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Resident Evil – O Bom, O Mau e o Nicholas Cage

Não consigo acreditar, mas o meu calendário – aquele que é obviamente real e não fictício e que eu não acabei de inventar para fazer esta introdução – está a insistir que a série Resident Evil celebra esta semana o seu 20º aniversário. 20 anos de mortos-vivos, histórias mal contadas, mau voice-acting e alguns dos melhores jogos das duas últimas décadas. Meu deus, estamos todos velhos.

Resident Evil foi o primeiro jogo que experimentei na PlayStation original e que me transportou para o fantástico e novo mundo em três dimensões. A criação de Shinji Mikami continua a ser um dos melhores jogos que já joguei (mesmo com a má história e mau voice-acting), oferecendo-me uma das aventuras mais tensas e aterrorizantes que a minha mente, ali com apenas 12 anos, já tinha experienciado.

Como um todo, posso dizer que a série Resident Evil é uma das minhas favoritas, perdendo apenas para Silent Hill (por razões que me parecem óbvias). Não posso, portanto, deixar passar esta celebração sem partilhar os meus dois cêntimos e dar início à rubrica “O Bom, O Mau e o Nicholas Cage” onde me focarei no melhor, no pior e no jogo mais inconsistente da série.

O BOM – Resident Evil 2

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Estive quase a escolher o remake do primeiro Resident Evil, mas a nostalgia atacou-me pelas costas antes que conseguisse escrever um único parágrafo e relembrou-me que o segundo capítulo da saga será sempre, SEMPRE digo eu!, o melhor título da série. A passagem para Raccoon City não só expandiu os cenários e a ação clássica da série como nos ofereceu uma história mais coesa e com um simples objetivo: escapar da cidade infetada pelo vírus e sobreviver.

Chris Redfield e Jill Valentine serão sempre relembrados como os protagonistas da saga, os heróis que escaparam às tormentas da Mansão Spencer e colocaram um ponto final aos planos maléficos da Umbrella. Mas para mim, Leon e Claire assumem-se como as personagens mais interessantes (ainda que ajudados pela minha própria bondade e sincera opinião) ao dar-nos um lado mais honesto e real dos acontecimentos na cidade. Ambos são corajosos, destemidos e um pouco…burros, mas conhecem bem os riscos e o seu foco está na sobrevivência. Existe uma maior empatia e reconhecimento, o que transforma a campanha de Resident Evil 2 numa verdadeira tormenta e corrida contra o tempo.

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“Faças o que fizeres, não te esqueças de carregar em todos os móveis da esquadra. Podem estar balas escondidas atrás das plantas, não te esqueças”.

Desde a abertura até ao seu final explosivo, Resident Evil 2 é um verdadeiro prazer de jogar e descobrir. Imaginem isto: presos num beco em chamas e rodeados de mortos-vivos, são obrigados a escolher se disparam ou se correm pela vossa vida em busca de um local seguro. E quando acham que encontram um possível aliado e um sítio para recuperar e planearem o próximo passado, o jogo volta a bombardear-vos com um ataque surpresa que vos faz continuar a correr. Se este não é um dos melhores início de sempre, então alguém que me perdoe, pois não sei o que é um bom início!

Se tiverem de jogar um único Resident Evil, esta é a vossa melhor escolha. Não só têm acesso à jogabilidade clássica da série, agora mais refinada, como podem conhecer Raccoon City e vivenciar os primeiros momentos da epidemia. Curto, mas coeso e tenso – aqui está um jogo imperdível.

O MAU – Resident Evil 6

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Mas se a vossa tara é atirar jogos para a sanita ou disparar contra eles enquanto cantam o hino dos Estados Unidos da América ou qualquer música pimba do interior do nosso país, então Resident Evil 6 é a melhor escolha. Apresentado como um regresso às origens e uma expansão das mecânicas mais vocacionadas para a ação – inseridas pelos dois títulos anteriores – Resident Evil 6 só consegue demonstrar os riscos da liberdade criativa numa equipa com a atenção de uma galinha.

Se pensarmos no sexto capítulo da série como um jogo de ação, algo que é fácil de fazer devido às suas sequências quase hollywoodescas e de baixo conteúdo artístico, percebemos que existem poucos elementos que realmente funcionam. Resident Evil 6 é um jogo dividido e incompleto por mais que olhemos para ele. Como um jogo de ação, falha ao não distribuir fluentemente as suas armas e munição para dar aos jogadores uma experiência mais compacta e tensa. E como um jogo de sobrevivência e um regresso às origens, Resident Evil 6 é uma chapada na cara dos fãs ao não perceber sequer o que tornou os títulos originais tão envolventes e respeitados.

