PAIS, FILHOS E VIDEOJOGOS | 1. Conhecimento de causa

A culpa é dos jogos! Talvez. Não vou dizer que os jogos não têm impacto nos jogadores, em particular nos mais novos, mas é fácil a discussão acabar numa polarização de opiniões – os pais acham que os jogos são violentos e descabidos (especialmente se seguirem a sabedoria do Dr. Quintino Aires) e os filhos acham que os pais são retrógrados e não percebem nada de nada. Antigamente estas divergências resolviam-se fugindo de casa, mas já lá vai o tempo em que o que se levava era um ioiô e um carrinho de rolamentos. Nos tempos que correm, um jovem sem-abrigo teria dificuldade em arranjar tomadas para o ecrã e para a consola ou PC, e andar pelas ruas à procura do filho marginal roubaria os pais do tempo precioso que têm para descansar.

Para evitar este constrangimento, este especial é orientado para pais com filhos que jogam videojogos e para filhos com pais que nunca jogaram nem FreeCell, e que, por isso, podem cair no erro de aceitar certos preconceitos como verdade científica (ver acima Dr. Quintino Aires). Um desmistificar da coisa, por assim dizer. Quem sou eu para estar a dar conselhos a quem quer que seja? Não dou nome a um instituto, mas até trabalhei como jornalista de videojogos durante cinco anos e a minha mãe diz que sou uma pessoa equilibrada, inteligente e bonita. Poderia dizer-se que parto com alguma vantagem.

Jamais tão equilibrado, inteligente ou bonito quanto o Dr. Quintino Aires. É caso para perguntar "onde é que ele arranjou tanto estilo?"
Jamais tão equilibrado, inteligente ou bonito quanto o Dr. Quintino Aires, de modo que se torna imperativo perguntar “onde é que ele arranjou tanto estilo?!”

A ter de escolher um primeiro axioma, vejo-me obrigado a começar por uma dica para os pais: saibam o que jogam os vossos filhos. Saber do que se fala não é essencial para muita gente (a televisão está cheia de exemplos deliciosos), mas uma vez que se trata de pais e filhos, o esforço vale a pena. E saber o nome do jogo não deve ser suficiente; se possível informem-se antes de comprarem o Postal III, que não só não é um simulador dos CTT como também não é um bom jogo. É um exercício parental e de gestão financeira, pois, sejamos sinceros, os jogos não são coisas baratas. Quantas vezes compraram um jogo que o vosso filho jurava a pés juntos ser a coisa que mais queria no mundo para o verem ignorá-lo por completo uma semana depois, sem sequer o acabar?

A responsabilidade da pesquisa anterior à aquisição de um título talvez seja justamente da competência de quem insiste na compra, i.e. dos filhos, mas, dependendo da idade da criança, poderá ser mais importante para a mesma o facto de haver amigos com o jogo em questão ou se o trailer que viu é “awesome” do que a opinião dos profissionais da área. Aqui chegamos a um ponto importante: não falta informação na Internet sobre os jogos, e as críticas/análises destacam muitas vezes os pontos mais importantes e são quase sempre acompanhadas de uma pontuação. Para os pais que não querem outra opinião que não a sua, plataformas como o YouTube e o Twitch são perfeitas para ver outros jogadores em acção e tirarem as suas próprias conclusões. Caso não tenham paciência ou tempo, podem sempre mandar uma mensagem por email ou através do Facebook que nós faremos o nosso melhor para ajudar a esclarecer quaisquer dúvidas, e imaginamos que os outros sites também. Não cobramos nem nada.

Tem o "Sangoku" e o meu filho disse que o trailer era "muita fixe". Quem é que podia adivinhar que o jogo fosse mau?
‘Tem o “Sangoku” na capa e o meu filho disse que o trailer é fixe. Ele só tem 7 anos mas uma capacidade de crítica acima da média. Quem é que podia adivinhar que o jogo era mau?’

Por último, há um simples truque que ajuda os pais a saberem exactamente o que os filhos jogam e a quantidade de horas que passam agarrados ao comando: terem a consola na sala (se o filho for um adepto do PC torna-se mais complicado). É uma decisão que obriga a uma flexibilidade de ambas as partes, mas que, por experiência própria, tem resultados felizes – a minha avó sempre achou que o Pete Sampras Tennis na Megadrive era real e, ainda hoje, a minha mãe se lembra com alegria “daquele jogo dos monstros de pedra” que é Shadow of the Colossus. Curiosamente, o que pode ser visto como uma imposição orwelliana, tem o potencial de juntar a família à frente da televisão como acontecia com as séries Quem sai aos seus ou com Fura-Vidas e de promover o diálogo entre pais e filhos sendo o tema os jogos. Não só ficam informados das opiniões de um lado e do outro, como os pais podem acabar por se aventurar num novo hobby. Fica toda a gente feliz.

Regressando à questão do impacto que os jogos podem ter no comportamento dos jogadores, é certo que os mais novos estão mais vulneráveis a serem influenciados e a terem comportamentos mais rebeldes (coisas da puberdade, enfim…), mas não será o passatempo que os tornará possíveis protagonistas de tiroteios em escolas norte-americanas ou cabecilhas de um culto. Uma coisa é ser adolescente e parvo, outra é ser Charles Manson – este nem à bisca poderia jogar. A culpa não é dos jogos, pelo menos não só, e para cada reportagem ou psicólogo de programa da tarde (ver, novamente, Dr. Quintino Aires) que confirme o contrário há uma mão cheia de estudos académicos e milhares de jogadores saudáveis. Contudo, a violência nos videojogos e o vício, entre outros, são tópicos e realidades relevantes que merecem ser desmistificados. É o que faremos em partes futuras neste especial.

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