Mass Effect Andromeda | Glitch Review

106 Horas depois, terminei e já recomecei Mass Effect Andromeda. E agora devem estar a pensar: “Meu Deus como foste capaz! O jogo é só bugs e glitches e as animações são tão horríveis que podem provocar cegueira! Pior jogo do ano! Foi a Internet que me disse!”. Mas fui mesmo capaz. Porque é a minha série de ficção favorita e porque antecipava muito Mass Effect Andromeda. De certa maneira fui “obrigado” a ter que o jogar. E o veredicto é: gostei mais do que estava à espera, principalmente depois daquele drama desproporcionado.

Gostar de algo não é ignorar os seus problemas, não é apregoar só o que é bom e gritar “Fake News!”. Por isso não é, para mim, muito fácil falar deste jogo sem começar por dizer que há problemas. Eu sei que há. Eu joguei o jogo. Se na altura foi irritante e assustador ver piadas com montagens, gifs e memes, agora ainda mais difícil é, porque as conversas vão sempre recair neste lado negativo. Por isso, vou deixar claro e confirmo que há muitas animações más, há muitos bugs e os glitches são mais frequentes do que deviam. Mas o jogo perde assim tanto por isso como a Internet nos diz? Não, de todo. Mal de mim se estes problemas me impedissem de jogar jogos como The Witcher 3. O que eu perdia.

“Embrace the Cringe” – Acho que é uma cena assim que as Asari dizem.

#FaceGates de parte, Mass Effect Andromeda não é perfeito. Nem enquanto jogo, nem enquanto Mass Effect, mas é uma experiência digna de ostentar a marca e um excelente recomeço neste universo.

Algures entre ME1 e ME2, a humanidade e as restantes raças da Via-Láctea dão uma de descobridores e lançam-se numa viagem sem retorno para a galáxia mais próxima, mais exatamente Andromeda – daí o nome do título. Com isto presente, o jogo lida com os temas que são fáceis de extrair num cenário destes: exploração, curiosidade, medo e aquele sentimento tão português que é a saudade. Quase como se estivéssemos a dizer adeus à trilogia original mas sem esquecer as aventuras e as personagens que deixámos para trás.

Esta poesia e ritmicidade está latente ao longo do jogo, mas é logo no plano de abertura e na sequência inicial que vemos um Mass Effect invertido. Em ME1 é-nos apresentado um militar que vai explorar uma galáxia – já descoberta pelas personagens e raças existentes naquele mundo. Em Andromeda podemos ser exploradores com formação militar num ambiente completamente novo – também este já populado por outras raças e personagens, para o bem do enredo.

“And again, it’s like poetry, it’s sort of, they rhyme. Every stanza kind of rhymes with the last one. Hopefully it’ll work.” — George Lucas sobre Star Wars Episode 1: The Phantom Menace (Aquele com o Jar Jar Binks)

Apesar de todo o gabarito no qual trilogia original está envolta e do facto de ME2 ser um dos melhores jogos de sempre, o segundo episódio optou por levar a série por um caminho de filme-de-guerra com uma narrativa mais linear e cinemática em detrimento daquilo que tornou a série especial no primeiro jogo, ou seja, a exploração e mistério.

É muito difícil, recomendar ou voltar a jogar Mass Effect sem se começar pelo primeiro. É lá que se começamos a construir relações e a tomar decisões que tem implicações ao fim de 3 jogos, e é lá que nos é despoletado o sentimento de aventura, de mistério e de horror cósmico, que caracterizam a série. ME1 pode até não ser o melhor em termos técnicos ou na sua jogabilidade, mas é o mais rico em mitologia, em conteúdo e em mecânicas RPG. Andromeda é aquele cliché do “regresso às origens” e dessa forma aparenta ser um novo começo que prima também pelo conteúdo.

Neste jogo assumimos o papel de um Pathfinder – aka RP da Via-Láctea, que é no fundo um Spectre. E durante o jogo temos dois papeis, somos de facto exploradores e o Cristiano Ronaldo da união dos povos. E só para o caso de não o sentirmos, o jogo faz questão de nos espetar isso na cara.

Nenhuma imagem capta a escala destes planetas.

Fora hubs e mapas dedicados a certas missões, o jogo reduz-se apenas a meia dúzia de planetas aterráveis. Na teoria, e em conflito com as expectativas criadas, pode parecer pouco. No entanto, bastou-me perder umas boas 15 horas em apenas um planeta, para perceber que não são precisos mais. Os mapas são grandes e variados, e o modo como a história se desenvolve permite que seja possível explorar novas áreas a bom ritmo e com algumas surpresas. A menos que o jogador decida ir a correrva todos os pontos de interesse, sem esperar que uma missão secundária o mande para ponto X ou Y.

Também retirado do primeiro jogo temos no novo Mako, que se chama o Nomad e não tem canhões. No início parece estranho de comandar e com controlos demasiado convencionais, mas com alguns upgrades e dependendo do terreno, torna-se muito semelhante ao que nos lembramos do Mako… com as mesmas frustrações e tudo. O Nomad é o nosso meio transporte nestes planetas e é eficaz nesse serviço.

