Gamer aos 30

Não é que ache que esteja velho, mas a poucos meses de fazer 30 anos, parece-me inevitável admitir as mudanças na minha vida de jogador. Não é tanto uma epifania de idade adulta quanto uma segunda puberdade, com uma série de dilemas interiores e não menos pressões exteriores, e com a diferença de que tenho bigode e barba em vez de buço e penugem.

CRESCER AOS OLHOS DO MUNDO
Os videojogos conquistaram, finalmente, um lugar na cultura mainstream, e “geek” e “nerd” já não são o insulto nem carregam a condenação social de outros tempos não tão distantes. Num curto espaço de tempo, e sem que nenhum de nós (geeks OG) consigamos explicar bem porquê ou como, o resto do mundo passou a vestir camisolas com o brasão do Super-Homem e o escudo do Capitão América, enquanto se prepara para a nova temporada de Game of Thrones ou The Walking Dead. “No meu tempo”, isso de dragões e zombies era para totós. E eu era um totó.

Ainda assim, parece-me que para os não-gamers o geek que chegue aos 30 tem de assumir um papel mais passivo no que respeita o entretenimento. Por alguma razão inexplicável, filmes e séries de televisão são um passatempo aceitável, mas jogar é coisa infantil. Uma pessoa de respeito, aos 30 está a pagar contas, não a conquistar a Anatólia em Total War: Attila até às seis da manhã com um amigo ou a solo, muitos menos matar uma prostituta em Los Santos para recuperar o pagamento pelo serviço prestado (simples boa prática de negócio). Aos 30, uma pessoa digna queixa-se do trabalho se for solteiro ou da sua cara-metade se for comprometido ou casado, não anda a jogar e a divertir-se.

Sendo já casado, um dos “conselhos” mais recorrentes que me oferecem outros não-gamers é “arranja filhos, mas é”, como uma espécie de mau olhado cigano. Uma das pérolas que se segue é “e a tua mulher deixa-te jogar?”, como uma espécie de prólogo para a cara de pasmo quando explico que estão a confundir “mulher” com “mãe”, e que ela não só me comprou a PS4 como também joga (Stardew Valley, mas joga). É neste momento que a crítica, anteriormente dirigida à minha pessoa, passa a ser apontada à minha mulher, porque pior do que ser gamer aos 30 é ser-se simultaneamente mulher casada. E, por fim, segue-se a Fatality, ao explicar que não tenciono deixar de jogar quando tiver filhos. Sei que não terei tanto tempo, mas não lhes digo e guardo segredo.

DE PROTAGONISTA A ESPECTADOR
Tal qual um adolescente a mudar de voz, eu tenho notado alterações, não no corpo mas no comportamento. Com o tempo (e a falta do mesmo), deixei de ser o jogador entusiasmado com todo e qualquer lançamento. O entusiasmo permanece, mas deixei de comprar (ou sacar) tudo quanto me parecia interessante. Mais sobre o processo de escolha no próximo ponto, por agora, o que quero salientar é que passei a gostar de ver outros a jogarem títulos que me despertam curiosidade, mas pouca vontade de lhes pegar. “Joga aí para eu ver” era coisa que não saísse da minha boca há uns tempos atrás, mas o papel de espectador tem vindo a ser, comparativamente, cada vez mais confortável para mim com o passar dos anos.

Não quer dizer que os anos dourados tenham passado. Simplesmente, tenho de gerir o tempo de outra forma, encaixar os diferentes hobbies e pessoas nas horas vagas. Certos “must play” agora caem no caixote “TLDP” (Too Long Didn’t Play). Eu sou um jogador ecléctico, já não consigo investir dezenas ou centenas de horas num só jogo (com a excepção de Total War). Para mim, nesta altura, pior do que um jogo longo, é um jogo que obrigue a grinding, ou imponha sistemas de crafting complexos com menus infindáveis de itens e feitiços. Por muito que gostasse de me perder com No Man’s Sky, é um jogo que prefiro ver sem compromisso ou investimento pessoal. Por outro lado, disse que não tocaria em The Witcher 3 pelas mesmas razões, mas não só cheguei ao fim como completei todos os contratos e pedidos de ajuda (tirando as corridas e das partidas de Gwent, obviamente). Ser coerente é difícil e a CD Projekt não ajuda.

Outro caso em que prefiro ver a jogar é Hearthstone. Tive um período de vício moderado em que me entretive com a economia F2P das carteirinhas e com a reciclagem de cartas repetidas noutras melhores; mas uns meses depois pendurei as luvas e passei a assistir às partidas dos “crescidos”. Se com No Man’s SkyThe Witcher 3 o problema era exclusivamente o tempo, Hearthstone adiciona uma variável: o orçamento. Por todos os louvores que merece, não se pode negar o investimento que o jogo “gratuito” da Blizzard exige a quem quer permanecer competitivo, e aos 30 o mesmo dinheiro que se gasta em jogos ou “microtransacções-não-tão-micro-quanto-isso” não é o mesmo que aos 15 ou 20. Há mais dinheiro, mas também há mais débitos directos. A não ser que se viva com os pais, mas aí o “problema” já será outro.

ACEITAR A MUDANÇA
Por muito que queira contrariar os não-gamers, há que admitir que a idade (neste caso os tenros 30) traz mudanças. Os dias parecem mais curtos, temos outras responsabilidades, e, infelizmente, a próxima consola ou aquele upgrade ao PC não entram na lista de coisas essenciais para a casa. Eu bem tento e até invento bons argumentos, mas nem eu me convenço, quanto mais a minha mulher. Quase de forma kafkiana, é em facturas e prestações que se desmorona a minha convicção antiga de que, a partir do dia em que tivesse um emprego, teria sempre a nova PlayStation no dia de lançamento e um PC a bombar os melhores gráficos dos jogos mais actuais.

Também os jogos perdem algum do seu encanto. Parte do que era diversão, passei a sentir como obrigação, e sinto que isto não é culpa exclusiva das editoras/produtoras, mas um caso clássico de “desculpa, não és (só) tu, sou eu”. Já não tenho vontade de cumprir as missões secundárias idênticas, de subir a todas as torres de vigia, nem de conquistar campos de inimigos por nenhuma razão aparente, e muito menos de jogar sequelas que repetem a experiência original em vez de expandi-la. Estou mais exigente com o que jogo, e isso não é necessariamente mau, só que resulta em mais desilusões do que antes. Mas assumir a realidade não é motivo para deixar de jogar, apenas para adaptar os hábitos.

Uma das vantagens de ser jogador aos 30 é o facto de a indústria dos videojogos ter crescido também. Sinto que foi por ter crescido a par e passo com a indústria que cresci como um jogador tão ecléctico, tão capaz de me encantar com indies e AAA na mesma medida. E é este um dos maiores desafios para mim aos 30: escolher o que jogar. Cedências são feitas (já não joguei FIFA 17) e alguns dos grandes acabam por ter de passar ao lado (nem penso em tocar em Mass Effect Andromeda). Curiosamente, acabo por me inclinar para os indies mais frequentemente do que para os AAA; mas apesar de comprar menos jogos, de ter menos tempo para lhes dedicar, e de, por vezes, ter de partilhar a PS4 com a minha mulher (devia mesmo ter comprado Stardew Valley para o PC…), gosto mais de jogar do que nunca. Venham mais 30!

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