Final Fantasy XV: As mágoas de um fã

Vocês já escreveram um texto que achavam ser fenomenal e que foi completamente trucidado pelos vossos colegas? Isso aconteceu esta semana, dois dias antes de entregar a versão final e com o tempo a contar. Sentia mesmo que a primeira versão estava fantástica. Tinha humor, suspense e aventura – era um pacote completo para uma tarde bem passada. Era, aliás, o equivalente a um daqueles pacotes da Odisseia para duas noites com jantar incluído.

O tema era o mesmo: Final Fantasy XV. Se não me conhecem, primeiro quero dizer olá e que me chamo João Canelo. Segundo, quero que fiquem a saber que sou fã da série Final Fantasy. Não sou o melhor fã do mundo, até porque ainda não tenho a típica tatuagem do Cloud no braço, mas tenho o hábito de jogar todos os lançamentos, até os spin-offs. Mas como fã, sinto algo a mudar no interior do meu pequeno e negro coração que me faz olhar para a série com outros olhos. E por agora, tudo indica que o problema é Final Fantasy XV.

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Lindas.

E então decidi investigar. Conclui rapidamente que a direção artística e narrativa do novo jogo não parecem ser para mim. Os designs de Noctis e companhia são, na minha opinião, horríveis, fazendo-me pensar em séries de animação de má qualidade cujos protagonistas ainda ouvem Korn e Linkin Park por se acharem rebeldes – isto é, um jogo conceptualizado pelo Tetsuya Nomura. A dinâmica de grupo, o grande foco do jogo, também não parece ser o melhor veículo narrativo para o jogo. E porquê? Porque só tenho visto personagens irritantes e repletas de clichés, e diálogos de novelas rascas nos vídeos promocionais. Se este é o foco, tenho todos os motivos para ficar preocupado.

“Mas isto sou eu, são gostos pessoais e não posso fazer nada em relação ao futuro da série”, pensei. Quando estava prestes a atirar a toalha para o ringue e admitir que já não faço parte do público-alvo da série, encontrei o fantástico e nada irónico Final Fantasy XV Universe. E que universo é esse? É um universo de spin-offs e filmes e séries de televisão que procuram expandir a história de um jogo que ainda nem foi lançado. “Aqui está o tema do meu texto”, pensei eu enquanto esfregava as mãos de alegria.

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“Agora todas as nossas séries são universos e acabou-se”, disse a Square-Enix enquanto fazia uma birra na rua.

E então, como um amante de sarcasmo e humor, decidi alterar a minha abordagem e focar-me no plano ganancioso da Square-Enix. Durante três páginas, critiquei os spin-offs, os filmes e a série, e critiquei ferozmente o modelo utilizado, comparando-o aos lançamentos sem-sabor que marcaram Final Fantasy VII. No meu ponto de vista, estava apenas a ser um fã incondicional e a defender o futuro da série que adorava. No final, soou tudo a dor de cotovelo.

Agora vejo-me sem texto – e com toda a razão. Preciso de reorganizar as minhas ideias para falar de um tema que me é importante, ainda que possa não ser para vocês. Há anos que lido com a série e há anos que vejo a Square-Fonix a colocar os valores de produção à frente da construção narrativa. Desde Advent Children e Dirge of Cerberus que reviro os olhos aos anúncios de mais sequelas e spin-offs para títulos que se querem fechados e devidamente estruturados, algo que a produtora japonesa parece já não saber fazer – estou a perder novamente o controlo, deixem-me respirar.

Durante a primeira versão do meu texto, quis evidenciar o quanto este modelo, este Universo, com U grande para parecer mais importante, não funciona a longo prazo. A meu ver, a criação de mais conteúdos prejudica o ritmo narrativo e a sua construção, ainda que, à primeira vista, pensemos que estamos a receber mais e melhor sobre um mundo que adoramos. Na verdade, estamos a assistir à dilaceração de uma história que foi pensada para um só jogo, anteriormente conhecido como Final Fantasy Versus XIII e Final Fantasy: Fui Cancelado Mas Afinal Não Fui Porque Já Gastámos Imenso Dinheiro Nisto e Agora Parece Mal. Esta ambição por expansão e crescimento não é natural quando ainda nem sabemos se Final Fantasy XV vale a pena. Não conhecemos devidamente o seu mundo ou personagens, ainda é tudo ruído branco e más demonstrações da E3. Se o jogo tiver problemas, como estou a prever, este modelo só irá ajudar a evidenciar todos os seus problemas narrativos e não ajudar a corrigi-los. E é por essa mesma razão que não suporto este suposto Universo e sinto que tem sido responsável pelo meu afastamento.

