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A pequena loja dos jogos pirateados

Faço parte da equipa do Glitch Effect há quase um ano. Tenho sido presença constante no podcast, mas só recentemente comecei a brindar os nossos leitores – vocês, que estão agora a ler e a sentir que estou a partir a tão badalada Fourth Wall – com textos que considero serem originais. Talvez esteja a passar por uma fase de mudanças na minha vida que me leva a pensar no passado e a deambular por ideias e sentimentos que já não me pertencem, mas tenho notado que a nostalgia é o meu tópico preferido no Glitch Effect (isso e mamas).

Para não destoar, até porque tenho uma imagem a manter, decidi aventurar-me uma vez mais pelas minhas memórias e reencontrar-me com um momento estranho e pouco natural da minha vida como jogador.

Não venho de uma família abastada, tal como muitos de vocês.Para um miúdo sem consciência do futuro ou do que o esperava, uma família menos abastada sempre significou que os novos jogos só passavam a fazer parte da minha vida em momentos concretos: no aniversário e no Natal. Agora imaginem isto: numa tarde qualquer, quando ainda estão a jogar aquele jogo horrível que a vossa tia vos deu, um dos vossos amigos mostra-vos um CD gravado e diz que lá dentro, naquele reflector barato e sem interesse, está um jogo inteiro. E tudo aquilo por apenas uns escudos, não mais.

Até aqui, tudo normal. Passámos todos pela descoberta da pirataria como passámos pelas revistas eróticas no café da zona. Alguns começaram pelas disquetes com DOOM ou Elifoot 2, e eu tive as minhas primeiras aventuras como pirata com títulos como Klonoa e a versão japonesa de Resident Evil 3. Mas será que vocês tinham uma loja na vossa zona que só vendia jogos gravados? Loja essa que estava num centro comercial bastante movimentado que não só “chipava” consolas como tinha polícias como grandes clientes? Sejam bem-vindos a Moscavide.

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Em Moscavide, cima é baixo e a Xbox One é a consola mais vendida no mercado.

A loja parecia ser uma miragem. Estava no 9º ano quando um colega, oriundo da grande nação que é Moscavide, trouxe consigo, como um moderno Moisés, a boa nova sobre uma nova loja – real, bastante real – que tinha um catálogo enorme de videojogos que custavam entre 500 e 750 escudos. Tudo para PC, PlayStation, PlayStation 2 e Dreamcast. Depois de ter soltado o grito mais efeminado da minha vida, decidi investigar.

O que encontrei foi uma verdadeira mina de ouro. Numa época onde a maioria dos títulos não chegava à Europa, aquela pequena loja – mas real, muito real – tinha a maior lista de sonhos que alguma vez tinha visto. Koudelka, Star Ocean 2, Legend of Dragoon, Xenogears, Final Fantasy IV, V e VI, Chrono Cross e Chrono Trigger, Suikoden II, entre muitos outros e mesmo à minha frente – tudo disponível e ao preço de um Bollycao gourmet. A minha cabeça explodiu perante a possibilidade de ter todos aqueles jogos em minha casa e continuou a entrar em choque enquanto explicava à minha avó, em três simples passos, o quão importante e necessário era a minha mesada antecipada.

Acredito que o mundo entrou numa dimensão paralela entre 1999 e 2002. Olhando para trás, nada parecia fazer sentido. Existiam lojas que ganhavam a vida com jogos pirateados, o Euro colocou um ponto final ao Escudo e Portugal acabava de perder vergonhosamente contra os Estados Unidos da América, o único país que ainda não compreendia na totalidade a magia do futebol. Parece que tudo parou e que durante alguns anos, tudo era possível. Querem outro exemplo? Eu tive um 3310 e consegui parti-lo. Hoje em dia, isso é impossível.

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Uma PlayStation, jogos gravados, um cartão de memória vazio e pronto a usar: fórmula para a felicidade em 2002.

Se não fosse aquela pequena loja, algures em Moscavide mas totalmente real, eu não tinha experimentado alguns dos meus jogos favoritos. Klonoa, Tales of Eternia (ou Tales of Destiny 2, como foi intitulado nos E.U.A.) e Chrono Cross continuam a ser alguns dos melhores jogos que joguei na primeira PlayStation. Lembro-me perfeitamente de estar em casa dos meus avós, deitado na minha cama, de pernas cruzadas e de comando na mão, a jogar títulos que nunca pensei que conseguisse jogar. E tudo por 750 escudos, o preço da felicidade.

Como seria de esperar, a ordem natural do mundo foi reposta e os donos da loja foram processados e multados. O sonho morreu numa tarde de verão, algures em 2002, quando ia comprar mais um jogo e encontrei a loja fechada. Pouco tempo depois, os donos reabriram a loja, agora sem jogos pirateados e assumindo-se como um estabelecimento sério de reparações de consolas e computadores. Os tempos passaram; acabei por sair de Moscavide e ir estudar para longe. Muitos anos depois, já em 2012, regressei à loja com a minha PS3 avariada. Os donos ainda eram os mesmos; já não se lembravam de mim e eu fingi que aquela era a primeira vez que os via. Pedi para resolverem o problema da minha consola, e responderam que seriam 30€. Cheguei a casa, tentei jogar e não consegui – o problema manteve-se. Perdi 30€ e uma memória. E é assim.

João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

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