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Switch e o futuro da Nintendo

A ribalta da indústria dos videojogos é uma coisa inconstante. O segredo está num misto de tecnologia e design de jogo, uma espécie de comunhão entre máquina e homem. Este equilíbrio, parece-me, escapa à Nintendo desde o fim da era da SNES: a N64 insistiu nos cartuchos, a GameCube tinha miniDVD e a Wii U percebeu que tinha de sair da zona de conforto da anterior Wii mas não soube acompanhar as exigências do público da Xbox e da PlayStation. Enquanto isto, a Nintendo 3DS/2DS é rainha e senhora do mercado das portáteis (Não, Vita! Não! Feia!).

Revelada hoje, a Switch é a resposta da Nintendo sob o comando de Tatsumi Kimishima (sucessor de Satoru Iwata): um híbrido que funciona como consola caseira e portátil. A decisão já era conhecida, ainda que faltasse a confirmação oficial, e depois das críticas, tendo a alinhar com os optimistas.

UNIR O MERCADO DA NINTENDO
Com a 3DS/2DS a servir de bóia de salvação para um barco que ia ao fundo com o peso da Wii U, a Nintendo elimina a barreira que separa o público da sua portátil (sem queixas maiores quanto ao apoio da plataforma) e o da consola caseira (que vive há anos num deserto com a promessa de um copo de água fresca chamado The Legend of Zelda: Breath of the Wild). O hardware converge os dois públicos e permite que o desenvolvimento de jogos esteja focado numa plataforma, ainda que o design possa obedecer à tradição portátil (Animal Crossing, Pokémon e Mario) como à caseira (Splatoon, Zelda e Mario), ao mesmo tempo que impede que uma consola ganhe pó.

Não há dúvida de que o próximo passo a dar é remendar (ou reconstruir) as relações com as third parties. Se a Wii teve apoio inconstante da Ubisoft, EA e Activision, a Wii U foi abandonada desde muito cedo. Neste momento, a consola depende da produção interna da Nintendo e o resultado está à vista: o último êxito foi Splatoon, de Maio de 2015, e o próximo deverá ser Breath of the Wild, previsto para 2017. Há uma oferta deficiente, apoiada em remasterizações com mais sucesso na Xbox One e na PS4 e em séries cansadas (LEGO Marvel’s Avengers) ou de nichos (Just Dance 2017). Com a Nintendo Switch, é o monopólio que a nipónica detém do mercado das portáteis (Não, Vita! Não! Feia!) a ir ao auxílio do mercado das consolas caseiras.

É uma imagem grande? É. Em vez de estarem a julgar as coisas pelo tamanho pouco habitual, vejam mas é a imagem e percebam o que a Nintendo está a propor. Olha que esta, hem!
É uma imagem mais alta do que o costume? É. Em vez de estarem a julgar as coisas pelo tamanho pouco habitual, vejam mas é a imagem e percebam o que a Nintendo está a propor. Olha que esta!

TECNOLOGIA, MENTALIDADE E POSICIONAMENTO
A Nintendo não é reconhecida pelos jogadores como vanguardista no que diz respeito a hardware, ainda que haja injustiça nesta percepção. Onde a Nintendo deixa a sua marca é na sua cultura, tão distinta e reconhecível nas suas séries. A Switch, contudo, e apesar de desdenhar o Blu-ray e apostar em cartuchos/cartões SD (Já disse que não, Vita! Não! Cala-te!), tem tecnologia da NVIDIA e o vídeo de revelação mostrou Skyrim, presumimos que a versão remasterizada que chegará dia 28 deste mês à PS4 e à Xbox One. Não é um monstro gráfico, mas é um bom sinal, tão bom quanto as possibilidades sociais (multijogador local, online e em LAN) a que o vídeo aludiu.

Contrariamente ao exemplo de Skyrim, o que mais me dá alento é ver a Nintendo a destacar-se da corrida: a Sony e a Microsoft estão nos 100m de barreiras (a MS com os joelhos esfolados, a Sony com o Usain Bolt na barriga) e a Nintendo disse “que se lixe”, parafraseando Ronaldo, e foi para os 1500m de estafetas. O sucesso da Wii nasceu, em parte, da postura independente, quase isolacionista, da consola, e parece-me que a Switch é o regresso da Nintendo a este terreno. A recusa da Nintendo em competir directamente com a Sony e a Microsoft não deve ser vista como uma derrota, mas como bom negócio. Duas plataformas (três, a juntarmos o PC) já segmentam em demasia o mercado dos videojogos, e distinguem-se principalmente pelos exclusivos. A Nintendo vive só dos exclusivos, que não exigem a capacidade de processamento e gráfica que serve de medida de qualidade (infelizmente) para os third parties e exclusivos da Sony e da Microsoft.

Estamos quase seguros de que tudo isto não foi um esquema, em que é um tipo a passar o vídeo de jogabilidade do Skyrim e a fingir que está realmente a correr na consola. Dito isto, nunca se sabe.
Estamos quase seguros de que tudo isto não foi um esquema, em que é um tipo a passar o vídeo de jogabilidade do Skyrim e a fingir que está realmente a correr na consola. Dito isto, nunca se sabe.

O QUE RESTA SABER
Aplaudida a decisão e deixando a estética da consola para outra altura (assunto de podcast, certamente), resta levantar dúvidas sobre os aspectos que não foram endereçados pelo vídeo de apresentação da Nintendo Switch: preço, ergonomia e bateria. Quanto ao preço, a menos que a Nintendo esteja demasiado confiante, não prevejo um erro crasso. Com a Xbox One S e a PS4 Slim a €300 e a PS4 Pro a €400, diria que a Switch deveria apontar para algo entre os €300/350, a ser possível. A verdade é que há outros factores envolvidos e eu não sou Michael Pachter (referência obsoleta?). Sobre a ergonomia, sou grande crítico da PS Vita em grande parte por achar que a consola é desconfortável, coisa que só poderemos julgar depois de termos a consola nas mãos. Por fim, a bateria da versão portátil da Switch é um dos aspectos mais importantes, uma vez que metade da consola da Nintendo depende disso e jogos como Skyrim e Breath of the Wild não são propriamente Animal Crossings no que toca a consumo de energia e exigência gráfica.

Posto isto, sinto-me optimista em relação ao futuro da Nintendo. Apesar do cepticismo todo com que encarei a fase de rumores, acho que a decisão certa passa por ver a nipónica a distinguir-se das restantes produtoras de consolas e a apostar numa experiência única. A ideia, contudo, terá de ser apoiada por uma produção mais frequente, algo que obrigará a Nintendo a mudar os seus hábitos.

Duarte Pedreño Ver todos

Adepto de indies, fã antigo da série Total War, e tenho uma relação especial com os jogos de Fumito Ueda. Não sou muito esquisito, gosto de desporto, acção, aventura, RPG... Só dispenso terror e jogos de corrida, a não ser que seja o Crash Team Racing.

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