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E acreditem que a série Brotherhood não está a ajudar.

Mas que poder tenho eu sobre a série e sobre as más práticas da Square-Money? E será que todos os fãs concordam comigo e acreditam que os spin-offs são elementos desestabilizadores para a história principal? Enquanto relia o meu texto original, senti-me sozinho e a lutar por uma causa que nem é importante para a maioria dos jogadores. Senti-me sem forças e como um Velho do Restelo que continua aos gritos quando o resto da malta já foi toda para casa jogar. E senti que estava a ser injusto com os fãs ao impor ideias mal estruturadas e pensadas. A indignação continua aqui, no tal coração pequeno e negro, e não vai a lado nenhum, mas os meus colegas ajudaram-me a parar uma guerra que ninguém queria. E é assim.

A meio do texto original escrevi este parágrafo:

Final Fantasy XV ainda não chegou às lojas e já é considerado como um Universo, com U grande para demonstrar importância. Ainda não foi jogado pelos fãs e já tem uma narrativa expansiva que é capaz de recontar os acontecimentos antes, durante e depois do jogo. E o jogo ainda nem está nas nossas mãos. Aliás, já não estamos perante um mero e simples jogo. Agora é um universo. É muito mais que um jogo e muito mais que os fãs e as suas experiências. É uma estrela reluzente num mar de mediocridade. E é um “Toma lá Bioware, afinal também temos uma narrativa longa que até dá para fazer filmes e séries e programas de culinária e novelas, se quisermos! Ainda não nos esquecemos que criticaste o Final Fantasy XIII! Por favor, amem-nos, nós já não sabemos o que andamos a fazer!”

E vocês nem sabem o prazer que me deu escrever isto e fazer aquela piada final. Estava mesmo orgulhoso do meu texto, nem imaginam o quanto. Apesar de agora escrever com a cabeça fria, continuo a ponderar sobre o papel da Square-Jáchega na indústria. Final Fantasy XV está prestes a ser um franchise dentro de um franchise para pagar as contas acumuladas em mais de 10 anos de desenvolvimento. E eu compreendo que seja assim que a indústria funciona e que é o dinheiro que faz o mundo girar, não sou nenhum comunista utópico. Mas se Final Fantasy XV, o jogo e não o universo, falhar conceptual e narrativamente, será que podemos voltar aos tempos simples e descontraídos onde não tínhamos de ver filmes e séries para compreender o mundo de um jogo?

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Bling bling para o Noctis, se faz favor.

Fico, no entanto, a pensar se os videojogos precisarão deste apêndices. Serão assim tão necessários para complementar as histórias e garantir o retorno do investimento? Mais é melhor, continua a ser esta a filosofia das grandes produtoras, mas será esse o caminho correto? Com as novas adaptações e spin-offs, os estúdio parecem querer expandir as suas séries para novos formatos e chegar a um público mais extenso e variado. Esta sempre foi a missão: por piores que sejam as adaptações e séries, chamam novos jogadores que desconheciam determinada propriedade intelectual. Mas em que ponto ficam os videojogos se já não conseguem proporcionar uma experiência suficientemente rica e fechada e são obrigados a integrar novos meios para expandir a sua narrativa de forma artificial e garantir o seu investimento?

E com estas questões todas em mente, vejam o quanto estava irritado com as práticas da Square-Enix no meu texto original. Este era o final:

A Square-Enix diz que Final Fantasy XV será lançado em novembro, mas estão a mentir. O jogo começou a sair em junho com aquela série horrível com animação de segunda categoria e ritmo deplorável. Depois continuou durante o mês de agosto com Kingsglaive. Final Fantasy XV não é o início, mas sim a conclusão. E é assim.

Mantenho-me agora sentado na minha secretária e com o botão de delete pressionado enquanto vejo o que resta do meu texto original e do meu fanboyismo a serem apagados para sempre. Daqui para a frente, escrevo apenas de cabeça fria e sem dores de cotovelo; tudo com o maior profissionalismo possível. Final Fantasy XV fica assim na gaveta e longe da minha consciência até novembro, mês que promete ser marcado pelo tira-teimas final. E até lá, tenho tempo para organizar as minhas ideias e analisar devidamente a utilização deste universo expandido.

E assim também tenho tempo para escrever mais textos onde digo “eu bem vos avisei” em vários formatos e línguas diferentes. Porque é isso que vai acontecer! Bolas, desculpem, ainda me saiu este último ato de fã ofendido. Mantenham-se com classe!

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