PÔR OS PÍXEIS NOS I'S

United Colors of Gaming

Que vergonha.

Esta é uma daquelas alturas em que tenho alguma dificuldade em ter orgulho por fazer parte da comunidade gamer. Porque se me habituei a conseguir aceitar que haja pouco espaço para boas representações femininas – sim, há mais homens que mulheres a fazer jogos, já sabemos – é impossível algum dia aceitar que se descrimine algum jogador pela cor.

O que se passou no início deste mês com o jogador profissional Terrence “TerrenceM” Miller é espelho dos habituais problemas da Internet – todos comentam, não há filtro, é o paraíso dos trolls – mas também de um sintoma mais preocupante da comunidade videojogadora: a crescente – e não decrescente, apesar de tantos esforços ridículos para o politicamente correto – discriminação.

Conta a história que, durante um torneio de eSports de Hearthstone, Miller foi repetidamente ofendido nos comentários do stream, via Twitch, só e apenas por não ser branco. Veja-se que havia tantas outras coisas para comentar (entre elas a prestação incrível que teve, já que ficou em terceiro depois de ter vindo do nada), mas os idiotas que faziam parte do grupo que estava a ver o stream decidiram que o chat se podia tornar o paraíso das “piadas sobre pretos” só porque sim. Afinal, que espero eu? Somos a comunidade que diz a jogadoras com opinião que mereciam ter cancro, ser violadas ou ir fazer sandes para a cozinha.

O que me choca neste assunto é que neste caso quem estava a jogar era “um dos rapazes” e mesmo assim as bocas (ou as teclas) da discriminação fizeram-se notar. Curiosos com o que disseram? Eu também fiquei e, por isso, segue-se um print screen.

Nigger em itálico e com letra estilizada é a versão 2.0 do antigo jargão dos campos de algodão. (via pcgamer.com)

Como sabemos, este é um problema social que vai para lá dos videojogos, mas é premente, especialmente com o crescimento dos eSports, que se criem estratégias para que os domadores de trolls sejam realmente eficazes. Uma das causas desta lastimável situação foi o facto de existirem poucos moderadores e, pior, entre estes existirem pessoas que decidiram o quanto seria giro darem uma de Joker e sentarem-se a ver o mundo arder. Afinal, o que importa é rir, certo?

A escolha de quem modera deve ser tão séria como as regras do torneio e, se tal não for possível, então mais vale não existir stream com comentários. Especialmente quando sabemos que este tipo de transmissão é visto por números astronómicos de pessoas (algumas dessas jogadoras, outras curiosas) e a tentação de fazer-se notar na multidão através da laracha mais polémica é incontrolável para quem tem pouca ou nenhuma noção do quão abominável é a perpetuação de um estigma racial.
Entretanto, a Blizzard já reagiu ao acontecimento e diz estar a planear uma estratégia com o Twitch para que exista um maior filtro e controlo neste tipo de situações.

É obvio que a maioria de nós já esboçou pelo menos um sorriso com o típico meme do CJ e da bicicleta e de como o primeiro protagonista preto da série Grand Theft Auto começa o jogo por roubar. Diria que isso é tão inocente como eu achar que não ofendo alguém por utilizar a palavra preto ou branco. O problema é que este acontecimento espelha mais do que um sorriso esboçado. Para mim, significa uma falta de tolerância enraizada que, agora vejo, vai para além do grupo que eu própria me incluo ativamente.

Esta é a questão que realmente se impõe.

Queremos realmente uma comunidade de jogadores sexista, racista e homofóbica?

Podemos não estar todos no mesmo saco, mas a vergonha do que se passou calha-nos a todos. Miller pode “cagar e andar” na cena e até já ter aceite que o white priviledge é uma coisa real e um dado adquirido, mas a comunidade de jogadores fica cunhada de racista em pleno 2016. À vista de todos e com imagens que ficam para sempre.

E quem são todos, perguntam? Por exemplo, os pais de Miller que assistiram e leram tudo, em direto e sem filtro. Um mimo.

Que vergonha.

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