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Persona 5 | Glitch Review

Depois de Final Fantasy XV ter surpreendido os jogadores e a crítica especializada durante o final de 2016, chegou a vez de Persona 5 tomar de assalto o pódio e assumir-se como um dos títulos definitivos do género. Foram precisos quase 9 anos e múltiplos spin-offs de Persona 4, mas a ATLUS conseguiu fazer novamente o impossível: dar-nos um dos melhores RPG de sempre.

Persona_Selo_Análise

Persona 5 é um jogo especial. É um jogo que nos agarra desde os seus primeiros minutos e que nos mantém presos até ao seu final, quase 90 horas depois. Como RPG, é um conjunto de mecânicas absolutamente aperfeiçoadas e até simplificadas que criam um dos títulos mais envolventes deste ano. E esta destreza na jogabilidade é apoiada por uma direção artística que deixará qualquer jogador boquiaberto, seja pelos modelos estilizados das personagens ou pelo contraste entre cores, com uma grande aposta nos vermelhos, brancos e nos contornos a preto que selam a sua proposta.

Seja em Persona ou na série Shin Megami Tensei, da qual Persona 5 se desvincula pela primeira vez, a ATLUS sempre se apoiou sobre uma estrutura narrativa sólida. É fácil perceber pelos diálogos e pontos narrativos que a história é um fator de peso para a produtora japonesa, e Persona 5 mantém esta vontade e aposta ao dar-nos uma narrativa novamente focada num grupo de jovens e apoiada em temas fortes, adultos e até chocantes.

Assumimos novamente o papel do protagonista (quase) silencioso, desta vez um jovem estudante que vê a sua vida virada do avesso após defender uma mulher vítima de assédio e acabar processado pelo seu atacante. Com o aparecimento de um registo criminal improvável, o jovem é expulso da sua escola e obrigado a mudar-se para Tóquio, onde terá de permanecer durante um ano. É um prisioneiro sem algemas, constantemente controlado e sem liberdade para dizer o que quer e o que sente – até ao dia em que desperta o seu Persona.

Não me vou alongar pela história. Não só tenho medo que a ATLUS me bloqueie o texto – estou a brincar – como não quero estragar nenhuma das suas surpresas. Só precisam de saber uma coisa: é excelente. Apesar de não conseguir evitar os diálogos mais expositivos durante as suas primeiras horas de jogo, Persona 5 apresenta uma história muito cuidada, adulta e sem medos de enfrentar os seus temas fortes. A ATLUS complementa esta aposta ao desenvolver algumas das melhores personagens da série e ao dar-nos aquele que é o grupo mais sólido que já vimos num jogo deste género.

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A dinâmica entre as personagens continua a ser um dos pontos de destaque do jogo.

Com os Personas despertados, o nosso protagonista e os seus companheiros passam a assumir o papel de Phantom Thieves – os ladrões fantasma. Persona 5 deixa, ainda que não totalmente, as masmorras aleatórias de parte e dá-nos novos cenários minuciosamente desenhados que exploram o lado mais furtivo da jogabilidade. O objetivo é roubar o tesouro, ou o coração e sentimentos, de cada um dos alvos principais – pessoas sem escrúpulos que emanam tanta força negativa que são capazes de criar realidades e versões alternativas dos acontecimentos e personagens – e claro, aproveitar para derrotar inimigos, recrutar novos Personas e ainda roubar outros itens menos importantes.

Esta aposta na imagem romântica dos ladrões fantasmas, claramente influenciada por figuras como Arsène Lupin, é transposta para os próprios cenários e influencia a navegação dos vários níveis. Cada masmorra é acompanhada por um tema fixo que define a própria disposição dos cenários e a sua decoração, criando uma maior variedade e evitando o cansaço que encontrávamos nos dois jogos anteriores. Os nossos ladrões podem percorrer rapidamente os cenários, saltar e escalar, encontrar atalhos, esconder-se dos inimigos, roubar novos itens e utilizar as suas habilidades, como o Third Eye, para resolver puzzles. Existe toda uma inesperada verticalidade nos cenários que dá a Persona 5 uma grandeza que poucos jogos conseguem captar.

