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Antevisão | The Last Guardian

Lembram-se quando era cómico dizer que The Last Guardian nunca ia ser lançado e que se tratava apenas de um mecanismo de tortura ou trunfo na mão que a Sony utilizava para manter os fãs num permanente cheque? Bolas, também eu, por isso imaginem a minha cara quando acabei de jogar mais de uma hora da última obra de Fumito Ueda e da genDESIGN (antiga Team ICO) durante um evento especial na Lisboa Games Week.

Como fã de Ueda, especialmente de ICO, que considero como um dos melhores jogos de sempre (podem citar-me), a antecipação chegou a um limite perigoso entre a devoção e a loucura psicótica. Foram quase 10 anos de espera, o mesmo tempo de desenvolvimento de Final Fantasy XV e muito provavelmente da criação do nosso planeta. Em 10 anos consegui formar-me, arranjar o meu primeiro trabalho, trabalhar na área dos videojogos e encontrar a mulher da minha vida. Meu deus, Ueda, que paciência!

Uma hora; foi esse o tempo que passei com The Last Guardian. Uma hora e duas secções de jogo que nunca tinha visto. A primeira correspondente ao início do jogo, com o nosso protagonista a encontrar Trico, o adorável monstro, ferido e enclausurado. Seguiu-se então o salvamento, que passou pela remoção de várias lanças espetadas no corpo de Trico, a sua alimentação e a quebra das correntes que o aprisionavam. A segunda secção deu-nos um cenário exterior mais expansivo onde tivemos de ajudar Trico a navegar por várias torres ao mesmo tempo que eliminámos símbolos que o impediam de avançar (a sua origem continua a ser um mistério).

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Mas de volta à primeira secção. O início de The Last Guardian demonstra o quanto Ueda não modificou a sua filosofia. Menos continua a ser mais. A introdução está tão equilibrada que conseguimos ver apenas o essencial para a nossa aventura, com as mecânicas a serem apresentadas à medida que o jovem se relembra do seu primeiro encontro com Trico. É uma introdução fluída, natural e de uma simplicidade reconfortante. Apenas nós e Trico estamos presente, e a nossa missão é conhecer o nosso companheiro e ver os seus limites. A ligação entre as duas personagens fica clara assim que acabamos a introdução, algo que também encontrávamos em ICO. Tudo é novo e mesmo assim, Ueda parece não ter mudado nada.

Apesar de se assumir como um tutorial, a sequência de abertura dá espaço aos jogadores para experimentar, cometer erros e perceber como devem lidar com Trico, uma criatura viva e com as suas próprias vontades que reage unicamente às nossas ações. Foi bom sentir que o jogo não estava a segurar a nossa mão, mas sim a deixar-nos explorar e errar.

A fuga de Trico é uma excelente introdução e o ambiente está absolutamente perfeito. Se são fãs de ICO e Shadow of the Colossus, já podem prever o que vos espera tanto a nível da banda sonora como na direção de arte, mas foi interessante assistir às primeiras impressões de um colega da área que nunca tinha jogado um título de Ueda. Falámos na alma do jogo e das personagens, como se fossem seres vivos e nós realizadores que estávamos apenas a documentar um trecho da sua vida. Apesar de não estarem perfeitas, as animações transmitem essa vida e personalidade, e é delicioso ver a nossa personagem a parar, a espreitar e a demonstrar medo com uma naturalidade refrescante. Até Trico se assume como um ser vivo ao transmitir segurança e ao recuar perante certos objetos que o intimidam.

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Estou obviamente a falar como um fã, mas existe algo verdadeiramente mágico neste jogo. É certo que só joguei uma hora, mas consegui reencontrar algo raro nos videojogos, algo que apenas tinha sentido quando joguei ICO pela primeira vez. O minimalismo dos cenários, da própria narrativa e das ações das personagens aliados ao ambiente misterioso, reconfortante e magistral do mundo do jogo é um cocktail de emoções. Os gráficos podem não estar no patamar esperado, mas quando encontramos uma direção de arte tão coesa e firme, penso que é fácil desculpar quaisquer falhas a nível gráfico.

O que não podemos desculpar, no entanto, são problemas nos controlos, algo que The Last Guardian não conseguiu corrigir a tempo do seu lançamento. Já tinha lido algumas antevisões que apontavam para problemas de latência nos controlos e movimentos das personagens, mas não estava à espera de encontrar falhas tão proeminentes. Parece não ter existido uma evolução desde o lançamento de Shadow of the Colossus em 2006, com The Last Guardian a seguir um modelo semelhante ao jogo da PlayStation 2. É fácil falhar saltos, ficar preso nos cenários, não conseguir descer rapidamente das costas de Trico, não conseguir agarrar ou utilizar itens à primeira tentativa devido ao mau tempo de resposta dos comandos e é irritante quando a câmara se torna impossível de controlar por estar presa nos cenários. Existem problemas que mereciam ser retrabalhados depois de tantos anos de desenvolvimento.

Trico poderá também ser um verdadeiro problema, mas mantenho a minha primeira impressão positiva. Ueda quis criar um animal vivo e independente ao dar-lhe total liberdade de movimentos e decisões. Isto significa que nunca controlaremos diretamente Trico, sendo necessário aliciá-lo com comida ou repetir ações (como saltar) para lhe transmitir o que queremos que faça. E depois de nos observar e registar o que pretendemos, Trico acaba por nos ajudar. Até lá, existe uma pausa que poderá confundir os jogadores menos experientes e pacientes.

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Alguns jornalistas afirmam que The Last Guardian está mais próximo de um jogo da PlayStation 2 do que de um título atual. E dizem isto como se fosse um aspeto negativo, algo a evitar. Mas quando temos jogos nas lojas que se limitam a imitar e a copiar as fórmulas uns dos outros, sou levado a perguntar: é essa a crítica que vocês conseguem fazer? The Last Guardian tem alguns problemas no controlo e na câmara, mas não foram o suficiente para me fazer parar ou ficar irritado ao ponto de desistir. Antes pelo contrário, quando conseguia finalmente encontrar o item que necessitava ou ajudar Trico a navegar pelos cenários, ficava com um enorme sorriso na cara. A satisfação era real.

Mas atenção: acho que devem baixar as vossas expetativas para The Last Guardian. Foram demasiados anos de frustrações, a viagem foi dolorosa e nós, jogadores, estamos muito mais sensíveis a possíveis desilusões. Nós mudámos, a própria indústria sofreu alterações a nível de mecânicas e filosofias de design que colocam o título de Ueda numa posição desconfortável. Mas se The Last Guardian tiver o mesmo charme, carinho e delicadeza de ICO e Shadow of the Colossus, acredito que irá ser um dos melhores jogos que jogarei este ano. Mesmo com todos os seus problemas, The Last Guardian teve mais alma numa hora que muitos jogos em 20 ou 30. Mas cuidado, sempre com muito cuidado.

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Vemo-nos no dia 7 de dezembro, Trico!

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

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