utilizar o nosso engenho para conciliar as várias mecânicas para descobrir novos fios narrativos – leia-se filosofia de liceu – e tentar completar a história. Mas ao fim de poucas horas, quando a música já não nos fascina e a disposição dos cenários apenas nos atrapalha, Future Unfolding cai por terra. A jogabilidade perde força com os cenários repetitivos, ainda que aleatórios. As mecânicas nunca evoluem e os puzzles não têm qualquer engenho e inteligência. E quando estes elementos se conjugam, não há filosofia que lhe valha.

Mas há um elemento interessante que merece ser elogiado. Future Unfolding não se foca apenas na exploração dos cenários, mas também da jogabilidade. O jogo não nos dá pistas sobre as suas mecânicas e elimina por completo qualquer tutorial que nos possa ajudar. Para encontrarmos as soluções temos de explorar os cenários em busca de elementos que se destaquem e colocar à prova as mecânicas que vamos aprendendo ao longo desta descoberta. Tudo acaba por ser muito intuitivo, ainda que um pouco frustrante. Queria ver mais desta liberdade ao longo da campanha e na sua suposta narrativa, mas Future Unfolding cai sempre nos mesmos problemas.

O jogo tenta quebrar a monotonia com a inclusão de puzzles visuais, mas nada que nos deixe muito empolgados. A solução é sempre simples e consiste quase unicamente na união de vários pontos de interesse para desbloquear o caminho. Para tal, é preciso correr para sublinhar linhas no cenário – e isto é o mais literal que posso ser – e fugir dos inimigos que nos tentam matar. E é isto. Agora repitam.

futureunfolding_3.png
A palete de cores é muito atraente, mas a aleatoriedade dos cenários retira-lhe algum do seu impacto devido à sua repetição.

Se estão à procura de um jogo mais reflexivo que vos proporcione uma aventura relaxante com uma direção artística competente e uma banda sonora interessante, Future Unfolding pode ser o jogo que procuram. Mas para mim, foi doloroso. Senti-me vazio enquanto navegava pelos cenários aleatórios em busca de um motivo que me mantivesse preso à narrativa supostamente filosófica. Depois de várias horas, não encontrei nada senão aborrecimento.

É uma experiência subjetiva e eu sei disso. Talvez os meus colegas do GLITCH tenham outra opinião, mas para mim, não há muito para aconselhar. Faltou alma a este jogo que tanto ambiciona ser profundo e nos dar um olhar sobre a nossa posição no mundo e o próprio sentido da vida. Mas se este é o sentido da vida, então não precisam de perder tempo. Eu digo-vos qual é o sentido da vida: é 42.

Ou melhor, é:

Nota 4
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela Spaces of Play UG.

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GLITCH REVIEWS

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

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