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Glitch Review | Virginia

Há jogos que nos marcam e que, quando acabam, nos deixam de testa franzida, boca aberta, olhos cerrados e uma sensação de completa confusão. Virginia é um desse jogos.

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Ao longo de duas horas, a criação da 505 Games e da Variable State transporta o jogador por uma história de mistério, drama, dualidade e moralismo, que não é, certamente, indicada para quem não gosta de ler nas entrelinhas e tirar elações através de sinais, detalhes e mensagens subliminares.

Virginia é um jogo linear, com um final pré-definindo, mas cujo significado não tem nada de óbvio. Nesta narrativa, o jogador é transportado ao longo de vários capítulos que contam uma história – e outras que nela se entrelaçam. Mas, se a jogabilidade não exige esforço, a interpretação do que se vê, sim. Digo “do que se vê” porque terão muito pouco para ler. Este é, para mim, um dos pontos mais fortes de Virginia: a capacidade de contar uma história através das expressões e linguagem corporal das personagens, assim como através de uma banda sonora, absolutamente soberba, composta por Lyndon Holland e interpretada pela Orquestra Filarmónica de Praga. É através destes elementos que se cria uma ligação emocional com personagens, cenário e história, na qual a magia reside precisamente no facto de se dizer tudo, sem realmente se ter proferido nada.

Dúvidas sobre esta sequência: 1. Onde está a pasta dos dentes? / 2. Quem é que guarda o cartão do trabalho ao pé do lavatório? / 3. Por que motivo o batom está no local onde deveria estar o sabonete? / 4. Quem é que ainda usa um sabonete destes para lavar as mãos? / 5. Como é que ainda estás a ler esta descrição?

Mas, afinal, qual é o enredo de Virginia? Em traços muito gerais, o jogador veste a pele de Anne Tarver, uma novata do FBI destacada para resolver o seu primeiro caso em Kingdom, uma pequena cidade com um mistério aterrador. O mote da criança desaparecida é somente o ponto de partida para uma história profunda onde poder, culpa, interesses, agendas próprias e encobrimento são protagonistas. Anne trabalha diretamente com Maria, uma colega de profissão, também ela uma peça central na trama.

Não há muito a dizer sobre a jogabilidade para além de que é simples e direta. O jogador vai de um ponto para o outro, explorando vários ambientes nos quais os objetos a descobrir estão, normalmente, em locais óbvios. Aqui, um defeito a apontar: há uma desigualdade incómoda na quantidade de tempo que existe para explorar cada um dos locais, o que resulta, muitas vezes, na passagem da ação para outro ponto sem que tenham explorado tudo o que podiam. Este problema é especialmente complicado para quem, como eu, tem um quê de OCD e sente a compulsão de analisar tudo antes de avançar, e também quando é suposto lerem informação em papéis ou documentos. Ainda assim, e porque tive de voltar atrás umas três vezes, devo dizer que não senti, em nenhum momento, que fizesse diferença não ter analisado algo que ficou para trás. Uma pequena desilusão.

Imaginem os putos que vão jogar este jogo e olhar para este PC e disquete sem perceberem nada. Muahaha

Virginia é claramente inspirado pelo trabalho de David Lynch, com um piscar de olho a obras como Twin Peaks e The X-Files. Adicionalmente, e como poderão descobrir nos créditos, é fortemente influenciado pelo jogo Thirty Flights of Loving. Não é por acaso que as influências nos remetem para a televisão ou para o cinema, já que o jogo da 505 Games utiliza uma linguagem cinematográfica para contar a história, agarrar o jogador e criar uma experiência de jogo original – foi exatamente isto que senti ao jogar, ainda que perceba os motivos pelos quais, para muitos, Virginia possa ser um simples walking simulador. Há cortes estratégicos na ação – podem estar a descer as escadas do escritório e, de repente, verem-se sentados num carro a caminho de um destino – que se transformam em mudanças muito bem conseguidas de ritmo.

A estética é interessante, fazendo lembrar Firewatch, tornando as personagens e o ambiente em mais um elemento de um cenário muito próprio. Aqui, de destacar ainda, que as duas grandes protagonistas são duas mulheres negras a trabalhar no FBI e, ainda que de forma suave, são percetíveis as implicações de género e raça.

Virginia é uma experiência de jogo diferente que deixa o jogador a pensar sobre o que viveu num ambiente virtual e interativo que exige capacidade crítica. Não é, certamente, um jogo mainstream ou para todos, e é preciso ter em conta que o objetivo é provocar a reflexão em quem joga. Contudo, e devido a um preço que considero bastante acessível (9,99€), é uma experiência que recomendo.

Dizem os produtores, numa carta aberta a quem joga, que criar Virginia acabou por ser uma experiência “estranha e confusa”, ao mesmo tempo que confessam que o objetivo é que este se tornasse num jogo com exatamente essas características. Ao mesmo tempo, o produtor, Jonathan Burroughs, confessa ao The Verge que pretende que o jogo “faça os jogadores sentirem algo que nunca sentiram antes”.

Eu respondo: objetivos cumpridos.

A escala utilizada é de 1 a 10
A escala utilizada é de 1 a 10

O código para análise (PS4) foi cedido pela 505 Games.

VanessaDias Ver todos

Fã de RPG e conhecida por completar, mais vezes do que o recomendado, os jogos que mais adoro. Also love pizza.

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