A jogabilidade sofreu uma evolução lógica e positiva comparada aos jogos anteriores. Desta vez temos a possibilidade de criar perfis das diversas classes e com atalhos dos diferentes poderes, que podemos alterar a meio do combate. Por um lado, retira um pouco o valor de recomeçar o jogo numa outra classe, por outro, eleva a combinação de poderes a um novo nível, tornando a jogabilidade mais frenética, interessante e criativa.

Literalmente: Overkill

Infelizmente é nas mecânicas de jogabilidade onde também encontramos um dos maiores downgrades. Nomeadamente na falta de controlo nos nossos dois colegas. Os únicos comandos que temos para eles são o de ataque e posição. Não escolhemos o tipo de ataque ou poder, nem decidimos se ficam parados ou não. Isto causa problemas quando queremos não atacar, ter controlo do campo de batalha ou fazer combos. A falta desta mecânica também torna a escolha de habilidades dos nossos colegas, e quem queremos levar connosco, em algo redundante. Os únicos elementos que podem definir quem escolhemos levar são: preferências, missões de lealdade e curiosidade em saber como vão interagir entre si em pequenos diálogos.

No saco das desilusões coloco também a banda sonora. Mass Effect sem música não é nada. E em Andromeda esta quase não existe. O volume encontra-se tão baixo que mal se ouve e, em muitas situações, a música está simplesmente desligada, não acrescentando aquela camada de mistério ou aventura necessárias. E é uma pena , porque, na realidade, a banda sonora de John Paesano (Daredevil, Maze Runner) é quase tão boa como os jogos anteriores, respeitando os temas e registos estabelecidos. Dois excelentes exemplos são a música do menu inicial, que é o tema principal, e a música do mapa galático, Muito honestamente espero que, com futuros patches, este seja um problema a riscar da lista.

São também precisos patches que melhorem a iluminação do jogo. Pior do que as faces e animações, é a iluminação inconsistente ao longo de diferentes cutscenes e ambientes. Tão depressa estamos perante um jogo capaz de apertar o bacalhau ao Uncharted e Horizon, como, do nada, estamos em território 128bit – algo que, juntando às animações, não ajuda nada e torna hilariantes momentos em que uma personagem diz que a sua cara está cansada.

É de facto uma pena que exista uma quantidade substancial de problemas técnicos e que estes tenham influências diretas no voice-acting. É frequente, em diálogos normalíssimos, largarmos uma gargalhada porque o que é dito não corresponde ao tom ou expressões das personagens. É embaraçoso. Felizmente (ou não) ocorre maioritariamente em missões mais irrelevantes com NPCs clones. No entanto pode retirar-nos a vontade de fazer missões que podem esconder algumas surpresas.

Por fim, chegamos ao que interessa: a nossa crew. A Tempest é mais pequena do que a SSV Normandy e a SR2, e logo menos populada. Desta forma todas as pessoas são interativas e têm missões associadas. É fácil olhar para o material promocional ou começar a vê-las a aparecer no jogo e fazer logo algum tipo de julgamento: “Olha o ‘não-Garrus’, a ‘não-Liara’, o ‘não-Wrex’”. Mas o que seria de um Mass Effect sem esta diversidade? E sem um Turian, uma Asari, um Krogan? Honestamente já me pesa não ter um Quarian na equipa. No entanto, as personagens são ricas, muito misteriosas, têm muita bagagem para partilhar, e, ao longo do jogo, conseguem criar uma ligação com o jogador de forma mais eficaz do que em Mass Effect 1, no qual as suas personagens só se tornaram realmente interessantes por extensão do seu regresso em Mass Effect 2.

Poderia agora dar o meu parecer acerca da narrativa, mas iria entrar no território dos spoilers. Para o bem ou para o mal é competente. Existe uma repetição de elementos de jogos anteriores misturados com outras séries, o que, no fim do dia, se assume como uma moleta eficaz para apresentar o “mundo” de Andromeda, conhecer estas novas personagens e criar uma porta para novas aventuras.

Concluo do mesmo modo como comecei, há imensos problemas com Mass Effect Andromeda. Na sua maioria são técnicos, uns poderão ser resolvidos a seu tempo, outros nem por isso. No entanto não é aquela monstruosidade que temos visto. Memes e piadas não refletem os verdadeiros problemas do jogo (tal como não fizeram com No Man’s Sky). Mass Effect Andromeda é uma experiência completa, satisfatória e com muito para oferecer, com mais coisas boas do que más.

Em Andromeda, os novos na série serão muito bem-recebidos e os fãs vão-se sentir em casa. Mas fica uma advertência sobre os nossos novos heróis: “You can fight like a Krogan, run like a leopard, But you’ll never be better than Commander Shepard”

A escala utilizada é de 1 a 10

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