Sobre a crítica e os videojogos

O papel de um crítico é algo ingrato. O termo é si soa depreciativo e a pessoa em si é pintada como pedante. O exemplo perfeito é o crítico de Ratatouille, um homem cujo apelido é Ego, com traços de abutre com uma máquina de escrever em forma de caveira num escritório com a geometria de um caixão. A Pixar e a subtileza são como unha e carne. Anton Ego é a morte personificada, e há boas razões para que a personagem carregue essa simbologia. Nos videojogos, como nas diferentes indústrias de entretenimento, a opinião dos críticos pesa na decisão de uma boa parte dos consumidores. Uma nota má pode ser a diferença entre o arrependimento eterno e 60/70 euros poupados. Ou pode também impedir-nos de jogar um título que nos marque para sempre. No pior dos casos, uma má nota pode ser a diferença entre o sucesso comercial ou o falhanço total (excepto no caso de Ghost Recon Wildlands).

Acima representada a fórmula matriz de todos os jogos de mundo aberto da Ubisoft.

Sendo Maio o mês da Força (May the 4th be with you! e tal), o primeiro exemplo terá de ser Jedi Power Battles, que joguei até à exaustão na PlayStation, mas que recebeu 3 no IGN. Na altura não lia análises, pelo que a nota de Jeremy Conrad e Doug Perry (era jogo a mais para ser analisado por uma pessoa, aparentemente) em que se lê “se pensas jogar isto mais do que uma vez, algo de muito errado se passa contigo” passou-me ao lado. Isto era em 2000, muito antes dos patches de primeiro dia e das actualizações constantes. O título que o duo Conrad Perry jogou foi exactamente o mesmo que eu joguei. Eu adorei o jogo. Eles acharam que nem para calço de mesa coxa dava. É justo.

Tenho perfeita noção de que Jedi Power Battles tinha problemas e, pessoalmente, não me incomoda o 3 do IGN. Fui tão feliz com o jogo como Malato em qualquer zona do país referida por um convidado no seu programa. O único problema que vejo com o 3 do IGN é ter descoberto que os fãs partilham a mesma memória agradável do jogo que eu. Não teria estranhado, caso Conrad e o seu ajudante Perry tivessem optado por um 6, mas um 3 deixa pouca margem para dúvidas: Jedi Power Battles merecia acabar numa vala no deserto tal qual E.T. the Extra-Terrestrial (ainda que não tenha cometido o pecado de ter um título 100% redundante).

No tempo em que eu comprava os jogos baseado na capa, isto era um jogo para 9 no mínimo!

Acredito que a grande diferença entre um bom e um mau crítico jaz na posição que cada um assume: o bom crítico esforça-se por compreender o objectivo de um jogo, enquanto um mau crítico é inflexível e julga todo e qualquer título a partir do mesmo ponto de vista (o seu). Humildade é uma característica da máxima importância neste papel, e humildade e flexibilidade andam de mãos dadas. Sem uma ou outra, um crítico arrisca a dar por si a argumentar que Dark Souls tem um conceito catita, mas que beneficiaria de uma abordagem mais ao jeito de Bayonetta, ou que Rain World é demasiado difícil e não tem os inimigos sempre no mesmo local*boohoo*. Há que perceber o que o jogo pretende, e criticá-lo por não ser algo que não pretende ou porque é exactamente o que pretende ser mas “não é bem a nossa cena” é no mínimo parvo.

Outro grande desafio de um crítico é conseguir distinguir o gosto pessoal da qualidade de um jogo. Desde o meu tempo no MyGames até à BGamer, à ROPS e à MaxiConsolas, e mesmo no Escape Rope (#neverforget), que o desafio esteve sempre presente. Ainda agora no Glitch Effect, em que ninguém me paga e por isso posso escrever coisas como “mas quem é que ainda joga Final Fantasy, por amor de Deus?!”, continuo a esforçar-me por ser justo nessa distinção. Já abordámos aqui a crise pela qual o jornalismo dos videojogos está a passar, e o jornalista nesta área tem também o papel de crítico, duas faces nada fáceis de equilibrar e não há uma solução fixa. Num mundo em que os críticos profissionais partilham o espaço com YouTubers e bloggers, a validade da opinião depende da solidez dos argumentos, ainda que este espaço partilhado seja a Internet.

Pode ser a representação de uma discussão na Internet, ou… nada. Eu é que mando aqui! ‘Nothing is true, everything is permitted.

“Mas quem são vocês para falar de solidez de argumentos quando têm o Canelo na vossa equipa?” perguntam. A resposta tão simples quanto engenhosa e totalmente séria, sem qualquer humor envolvido. Horizon: Zero Dawn foi analisado pela Vanessa, Mass Effect Andromeda pelo David e The Last Guardian por mim. O Canelo vai ficando com títulos como Persona 5. “Mas Persona 5 é um jogo que anda na berra e a Atlus só faz jogos bons!” insistem vocês, ao que eu respondo: isso é um JRPG. Ain’t nobody got time for that! Excepto o Canelo*.

*O Canelo é fixe e até sabe do que fala, como podem ver pela análise de Persona 5 e outras tantas;. Nenhum membro do Glitch Effect foi ofendido (seriamente) no curso deste artigo.

2 pensamentos sobre “Sobre a crítica e os videojogos

  1. Partilho a nostalgia do Jedi Power Battles :’) . Gostei muito do artigo até aos dois últimos blocos. O argumento ficou sem conclusão, trocada por inside jokes sobre o Glitch e os seus membros, numa série de frases cujo único propósito parece ser servir para colocar links exploratórios do site.
    Dá-lhe Duarte ^^b

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    1. @J. M. Santos
      Sim, o fim descamba para o absurdo de forma intencional numa espécie de ilustração dos argumentos válidos sobre os argumentos e as opiniões válidas na Internet.

      Prometo voltar ao tema para explorar outros elementos do trabalho dos críticos e das análises. Obrigado pelo comentário 🙂

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