#OBEY

A procura incessante de monstros da discriminação nos videojogos não é novidade, mas as últimas semanas têm sido ricas neste tipo de debate. Sou atenta a este tipo de problema, porque eu própria faço parte de um grupo que ainda tem de lutar por representações mais justas e uma maior igualdade na indústria, mas acho que o que se tem passado é um pouco diferente do que achar que as miúdas não têm lugar no mundo dos videojogos. Preocupa-me principalmente a facilidade com que assuntos banais se tornam um problema e ainda mais a forma como as produtoras respondem a chamamentos de jogadores de tocha em punho apenas porque têm medo de serem molestadas na praça pública.

Antes de mais, devo dizer que não me agrada a direção artística de Overwatch e, portanto, a pose inicial ou secundária de Tracer tem em mim o mesmo efeito. É demasiado sexual. No entanto, o problema não é só a pose, já vem da escolha de guarda-roupa e de como a tendência “apertado quase a cortar a circulação” parece ser algo fixe para a Blizzard (e, sim, não é a única). Mas pior do que isto tudo – porque eu não gosto, logo não jogo, logo deixo-me estar na minha – é a forma como, perante uma queixa de um jogador, se deita por terra uma escolha de design, previamente ponderada e aprovada, por outra ainda pior para que, com a máxima rapidez, se possa controlar uma crise que não convém a um jogo prestes a sair.

Newsflash! They all do!

Bonito trabalho, o teu, Blizzard. Porque uma pose de pin-up é realmente uma escolha mais acertada no combate ao bicho papão da sexualização das personagens femininas. A verdade é que a Blizzard nem se deve preocupar assim tanto com isto, e tão pouco procura estratégias para mudar o panorama de como as mulheres nos videojogos, especialmente neste tipo de jogo, são representadas. Mais uma vez, tudo OK, aceito, mas então não sejam hipócritas. Porque não é com esta nova pose que aquela jovem jogadora vai passar a sentir que a personagem que adora é uma mulher cheia de garra em quem se pode inspirar. Gostava de saber se o responsável pela criança, que se queixou na altura, aprova esta novidade. Já ninguém sabe dele?

Quis o destino que, pela mesma altura, fosse removida a possibilidade de jogar com um Nathan Drake gordo, porque isso também não é politicamente correto e pode ofender. O estranho no meio disto tudo? Não podemos ter um Nathan Drake gordo porque é uma brincadeira de mau gosto de produtores, na altura, imaturos, e porque goza com um determinado tipo de corpo, mas as modelos plus size estão mais do que nunca na ordem do dia por conseguirem deitar por terra estereótipos sobre o corpo feminino e combater a ditadura de um corpo perfeito (algo com o qual eu concordo, atenção). Ouvem o ruído do vento? A dizer descriminação positiva também é descriminaçãoooo.

Ter o Donut Drake é algo inofensivo, pelo menos nestes moldes, porque em momento nenhum senti que existisse vontade de envergonhar ou fazer chacota. Se eu for gorda e o Nathan XXL me ofender, não jogo com ele, fim do assunto. Nem sequer é algo pré-definido, portanto, ou se escolhe ou não. “Ahh, mas vão gozar com o gordo a fazer rappel e a saltar para carros em andamento em câmara lenta”. Claro que vão, porque essa é a natureza humana, mas não vai ser por isso que a descriminação relativa a pessoas com peso a mais vai subir 100%. O bom senso é necessário e não nos podemos esquecer que, o que para uns é descriminação, para outros pode ser inclusão.

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A descrição deste leitor do IGN é: “If there’s one thing that sucks about being a responsible adult, it’s that there’s never enough time to play video games”. Há duvidas que é uma fonte credível? (IGN.COM)

 

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Os dourados anos 90. (IGN.COM)

Sabem quem paga por esta remoção? Segundo os comentários do Youtube, as feministas, segundo tantos outros as feministas QUE JOGAM. O que eu questiono é como é que uma decisão da Naughty Dog é culpa das feministas. A culpa é deles, porque foram eles que decidiram. Algumas feministas são exageradas, mas até essas já estão cansadas de ter culpa de tudo.

O problema do exagero do politicamente correto é precisamente este: o cair no ridículo com os extremos a que se chega e a falta de consistência do problema que é existirem dois pesos e duas medidas para o mesmo tópico.

Os videojogos, como outras indústrias de entretenimento, excluem minorias, fazem divisões de género e tantas outras coisas nefastas, mas é imperativo que não se faça de tudo um tabu. Será que somos capazes?

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