Saltar para o conteúdo

Já ninguém empresta jogos

Por: João Canelo

Quando o MC Hammer ainda era novidade e o Templo dos Jogos preenchia as tardes da SIC com as suas maravilhosas e extremamente informativas críticas – e até aqui tenho sido sarcástico -, as ruas eram verdadeiros campos de batalha. Por entre invejas e guerras de miúdos, um conflito começou a borbulhar na mente de todos os jovens jogadores – o ritual de empréstimo.

Hoje em dia, com o crescimento da distribuição digital (e de um enorme sacanismo geral), o acto de emprestar um jogo foi reduzido a uma ínfima parte das nossas vidas como jogadores. Para os que cresceram durante os anos 90, como eu, é uma prática que traz saudades e raiva num cocktail explosivo e totalmente exagerado que estou praticamente a inventar agora. Mas há 20 anos atrás? Meu Deus, era uma guerra.

Ai que amiguinhos que são agora! E nós que quase que andamos à batatada por vocês.
Ai que amiguinhos que são agora! E nós que quase andámos à batatada por vocês.

E não estamos a falar de uma guerra qualquer; era preciosa, as nossas sessões de jogo dependiam dela. Comprar um jogo não implicava apenas descobrir algo que nos divertisse; tínhamos de encontrar algo que os nossos amigos cobiçassem. Tínhamos de descobrir o jogo que poderíamos facilmente emprestar para não correr o risco de ficarmos apenas com o nosso novo e aborrecido e “estúpido” jogo.

Termos um jogo que não interessasse a nenhum dos nossos amigos ou que eles já tivessem significava que tínhamos menos hipóteses de conseguir jogar o que queríamos. Quando éramos miúdos, isto era um código de honra, ninguém emprestava sem receber algo em troca – hoje ou emprestamos ou nem pedimos, a nossa vida não depende do ato em si. Foi através de trocas e empréstimos que consegui jogar pela primeira vez o Resident Evil 2 e o Metal Gear Solid, em pleno apogeu da primeira PlayStation. Sem este pequeno ato pouco altruísta, não tinha experimentado dois dos jogos que me moldaram como um jogador.

Mas nenhum amigo me disse como se passava deste gajo.
Mas nenhum amigo me disse como se passava deste gajo.

Mas as boas memórias acabam aqui. E porquê? Porque na maioria das vezes nós não escolhíamos os jogos que iriamos receber, isso era um sonho poucas vezes concretizado. Nos aniversários e natais, corríamos para as prendas em busca dos novos jogos e com a esperança que os nossos pais não só nos ouviram como compreenderam correctamente o nome dos jogos que pedimos. Em 70% dos casos, eles não compreendiam e isso dava origem a uma colecção de jogos completamente desequilibrada – um verdadeiro terror para as trocas.

Coloquem-se na minha pele: têm 10 anos, já são absolutamente lindos, músculos enormes e definidos, e a vossa colecção de Mega Drive tem pérolas como Judge Dredd, Batman Forever e Bonkers. Vocês sabem a ginástica social e mental que eu tive de fazer para conseguir que um amigo meu me emprestasse o Castlevania: The New Generation por uns dias? Era uma guerra, um verdadeiro horror que, por mais saudosismo que sinta, agradeço que esteja agora longe.

Mas existia uma inocência que é difícil de colocar de parte. As nossas escolhas eram, sem dúvidas, perigosas porque não existia muita informação disponível sobre os jogos. Era a nossa imaginação e as pequenas imagens que decoravam as capas que nos ajudavam a escolher – e muitas vezes disse: “vou levar este, parece que é bom”. Mas eu não sabia se era bom ou não, era um arrepio que percorria a espinha que me dava a força para escolher. O mesmo se aplicava às trocas e este pequeno ritual de compra dava origem a jogos que hoje em dia ninguém iria escolher. Será que um jovem, com a informação que tem hoje iria escolher o AMOK para a SEGA Saturn sem pensar duas vezes? Um amigo meu comprou-o – e é verdade, ele emprestou-me.

10/10? Na altura nem tínhamos scores nas capas.
10/10? Na altura nem tínhamos scores nas capas.

Cresci na zona de Moscavide. Se não conhecem, fica antes do Parque das Nações e é muitas vezes conhecida como “Não conheço” por muitas pessoas que eu vou encontrando na minha vida. As ruas da freguesia, que estão tão longe da perfeição que desconfio do seu planeamento urbano, contam histórias que ainda ecoam pela minha cabeça. Corrermos com os jogos na mão para irmos até casa dos nossos amigos, passarmos tardes em frente à televisão enquanto passávamos o comando de mão para mão na tentativa de ultrapassarmos aquele inimigo que teima em não morrer – boas memórias. Foi assim que passei Metal Gear Solid e me apaixonei por Final Fantasy VII, entre trocas e caminhadas e tardes de jogo. O ato está mais que morto, é agora superficial, mas o saudosismo é uma arma complexa que nos atinge quando menos estamos à espera e foi esse sentimento tão portugueses que me fez viajar até às tardes em Moscavide, algures nos anos 90.

Chegamos a Setembro e os mais novos começam-se a preparar para um ano lectivo. Enquanto o calor acalma e o vento antecipado do outono envolve o meu quarto, olho com olhos de ver para o passado, para a simplicidade e para a alegria que parece ter desvanecido com os anos. Mas depois apercebo-me que agora tenho dinheiro para comprar os jogos que quiser, quando quiser e solto um “lol”. Sim, um longo e profundo “lol” e grito da janela: “vão para a escola, seus sacanas”, enquanto os miúdos passam já com as malas nas costas. Depois regresso para o meu escritório e chego à conclusão que não tenho tempo para nenhum dos jogos que comprei. E esta é a felicidade.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: