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Picture Perfect: a arte de fotografar videojogos

Somos curiosos inatos e quero acreditar que criativos por natureza. É por isso que acho tão natural que a fotografia no ambiente de jogos (in-game photography ou IGP – porque em inglês as coisas parecem ter sempre mais pinta) seja um reflexo disso mesmo: a criatividade de um produtor que desperta curiosidade num jogador com talento; a criatividade desse mesmo jogador que desperta curiosidade na comunidade.

Fotografar é uma arte e acho que fazê-lo nos videojogos é nada menos que isso. Ainda que não seja uma novidade, a captura de imagens nestes mundos virtuais tornou-se uma prática mais artística, perfecionista e, arrisco, realista, com o crescente desenvolvimento tecnológico e gráfico. Não me refiro à típica fotografia para mostrar um bug de fazer rir sem parar ou à captura do achievement que mete inveja aos amigos, mas sim a verdadeiros projetos de artistas digitais.

Veja-se o trabalho de Duncan Harris, talvez o nome mais sonante na cena, com o projeto Dead End Thrills. O trabalho do jornalista inglês fala por si mesmo e prova como os profissionais da indústria dos videojogos já dão importância a este mundo novo. É que Harris recebeu antecipadamente, em 2012, uma versão preliminar de Dishonored para mostrar (através da objetiva) a estética do mundo steampunk à comunidade de jogadores.

Na lista de nomes que vale a pena fixar estão ainda James Pollock (a não perder a seleção de fotografias a preto e branco de Skyrim e o trabalho que desenvolve com Polaroids), do australiano Iain Andrews, de Midhras (que usa mods para experimentar com os parâmetros das imagens) ou Leonardo Sang que usa os jogos como plataforma para o que chama de “fotografia quotidiana”, criando um feed no qual imagens reais e digitais coabitam lado a lado, de forma incrível. Não esquecendo, Josh Taylor, criador do projeto “Shepard’s Journey”, que pretende contar o arco narrativo da trilogia Mass Effect somente através de magníficas fotografias do ambiente e personagens. E ainda Benoit Paillé, que assina um projeto que pretende misturar a realidade com o virtual.

Muitos argumentam sobre se falamos ou não de arte. Harris, por exemplo, defende que estes fotógrafos são apenas “turistas” ao fotografarem mundos criados pelos verdadeiros artistas (os produtores). Já Smith, outro fotógrafo digital de quem falarei mais à frente, defende que com as ferramentas dadas pelos criadores, os artistas podem realmente criar trabalhos artísticos transformativos. Ainda que o uso do termo “arte” neste contexto possa ser discutível, acho que há um outro conceito impossível de retirar da equação: profissionalismo. Porque ao fazer IGP são precisas as mesmas valências do que quando se fotografa o mundo real – olho para composição, ângulos, luz, espaços, oportunidade para a captura perfeita e, acima de tudo, capacidade de dar algo mais a um simples momento prestes a ser imortalizado para sempre.

“Para mim fazer in-game photography é sobre capturar momentos. Qualquer pessoa pode tirar uma fotografia a um item ou a um cenário num jogo, mas transmitir uma ideia ou sentimento com a tua fotografia, isso é algo muito mais interessante” – Karl Smith

Não tenho dúvidas que possamos falar de representações tão ou mais emocionantes da realidade, nestes casos digitais. Se vir uma fotografia de Groove Street em GTA V sei que vou sentir-me nostálgica sobre aquela que foi a morada de CJ em San Andreas – é um local importante na minha história de jogadora e ao qual associo muitas memórias. Neste contexto, não poderei não revelar que considero a Rockstar responsável por uma das mais interessantes funcionalidades neste espectro dentro de um videojogo: o Snapmatic.

Poder tirar fotografias com um smartphone de uma forma muito realista, com atenção a limites de campo de visão, ângulos, entre outros aspetos, deu outra profundidade ao mundo de GTA V e moveu uma legião de pessoas e grupos (GTA Photographers) a andar de câmara em riste por Los Santos e Blaine County e partilhar fotos em sites, blogues e redes sociais. Aplausos ainda para o apoio da Rockstar – multiplicam-se os desafios fotográficos no SocialClub e os destaques nos especiais sobre os projetos da comunidade.

“Há imensos jogos com “photo modes” onde podes parar a ação e utilizar uma câmara livre com imensos efeitos. Mas eu prefiro o método do GTA V, onde é a personagem a segurar na objetiva.” – Karl Smith

Neste ambiente digital, importa conhecer o trabalho de Karl Smith, autor do projeto ILLSNAPMATIX que tira partido da luz virtual do mais recente jogo da série. Uma “celebração das pessoas, locais e todas as coisas iluminadas pela luz virtual de GTA” em fotografias nas quais a atenção a este elemento é simplesmente espetacular. Descobri o projeto pelo Instagram e devo dizer que é um dos meus preferidos. Os jogos de luz, a forma como os espaços são captados, as pessoas e ainda algumas panorâmicas que vão aparecendo no feed, valem a pena descobrir.

Em conversa com o Glitch, Smith revelou preferir o método do jogo da Rockstar para fotografar: “Há imensos jogos com “photo modes” onde podes parar a ação e utilizar uma câmara livre com imensos efeitos. Mas eu prefiro o método do GTA V, onde é a personagem a segurar na objetiva”.  Para o autor do projeto, este ambiente digital torna-se “muito mais próximo da fotografia no mundo real: é preciso sair, explorar e encontrar aquela grande fotografia”. Em jeito de desafio, pedimos ainda a Smith que nos revelasse a fotografia que mais gostou de tirar:

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“A ideia da cidade a olhar de volta para nós é interessante, especialmente num mundo completamente virtual.” – Karl Smith

Nesta altura, poderíamos falar de coisas sérias como a questão dos direitos de autor destes projetos. São de quem cria o jogo ou de quem o fotografa e concebe algo a partir de uma base já existente? Deixo esta conversa para um artigo posterior ou, se quiserem fazer-me o grande favor, para a nossa bonita secção de comentários.

Se o tema, tal como a mim, vos interessa – e uma vez que este é um artigo muito resumido de todo este mundo fantástico – recomendo que espreitem artigos como “Photo-Bomb” do Kill Screen  ou “The Photographer Subculture: inside Fallout, GTA and Left 4 Dead”  do Hopes&Fears.

BÓNUS GLITCH: “How To” do print oficial de SHENMUE pelo artista  John Sweeney

VanessaDias Ver todos

Fã de RPG e conhecida por completar, mais vezes do que o recomendado, os jogos que mais adoro. Also love pizza.

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