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Escondam-se e escolham o melhor momento para surpreender os inimigos e ganhar vantagem nos combates.

Persona 5 aposta igualmente na navegação furtiva e constrói os seus cenários de modo a complementar esta nova vertente. É possível utilizar móveis, sofás e outros elementos do cenário para nos escondermos e aguardarmos pelo momento certo para atacar. Esta desconstrução da jogabilidade típica do género assustou-me. A ideia de ser obrigado a relegar-me a uma navegação obstruída pela furtividade fez-me duvidar do conceito e é normal que sintam o mesmo antes de começarem a jogar. Mas Persona 5 afasta rapidamente quaisquer dúvidas ao demonstrar que todos os elementos se complementam eficazmente. A navegação nunca deixa de ser divertida, sendo possível passar de objeto em objeto de forma rápida, e é auxiliada por um mapa que funciona extremamente bem e um sistema de checkpoints, dentro e fora das masmorras, que garante que estão sempre prontos para entrar em ação – quando e como quiserem.

A furtividade está perfeitamente implementada na jogabilidade. Cada masmorra, ou castelo, é comandada por um vilão que tem à sua disposição vários monstros, ou shadows, que garantem a sua proteção. Para chegarem ao tesouro, terão de derrotar os vossos inimigos sem levantar suspeitas e sem chamar a atenção do grande vilão. Esta mecânica é representada por um medidor que irá levar-vos a um Game Over prematuro caso chegue aos 100%. Não esperem encontrar mecânicas semelhantes a Metal Gear Solid ou Splinter Cell, mas sim uma versão condensada em formato RPG.

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Durante os momentos mais intensos, fora e dentro dos combates, somos presenteados com close-ups das personagens. Esta aposta dá uma maior vida aos diálogos e combates, e injecta-lhes uma força e realismo nunca antes vistos na série.

Tal como a navegação e a direção artística, o sistema de combate recebeu alterações significativas que o destacam dos títulos anteriores e semelhantes. As mudanças não são revolucionárias, mas demonstram uma clara vontade em simplificar certas mecânicas para extrair todos os seus melhores elementos e expô-los aos jogadores, iniciantes ou experientes. A ATLUS procurou, sem medo, retirar os excessos associados ao género e descobrir o que significa o sistema de combate para a série. E com esta auto-descoberta criou um sistema que passará a servir de comparação para os próximos lançamentos.

Uma das mudanças que continua a fascinar-me encontra-se no próprio design do HUD. Ao contrário dos títulos anteriores, que relegavam as ações aos menus simples, Persona 5 vai um passo mais à frente e divide as opções pelos botões do comando. Isto significa que para efetuarmos um ataque, basta carregar no X. E se quisermos utilizar uma habilidade ou trocar o nosso Persona, só precisamos de carregar no triângulo. Esta mudança dá uma rapidez impressionante e inesperada aos combates, tornando-os mais envolventes, simples e imediatos. Um botão para cada ação, sem navegação de menus – quem disse que os combates por turnos não podiam evoluir?

E existem ainda novidades como o Baton Pass, que vos dá a possibilidade de ceder um turno extra a outra personagem.

O sistema de combate marca também o regresso de duas grandes mecânicas: a utilização de armas de fogo e o recrutamento de Personas. O primeiro, que continua a ser utilizado na série Shin Megami Tensei e spin-offs, dá-nos a possibilidade de atacar os inimigos com pistolas e outras armas e explorar as suas fraquezas. Já o segundo, permite-nos falar com inimigos e convencê-los a juntarem-se à nossa equipa. Para tal, é preciso primeiro derrubá-los e utilizar o seu momento de fraqueza a nosso favor, convencendo-os, através de várias escolhas de diálogo, que se devem juntar a nós ou morrer. E claro, podem contar com a fusão e criação de novos Personas no Velvet Room, outro marco da série.