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Aquele momento em que Leon fica sem balas porque  afinal está num survival horror e ninguém o avisou.

Podem não concordar, mas respeito muito mais Resident Evil 5, ainda que tente ser um Resident Evil 4 cheio de testosterona, do que a sua sequela. A última aventura de Chris Redfield, acompanhado pela rainha africana com má inteligência artificial, sabe que é um jogo de ação e assume a sua estética e mecânica como um jogo orgulhoso. Resident Evil 6 tenta ser uma resposta às críticas negativas dos fãs ao dar-nos campanhas como a do Leon, mas não tem coragem suficiente – ou orgulho – para assumir um único género. Tem mais personagens, mais campanhas, é mais explosivo e barulho e é uma bela trampa.

O Nicholas Cage – Resident Evil Zero

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Depois de passar mais de 20 horas com a remasterização de Resident Evil Zero, que me levou a concluir a sua campanha três vezes (uma delas com a equipa Wesker – um dos extras da nova edição), posso concluir que estive perante o princípio e o fim da série tal como a conhecemos. Como um todo, Zero fica aquém de Resident Evil Remake, ainda que consiga inserir alguns elementos interessantes na jogabilidade mais clássica da série. Mas tal como Code Veronica, que a meu ver também falha na sua tentativa de total expansão das mecânicas, o antigo exclusivo da GameCube peca pela sua falta de foco e divisão entre nostalgia e novos conteúdos.

A campanha pode ser mais fraca, especialmente na ligação coerente entre cenários e o design dos vários monstros, mas apresenta excelentes momentos. A abertura do jogo, passada num comboio abandonado, é eficaz e transporta-nos para um local nunca antes visto na série. As instalações de treino, infelizmente parecidas com a Mansão Spencer (por razões óbvias), conseguem misturar vários elementos clássicos da série num pequeno, mas saudável trecho da sua campanha. Mas e o resto? O resto assume-se como conteúdo forçado .

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A cooperação entre as duas personagens é uma boa ideia, mas está inacabada. Não só temos uma clara redução na tensão do jogo como nos sentimos constantemente presos a uma personagem que preferíamos não estar a controlar. As suas personalidades vazias e maus diálogos também não ajudam, mas o grande problema está nas mecânicas. É fácil trocarmos de protagonista, é fácil manusearmos o inventário entre os dois, mas tudo se torna tão cansativo e aborrecido à medida que nos aventuramos mais e mais.

E depois temos a falta de estilo. Bem, o jogo tem estilo, mas estamos a falar dos meados dos anos 2000, o que significa que Billy, uma das personagens, se atira para o lado e dispara contra um dos monstros em câmara lenta – não fosse o Matrix uma espécie de Bíblia para o setor audiovisual. Se adicionarmos estes momentos à tensão ao motor gráfico apresentado em Resident Evil Remake, conseguimos perceber rapidamente que a Capcom já estava a tentar expandir a série para um novo e triste patamar. E a culpa é nossa. Os fãs queriam algo diferente e assim o tiveram. Reza a lenda que Resident Evil Zero e Resident Evil 4 foram afetados pela fraca prestação do remake do primeiro jogo – jogo este que Shinji Mikami considera como o topo da série –, despoletando uma vaga de mudanças que se fizeram sentir até ao lançamento de Revelations 2 durante o ano passado. Este é o princípio da fase vocacionada para a ação e o fim dos ângulos pré-definidos e da tensão, tudo num só jogo.

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“Mas tem vários fatos para as personagens? Então é bom!”

É por essa razão que eu não consigo dizer que Resident Evil Zero, tal como Code Veronica, é um mau jogo, mas também não consigo defender algumas das suas escolhas estéticas e mecânicas (ainda que aprecie a possibilidade de deixarmos itens espalhados pelos cenários). É uma campanha pouco coesa ou cativante, mas o seu coração está ainda no lugar certo e é por isso que será sempre o Nicholas Cage da série.

E vocês, são fãs da série? Partilhem connosco as vossas escolhas e vamos todos celebrar o aniversário de uma das melhores sagas de sempre (e rezar que o futuro seja brilhante com o inevitável sétimo capítulo e o remake de Resident Evil 2…).

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João Canelo Ver todos

Guionista de dia, crítico e homem das larachas de tarde e um bom rapaz à noite, sou o perito em RPG japoneses e jogos de terror do grupo. Sentem-se, estejam à vontade!

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