A Vida, a Primavera e Final Fantasy X

2002. Todos estivemos lá. Uns mais velhos, outros ainda novos e alguns que até juram que nunca lá estiveram. Mas estivemos todos. Portugal tinha acabado de perder contra os Estados Unidos da América numa das únicas partidas de futebol que ficaram marcadas na minha memória. Foi o ano em que acabei o 9º ano e deixei os meus melhores amigos para trás para seguir a carreira que viria a marcar todos os 15 anos que se seguiram. E foi também nesse ano que a Squaresoft, ainda sem o prefixo Enix, editou Final Fantasy X na Europa.

As provas globais estavam a chegar quando Final Fantasy X se estreou em Portugal. Tinha comprado a minha PS2 há pouco tempo, num bundle que incluía um Cartão de Memória e o ainda recente Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty. As revistas da época já incluam antevisões, análises, imagens e até vídeos e outros trailers sobre a nova aposta da Squaresoft. A minha antecipação estava a atingir um nível nunca antes visto. Pela primeira vez, sentia o sincero nervosismo que todos os jogadores já sentiram na sua vida – o meu corpo tremia quando pensava em Final Fantasy X.

ffx_personagens
Olhando para trás, era um jogo com um estilo tão estranho.

A vida real estava agora em segundo plano. Os estudos também. A única coisa que me interessava verdadeiramente era Final Fantasy X. E quando chegou finalmente às lojas, não o pude comprar. Durante os meses de espera, devo-me ter esquecido que ainda não trabalhava. Não existia o “comprar no dia de lançamento” e o choque foi grande. Não tenho fotografias daquele mês, mas devia parecer um drogado. O meu aniversário não estava longe e era apenas uma questão de aguentar e continuar a jogar o que tinha. E depois, numa tarde que tinha tirado para estudar para a prova de Português, um dos meus melhores amigos tocou à porta e disse-me: “Tenho o Final Fantasy X, deixa-me subir”. E eu deixei, claro.

Fechei os livros. As duas ou três horas seguintes foram marcadas pela introdução do jogo, seguida de sorrisos, puxões, gritos e saltos de entusiasmo. Depois de Metal Gear Solid 2, que tínhamos acabado há dois meses, Final Fantasy X era o melhor jogo que já tinha passado pelas nossas mãos. Os gráficos eram de cortar a respiração, o mundo era extenso, vibrante e até inacreditável. Era inovador, mas tradicional e familiar ao mesmo tempo. Tudo estava no sítio certo.

Quando menos esperava, o meu amigo pediu-me para gravarmos e disse: “fica ai com o jogo, eu tenho de estudar”. Ele era mais velho do que eu e claramente mais responsável. Eu aceitei. Deixou apenas um recado: “mesmo que avances, continuamos deste ponto de gravação”. Como seria de esperar, não consegui colocar o jogo de parte. Avancei até à famosa FMV onde Yuna realiza o ritual das almas. Fiquei boquiaberto. Passaram-se horas até me aperceber que ainda não tinha estudado para a prova de Português. Não quis saber.

Era uma tarde de primavera. O sol brilhava, mas não me lembro de sentir calor. Não como sinto agora, que estou mais gordo. Lembro-me de uma brisa suave que entrava pelo meu quarto e que fazia os cortinados dançar como se estivessem em câmara lenta. Lá fora, ouvia ocasionalmente um carro, uma voz, talvez um latido longínquo, mas quase nada. E sempre que a primavera chega e sinto essa brisa, esse mesmo sol e me vejo envolto numa paz total, sou transportado para a tarde em que joguei Final Fantasy X.

2002 foi um ano de mudança. Depois de vários anos na mesma turma, tomei a decisão de ir para uma escola diferente. Os meus amigos iam para o primeiro agrupamento e eu segui para Humanidades, escolha que me afastou quase por completo do meu grupo original. E agora que olho para trás, foi essa mesma escolha que ditou o final das nossas amizades. Durante o verão senti o medo do desconhecido, pensei e repensei no que poderia encontrar na nova escola. Sentia-me sozinho enquanto ainda tinha os meus amigos à minha volta. Pensei se aquele seria o futuro que queria, se valia a pena destruir tudo para arriscar naquilo que só poderia ser um sonho. E durante esses meses de antecipação, tinha o jogo da Squaresoft ao meu lado, onde pude viajar com Tidus, Yuna e companhia enquanto organizava a minha própria mente.

Mas fiz-me à vida, como se diz, mesmo com esse medo no peito. Encontrei novos amigos, que agora são como irmãos, e até vi a minha namorada, a Sofia, pela primeira vez, muitos anos antes de a pedir em namoro. Aprendi tanta coisa. E no meio dessa aprendizagem, aprendi a odiar Final Fantasy X, o saudosismo e o que 2002 representou.

Final Fantasy X é um jogo estranho de amar e odiar. É possivelmente dos jogos mais medianos da série que se encontra num equilíbrio constante entre os seus melhores e piores momentos. Tem uma história capaz de nos emocionar, mas repleta de escolhas narrativas que nos confundem. Dá-nos um mundo mais extenso, mas foca-se demasiado na história, na ideia de peregrinação e elimina o mapa-mundo em prol de nomes estampados num menu básico. As personagens ou são fortes, emotivas e cheias de personalidade ou têm o charme de um pedaço de cartão molhado, expelem os diálogos mais irritantes do género e servem apenas para ocupar espaço. É um equilíbrio perfeito. E durante anos, odiei este jogo.

Depois do secundário, da faculdade, do primeiro, segundo e terceiro emprego, de novos amigos, de malta que nunca mais vi, de familiares que chegaram e foram, de avós que perdi e de paixões que nunca foram, apercebi-me que tinha sempre Final Fantasy X e o ano de 2002. Não havia tempo para odiar o passado e os meses em que me senti perdido, inquieto e sozinho. Afastei o rancor e passei a respeitar o meu caminho e a minha decisão. Era tão novo para decidir o meu futuro, mas fi-lo e cumpri-o. Hoje estou a recolher os frutos dessa aposta, bons e maus, mas tudo começou naquele ano em que acabei o 9º ano e Final Fantasy X chegou à Europa.

ffx_tidus_zanarkand
Como Tidus, estava a ser forçado a fazer uma viagem que não queria. Mas sobrevivi. Felizmente a minha história não tem tantos plotholes.

Passaram-se tantos anos, meu deus, mas agora sinto-me em paz. Nunca comprei o jogo, por mais irónico que possa parecer. Acabei-o em 2002, algures depois do verão, mas nunca tive coragem de o comprar. Tive um excelente amigo, isso sim. Em vez de o comprar naquela fatídica tarde na Worten, trouxe comigo Shadow Hearts, um jogo que hoje respeito muito mais. Mas Final Fantasy X, por mais que veja as suas falhas e me aperceba do quanto representa o fim da minha relação com a série, será para sempre um dos jogos mais nostálgicos que tenho. Sempre que a primavera chega, regresso a 2002.

Quando comecei a namorar com a Sofia, contei-lhe esta história. Disse-lhe que sou demasiado saudosista, mas que a primavera recordava-me sempre aquele 9º ano onde decidi fazer o que faço hoje em dia, onde mudei a minha vida. Ela riu-se e disse que era uma memória que devia manter sempre comigo. Quando celebrámos o nosso primeiro aniversário, ofereceu-me a edição remasterizada de Final Fantasy X e X-2. Encomendou o jogo, algo que nunca pensou fazer na vida, tudo para partilharmos esta memória. E a vida é assim.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.