Se retirarmos as mudanças, o sistema de combate continua a focar-se na exploração das fraquezas dos demónios, que dá acesso a turnos extra, e nas habilidades de defesa e melhoramento que foram popularizadas por Shin Megami Tensei: Lucifer’s Call (Nocturne) há mais de 10 anos atrás. Se são fãs, vão sentir-se em casa. É um dos sistemas de combates mais desafiantes e memoráveis da história do género. É também implacável e por vezes até injusto, mas é difícil apontar defeitos a um sistema que vos obriga a pensar de forma defensiva e não ofensiva, dando-vos várias opções de personalização para superar os maiores desafios. É o Dark Souls dos jogos por turnos.

E sempre com o maior estilo possível.

Tóquio é uma cidade enorme e conta com várias locais e atividades para descobrir. A ATLUS fez um excelente trabalho na sua representação e os pormenores são assustadores. Apesar de não se encontrar no mesmo nível de RPG em mundo aberto, Persona 5 complementa o tamanho do seu mundo com mapas mais detalhados, vivos e vividos, algo raro de se ver no género. Enquanto caminham pelas ruas de Tóquio, ficam com a sensação de que estão mesmo a passear pela cidade japonesa, a sentir os seus cheiros, a ver as suas cores e a lidar com os seus habitantes.

Os Social Links também estão de regresso e assumem desta vez o formato de Confidants. Apesar do novo foco na ação furtiva, Persona 5 continua a apostar no equilíbrio delicioso entre RPG por turnos e simulador de vida escolar. As relações pessoais são tão importantes como o nível das nossas personagens e é essencial explorar todas as opções durante o nosso ano em Tóquio. A maioria dos Confidants estão relegados aos membros da nossa equipa principal, mas será necessário estar atento para encontrar todas as pessoas que podem influenciar a nossa vida social. E como nos títulos anteriores, estas relações têm repercussões no sistema de combate, na fusão entre Personas e até nas habilidades do protagonista.

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A vida escolar estará sempre presente, tal como nos jogos anteriores, e podem estudar na biblioteca e responder corretamente nos exames para melhorarem os atributos do protagonista.

E por falar no protagonista, é possível melhorar os seus atributos através de várias atividades extracurriculares. Desde clubes nocturnos até tardes na biblioteca ou noites nas saunas, todas as atividades têm uma influência direta na evolução da personagem. É importante evoluir os parâmetros, como a bondade e a destreza, para desbloquear novas atividade e Confidants. E podem ainda desbloquear novos itens, como Lockpicks, que terão de construir para avançarem nas vossas aventuras furtivas. Pode não ser o maior mundo que já visitaram, mas é sem dúvidas dos mais recheados e completos que alguma vez encontrarão.

Persona 5 é o pacote completo, do princípio ao fim. Complementa o design rígido das masmorras principais com labirintos aleatórios, semelhantes a Tartarus de Persona 3, e traz-nos alguns dos menus mais estilizados e cool que já vimos. Tudo parece estar em constante movimento, repleto de cores e luzes, contraste e animação. Apesar de ter encontrado alguns problemas na navegação dos cenários, pois parece existir um pequeno delay entre os controlos e as personagens, e as mecânicas furtivas às vezes falharem e levarem a uma descoberta prematura, Persona 5 é imperdível. É dos melhores RPG que joguei nesta geração e acredito que não iremos ver nada igual até ao próximo Persona ou Shin Megami Tensei.

Demorou quase 9 anos, e quase nos enterrou em spin-offs de Persona 4, mas a ATLUS voltou a consegui-lo. Jogos destes não aparecem todos os dias.

Nota 9
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela Ecoplay.

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

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