No ano em que comprei .Hack//Infection

Por: João Canelo

Devia estar em 2004, se não me engano. As férias de verão já iam a meio, tinha menos uns quilos, o calor ainda não me deixava irritado e sonhava em ser o melhor realizador de cinema português – sonhava de olhos abertos. Foi no mesmo ano que comecei a estender as minhas noites para lá da 1 da manha, com a internet a transformar-se num vício crescente. Foi também o ano em que fiquei até à meia-noite e meia para ver o videoclip da Obstacle 1, dos Interpol. O raio da música dava sempre à mesma hora, bons tempos.

Podem não sentir o mesmo, mas 2004 parece estar incrivelmente distante; uma época longínqua onde ainda não parávamos para perguntar direções ao nosso telemóvel e as revistas dominavam o mercado. Todos os meses comprava a minha Multi Consolas, Revista Oficial PlayStation, PSM 2, sem remorsos. Foi nesse mesmo ano que encontrei .Hack.

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Na imagem: o que o jovem João Canelo achava bué cool em 2004.

É estranho falar tanto desta série, mas é a nostalgia que me move. .Hack é mais que uma série RPG, é mais que um exclusivo ou uma experiência – é uma memória que guardarei sempre comigo.

Faço anos em agosto, não interessa o dia. Fui habituado a estar sozinho com a família nos meus anos; os amigos estavam sempre distantes e não havia tempo para grandes festas. Os presentes eram compostos maioritariamente pelos envelopes brancos com dinheiro, com as tias próximas e as mais distantes a deixarem as suas prendas como traficantes de droga colombianos. Eu aceitava.

Em 2004 – caso ainda não tenham percebido que é o ano em que se passa a ação -, eu só queria comprar um jogo: .Hack//Infection. Não queria mais nada, os outros jogos não importavam. Queria aquele hibrido estranho entre RPG clássico e MMO com uma pitada de anime – as imagens partilhadas pelas revistas convenceram-me que ia ser o jogo do ano e nada me ia parar. Só havia um problema: onde andava o jogo?

.Hack foi uma das minhas primeiras aventuras por Lisboa. Moro nos arredores, em zonas onde somos roubados por estarmos no local errado à hora errada, e a capital sempre pareceu estar distante. Com a idade veio a confiança, e com a confiança vieram as viagens de 31 até à Praça de Espanha. Se já passaram por lá, de certeza que viram as barracas azuis que complementam a praça; barracões de lata com vários mercadores e mercadoria provavelmente roubada. No coração do chamado Centro Comercial ao Ar Livre (acredito que não tenha marca registada), residia uma banca de jogos a metade do preço. A metade do preço – a minha mente explodiu em 2004.

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Também comi uma sandes de panado naquele café enquanto fazia amizade com um tipo que claramente me queria roubar. Bons tempos!

Estava decidido a encontrar .Hack//Infection, a primeira parte da série. Convidei um amigo meu, comprei um bilhete num quiosque qualquer e entrei no 31 com um sorriso na cara e com o maior parte de tomates que poderia ter: estava preparado. Vi novas zonas e revi outras que tinha visitado na infância, ainda na parte detrás do carro do meu pai. Mas agora era apenas eu e o meu amigo, sem pais, sem problemas – éramos felizes.

Entrar nas barracas foi assustador, mas rapidamente encontrámos o nosso objetivo. Com vergonha, detetei uma cópia do .Hack//Infection; pedi para levar, senti um medo tremendo ao tirar o dinheiro da carteira (e fingi que não tinha mais – até porque não tinha) e fiz a compra. Infection era meu.

Saímos a correr, apanhámos o mesmo 31 e fomos jogar para minha casa. Explorámos a primeira masmorra enquanto fazíamos piadas e ficávamos maravilhados com as mecânicas do jogo. Não consegui parar de sorrir enquanto passava o comando para o meu amigo e o via descobrir novos ataques e inimigos – foi um bom dia.

Eu nem sei se estava em 2004, não interessa. 2003, 2004 ou 2005, qualquer ano serve, peço desculpa pelo inequívoco no inicio. O que interessa é que ainda me lembro daquela tarde; lembro-me do calor e da brisa suave; de fazer rir as pessoas no autocarro com as piadas que fazíamos; de entrar pela barracas ainda com os tomates na mão; lembro-me de tudo…bem, de tudo menos do ano, assim parece.

Hoje tenho o meu dinheiro, as minhas tias oferecem-me roupa, outras nem me falam. É um tempo diferente, muitas das pessoas que via nos meus anos já não estão cá; perdi familiares, perdi amigos e até me perdi a mim. Não sou a mesma pessoa, nem quero. Hoje compro os meus jogos; visito a Fnac, apercebo-me que posso encontrar mais barato no estrangeiro e clico em sites e abro janelas. Depois movo o rato e clico no botão enorme que diz “comprar”; e o jogo fica comprado. E é isto.

Closeup of buy now button on the keyboard

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