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Quanto vale um jogo?

Este é um dilema com que me tenho deparado a propósito de For Honor, um jogo bastante competente no que se propõe a fazer, mas pelo qual me custa pagar €70 – ou €69,99, para quem o troco de um cêntimo é coisa valiosa. A pergunta tem vindo a tornar-se cada vez mais familiar nos últimos dez anos, mas não é novidade. Já em 2004, quando a Blizzard lançou WoW, o modelo de subscrição foi questionado pelos mais cépticos, mas os jogadores não pareceram muito incomodados. Seria estranho ver a Blizzard a adaptar-se às expectativas dos que não concordavam com o modelo de negócio, quando milhões de pessoas estavam dispostas a pagar €12 por mês para combaterem ao lado dos Leroy Jenkins deste mundo.

Com a diversificação da indústria, mais pessoas têm dado voz à questão. “Journey não é jogo para custar €15”, disse-se em 2012, “passa-se em três horas”. “No Man’s Sky custa €60?! Mas é um indie!” ainda antes de a crítica e a comunidade trucidarem os esforços da Hello Games. Toda a gente sabe que um indie tem de oferecer no mínimo oito horas de jogo por €20 ou menos, porque se é para pagar €70 euros então queremos um mundo aberto com missões genéricas e gráficos realistas. Os segundos na linha de fogo são os títulos de multijogador online, porque é impensável pagar o preço “inteiro” por um título que nem sequer se dá ao trabalho de oferecer uma campanha a solo, nem que esta tenha o enredo e os níveis de produção de um filme do Van Damme. Isto sabe-se! É senso comum, claramente.

Na verdade, o valor de algo é definido por uma média da ofert... FIRE BALL OF DEATH!
“Na verdade, o valor de algo é definido por uma média da ofert…” FIRE BALL OF DEATH!

Este preconceito, do qual partilho em parte (feito idiota), é perfeitamente descabido. Não me interessa a campanha, mas custa-me dar €70 por um jogo competitivo online. Em termos de horas de entretenimento, jogos como CoD e Battlefield dão bastante mais retorno pelos seus €120 (jogo e Season Pass) do que alguma vez vou retirar de The Last Guardian, que me custou €64,99. No entanto, o sentimento persiste, e não é só por ser The Last Guardian, que é uma experiência emocional bestial! Estamos habituados a valorizar a narrativa com a sensação de crescimento e de poder intrínseca à jornada do herói, mas, mais do que isso, ainda persiste a noção de que o multijogador é algo extra. Seria de pensar que depois da geração da PS3 e da Xbox 360, para não falar de quase duas décadas de jogos multijogador dedicados no PC, o preconceito não existisse, e ainda assim aqui estamos nós, a gastar papel virtual a discorrer sobre o assunto.

HÁ OUTRO TIPO DE REDUNDÂNCIAS
NOS JOGOS COMPETITIVOS ONLINE,
COMO MAPAS E MODOS DE JOGO
QUE SÓ EXISTEM PARA FAZER NÚMERO

Contudo, o preconceito é uma coisa tramada. É por isso que os nossos avós dizem “os maricas” em vez de “gays” e “os monhês” em vez de “indianos”. Muitos nem o dizem por mal, mas é algo já entranhado. De volta à indústria, é condenável que em 2017, dado o sucesso dos jogos competitivos online e o terreno que os eSports têm vindo a conquistar, os críticos continuem a dar como ponto negativo a ausência da campanha a solo num jogo pensado para o multijogador. Foi este o caso de Titanfall, com Vince Zampella a justificar a decisão da Respawn em cortar a componente solo. “As pessoas investem centenas de horas no multijogador e o mínimo e indispensável [na campanha]”, sendo que há apenas uma minoria que acaba o modo história.

Não obstante, a crítica condenou decisão da Respawn em focar os recursos no que o jogo era suposto ser: um multijogador online. A campanha a solo seria inútil, os produtores disseram-no e apresentaram dados e argumentos, mas Titanfall 2 já tem modo história e a sequela de Star Wars Battlefront também terá, única e exclusivamente, porque uma minoria vocal que influencia a opinião pública (leia-se os críticos) achou que isso do multijogador competitivo não é coisa que justifique €70. Há que contribuir com histórias medíocres para poder almejar receber um 8 ou mais.

E assim regressamos a For Honor, que tem uma campanha a solo porque há que justificar o preço. Felizmente, o enredo mistura vikings do século VIII com cavaleiros do século XIII e samurais com armas que só começaram a ser usadas no século XIV, o que garante uma nomeação Pulitzer ou mesmo Nobel. O mais frustrante nesta confusão toda é o facto de as editoras, ao não combaterem o preconceito, acabarem por validá-lo. Agora fico a pensar que se não tivessem investido recursos na campanha a solo (que não quero jogar), o jogo chegaria às lojas por um preço mais barato. É daqueles ciclos viciosos que não beneficiam ninguém, mas que convencem idiotas como eu a não pagar €70 por um jogo que os entreteria ao longo de vários meses.

Este artigo foi escrito em honra de Evolve (2015-2016).
RIP

Duarte Pedreño Ver todos

Adepto de indies, fã antigo da série Total War, e tenho uma relação especial com os jogos de Fumito Ueda. Não sou muito esquisito, gosto de desporto, acção, aventura, RPG... Só dispenso terror e jogos de corrida, a não ser que seja o Crash Team Racing.

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