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PAIS, FILHOS E VIDEOJOGOS | 5. Vício

Tal como a influência de jogos violentos, o vício é um perigo iminente aos olhos dos pais e algo como um gambozino para os jogadores. A razão, como tem por costume nestas coisas, estará algures entre os dois pontos de vista. Uma criança ou adolescente que por iniciativa própria invista o tempo livre a jogar PC ou consola não é obrigatoriamente viciado – todos nós, gamers, gostamos de dedicar o ocasional dia por inteiro ao passatempo – mas o vício é real. Basta olhar para a Coreia do Sul.

Ao contrário do artigo sobre a violência, neste não há estudos, apenas a minha experiência pessoal. É como se estes fossem os meus 5 minutos de partilha numa sessão de alcoólicos anónimos. Para compreender o tema, há que distinguir fixação a curto prazo de vício ou obsessão. Aquele jogo que não nos sai da cabeça, com que sonhamos e que não nos deixa descansar é uma fixação. Para mim foi Uncharted 2: Among Thieves. Não é caso para alarme, as campanhas de promoção (trailers, entrevistas, eventos de antevisão…) estão pensadas para gerar interesse e agarrar o público; basta ocupar a mente com outro hobby por uns dias e, em muitos casos, a situação resolve-se com o tempo. Faz parte da natureza do hype.

Apesar dos contornos xenófobos (mal fundamentados) que alguns acusam os primeiros dois títulos série Uncharted de ter, há opções menos políticas correctas de entretenimento.
Apesar dos contornos xenófobos (mal fundamentados) que alguns acusam os primeiros dois títulos série Uncharted de ter, há opções menos politicamente correctas de entretenimento.

Já aquele jogo a que recorremos por impulso, por vezes, sem dar por isso, é vício. A palavra-chave aqui é impulso. Comigo aconteceu com 2048, dava por mim várias vezes em alturas de bloqueio em projectos mais criativos a pegar no telemóvel e a arrastar os blocos de um lado para o outro. Aconteceu começar a jogar a meio de conversas, fosse com amigos, colegas ou mesmo com o meu chefe. Nos sonhos, as coisas moviam-se de um lado para o outro (pessoas, objectos, tudo) sem que eu percebesse o que se passava, até reconhecer a referência a 2048. É a compulsão que denuncia o vício que deve ser combatida, neste caso eliminando a aplicação do telemóvel.

Na minha experiência, são os jogos que exigem um maior investimento de tempo e que não têm um fim tradicional que são os mais susceptíveis a provocar comportamentos obsessivos. Os RPG, por exemplo, são jogos que valem pelo investimento que os jogadores fazem na evolução das personagens, do seu equipamento e da marca que deixam no mundo virtual. É a ideia de investimento que nos faz voltar ao jogo, como se inconscientemente não quiséssemos que todo o esforço fosse em vão. Ao longo dos anos o estereótipo do jogador de World of Warcraft tem sido parodiado no YouTube, através de registos reais e vídeos fictícios, e até num episódio de South Park.

Não estamos a dizer que World of Warcraft é uma bomba relógio nas mãos dos mais pequenos, mas se calhar há que complementar as horas de jogo com jogging.
Não estamos a dizer que World of Warcraft é uma bomba relógio nas mãos dos mais pequenos, mas se calhar há que complementar as horas de jogo com jogging.

“Não sou médico nem nada,” como dizia o outro, o que posso partilhar é a minha experiência e, no meu caso, percebi que a disciplina era a solução. Obriguei-me a desinstalar a app, a confrontar os bloqueios nos meus projectos e trabalhos, e a não recorrer ao telemóvel quando estava com outras pessoas. Para os mais novos, a disciplina terá de ser responsabilidade dos pais, a quem convirá conhecer o jogo em questão para poderem estabelecer limites de tempo adequados – no meu tempo era uma hora, mas hoje em dia uma hora para pouco dá.

Para os casos mais bicudos, haverá certamente ajuda especializada – algumas escolas têm psicólogos que poderão ajudar a determinar a abordagem a tomar. O importante, no entanto, é assumir que o vício é real sem achar que é equivalente à cocaína (ver, novamente, Dr. Quintino Aires). Para os pais, procurem não ser alarmistas. Para os jogadores deixo uma pérola de sabedoria que aprendi com a minha mãe: tudo o que é demais cheira mal. Não é uma pérola ao acaso, alguns dos mais “investidos” acabam mesmo a cheirar mal e isso é desagradável para todos.

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Duarte Pedreño Ver todos

Adepto de indies, fã antigo da série Total War, e tenho uma relação especial com os jogos de Fumito Ueda. Não sou muito esquisito, gosto de desporto, acção, aventura, RPG... Só dispenso terror e jogos de corrida, a não ser que seja o Crash Team Racing.

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