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BGamer – O fim de uma era

A BGamer anunciou o seu fim. O nome sobreviveu ao fecho da revista, pouco depois do décimo sexto aniversário, e a perda é irreparável. O fecho da BGamer marca o fim de algo maior do que uma publicação digital ou física com décadas de vida, marca o fim do último projecto profissional e inteiramente nacional dedicado a esta indústria.

O fim da BGamer, acima de tudo, é sintomático. Na indústria multimilionária dos jogos, o jornalismo é o parente pobre, sempre em esforço para conseguir manter-se à tona. O resultado está à vista de todos: franquias internacionais em que a prioridade é a tradução de material criado por jornalistas estrangeiros. Pior, falta direcção à nova geração de “jornalistas” nacionais, extinto o bastião da velha guarda, inevitavelmente mal preparados para o que a profissão exige em termos de responsabilidade e postura.

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Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque, mas sempre houve tempo para os dois na redacção.

Digo-o por experiência própria. Em 2010 comecei por estagiar no MyGames, onde sempre houve uma marca amadora nos nossos resultados, apesar do esforço conjunto da equipa. Nesse mesmo ano passei para a BGamer como estagiário no site e a oferecer suporte aos redactores da revista. A mesma equipa era responsável pela ROPS e pela Maxi Consolas, cada uma com o seu director. Os padrões eram outros e a escrita limitada pelo espaço físico das revistas obrigou-me a estruturar e a pensar melhor a minha abordagem à crítica. Se fui bom profissional foi pela insistência e exigência do Pedro Nunes (MC), do Nuno Santos (ROPS), do Bruno Mendonça (BG) e de outros com quem trabalhei, como o Rui Parreira.

Hoje faltam nomes como estes, mais velhos e com mais experiência. Apesar de quaisquer falhas que pudessem ter, obrigavam-se a ser jornalistas, não cedendo aos rumores, confirmando fontes e procurando dar uma voz relevante a tudo quanto faziam. Hoje temos notícias mal traduzidas, colaboradores de sites que se queixam de carga de trabalho nas redes sociais que promovem e opiniões rasas que devem mais ao hype e a um “fanboyismo” amador do que a um conhecimento sustentado e imparcial.

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Todos os meses havia o ritual de folhear a revista que já tinha revisto uma mão cheia de vezes. Era uma sensação de trabalho bem feito.

Mas são estes os sites que têm visitantes e utilizadores. Se a BGamer fechou foi porque não conseguiu atrair a nova geração de jogadores e fazer transição para o digital, incapaz de reconhecer as regras do novo formato, com análises longas e escassas, notícias raras, períodos de inactividade e uma total inexistência de conteúdo multimédia. Não foi culpa da equipa, mas da gestão de quem exercia controlo sobre a marca. Aliás, se a BGamer sobreviveu até agora foi porque a equipa sempre deu muito mais do que compensava o salário, as condições de trabalho e o valor reconhecido pela administração, fosse nos tempos em que chegámos a ser nove redactores ou na recta final em que restava apenas o Rui Parreira.

É o fim de uma era. Custa-me saber que houve alternativas que não foram exploradas para tentar salvar a revista; custa-me saber que a transição para o digital era o prenúncio do fim; mas, mais do que tudo, custa-me que a BGamer tenha acabado depois de ter sido esgotada e despida e a comunidade negligenciada por força de quem a via como mais um negócio e contra a vontade de todos os que investiram com suor e dedicação no último projecto profissional nacional dedicado aos videojogos. A prova de que não baixámos os braços nunca está no Glitch e no Split-Screen, projectos pessoais de quem passou pela BGamer. Já ninguém nos paga para falarmos de jogos, mas aqui estamos, e não temos qualquer intenção de ir embora nos próximos tempos.

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